1. Começamos por afirmar a nossa alegria com a vinda do FIA World Rallycross Championship para Lousada, no ano de 2025. Somos 100% a favor de que o nosso concelho seja um dos pontos de uma prova deste evento. Não deixamos, contudo, de constatar algumas incongruências em todo o processo que, até ao dia de hoje, deveriam ter sido analisadas racionalmente.
No final de Julho, em Assembleia Municipal, foi apresentado um vídeo com o que seria a NOVA PISTA DA COSTILHA. Não foi dito é que seria já em 2025.
Curiosamente, em Maio de 2025, a Pista da Costilha terá dois eventos de grandiosidade relevante: o FIA World Rallycross Championship (2 e 3 Maio) e o Vodafone Rally de Portugal do Campeonato do Mundo FIA (entre os dias 15 e 18 do mesmo mês).
2. Olhamos para a modalidade e, sem sermos especialistas, não deixamos de constatar alguns factos. Em 2022, o campeonato teve seis provas; em 2023, teve 10 provas, com duas edições em alguns circuitos; e, em 2024, teve 10 provas, em cinco circuitos. De facto, concluímos que a abrangência mundial da prova fica aquém do termo, porque decorreu em circuitos, unicamente, da Europa (Suécia, Hungria, Bélgica, Portugal e Turquia). No calendário provisório de 2025, está prevista a visita a países de outros continentes, nomeadamente Canadá e Austrália. Espanha tem uma grande tradição no desporto automóvel e não está presente no FIA World Rallycross Championship. Não podemos, no entanto, deixar de apontar uma perspectiva de optimização da modalidade com a promoção do diálogo entre FPAK e a sua congénere espanhola; haveria, certamente, ganhos de escala, nomeadamente ao nível do turismo do desporto automóvel e das receitas. O FIA World Rallycross Championship tem, claramente, uma dimensão reduzida, quer seja pelo mediatismo do mesmo, na TV e nos social media, quer seja ao nível da notoriedade dos pilotos e dos patrocínios associados. E Lousada, se faz uma aposta nesta modalidade, tem de ser precursor de muito mais e melhor.
3. Ficam dúvidas sobre a lisura e a transparência das obras anunciadas muito recentemente para a NOVA PISTA DA COSTILHA, a fim de que seja possível receber o FIA World Rallycross Championship, já em 2025.
A democracia fica mais engrandecida e confiável com transparência no processo, e revela-se essencial à participação cívica e à boa governança. Assim, seria relevante termos acesso, através de meios electrónicos, aos documentos relacionados, como sejam os planos, os orçamentos, os cronogramas de execução e de financiamento da obra. Desta forma, promover-se-ia a discussão do tema, garantir-se-ia informação clara para escrutínio e disponibilizar-se-ia um mecanismo de combate à corrupção, promovendo uma gestão pública mais ética e responsável.
A emoção e a racionalidade deveriam andar de braço dado. Ficam algumas dúvidas que, na nossa opinião, deveriam ser clarificadas:
a) Quais as condições financeiras previstas no contrato entre CAL, Município de Lousada e FIA, para receber a prova, caso a mesma se realize, efectivamente, no triénio 2025-2027?
b) Qual o valor do investimento directo aplicado na pista, pelo Município?
c) Há investimento indirecto para garantir que o World Rallycross Championship seja uma realidade? Qual o valor?
d) O Município assegurou outros apoios relevantes, nomeadamente junto do Turismo do Porto e Norte de Portugal e/ou do Governo Central de Portugal para amortizar o investimento dos cofres municipais?
e) Qual o investimento directo, quer com recursos do próprio Município quer com recurso a subcontratação, que fará da prova uma realidade?
4. À semelhança do que acontece com o WRC Vodafone Rally de Portugal, é necessário fazer um estudo relativo ao FIA World Rallycross Championship que permita tirar conclusões, qualitativas e quantitativas, nomeadamente a despesa directa com adeptos (portugueses e estrangeiros) e equipas, número de espectadores e, claro está, a receita fiscal (fonte de receita para o Município).
5. No recente lançamento da 20.ª edição do Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses, os autarcas presentes criticaram a Lei da Contratação Pública, nomeadamente, a sua morosidade e burocracia. Como é possível, então, em Lousada, conseguir-se em cerca de oito meses agilizar todo o processo?
Ainda ao nível da transparência, deveria haver uma contabilidade de custos que permita uma análise detalhada das despesas e receitas, inerentes à NOVA PISTA DA COSTILHA. A referida contabilidade permitiria ainda uma análise de custos, um planeamento estratégico e uma melhoria de eficiência. A transparência do processo não pode ficar, somente, nos concursos públicos acessíveis através de plataforma electrónica específica e na Prestação de Contas Anual do Município. Estas informações são de difícil acesso e compreensibilidade à maioria dos lousadenses.
6. Para que haja, claramente, uma vantagem competitiva e económica para Lousada, há necessidade de criar um cluster e um ecossistema do automóvel que proporcione condições para que surjam pilotos locais (ex.: escola de pilotos), startup’s na área da indústria automóvel e actividades conexas com o rallycross, sem descurar, obviamente, a economia circular e a sustentabilidade em redor do desporto automóvel.
Este triénio de rallycross em Lousada não pode ser algo semelhante a uma ilha e, caso se confirme a racionalidade do investimento, devem criar-se alicerces sustentáveis para o crescimento económico do concelho. Certamente, há muitas oportunidades que podem ser agarradas e imensas potencialidades que devem ser exploradas, pelos players da modalidade, para elevar o patamar de desenvolvimento e reconhecimento da modalidade e do Município.
7. Obviamente, deve haver lugar à diversidade, mas sem ignorar a mensuração, em termos qualitativos e quantitativos, para que as decisões tenham um real e verdadeiro impacto na comunidade.
Ricardo Luís*
Contabilista e Consultor de empresas
* Escreve mediante o antigo acordo ortográfico













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