As pessoas cobram tanto de mim e oceanos ensanguentados transbordam ferozmente pelo meu sistema nervoso, causando uma iminente tempestade e um tenebroso furacão! Os meus ossos estremecem em forma de espiral, as minhas pestanas navegam em lodo, ainda que se mantenham secas como o ventre sagrado de Maria. Alucino como quem tomou doses excessivas de um ácido lisérgico, devoro-me com a prepotência de um burnout e sou atropelado por um canibal cego. Amórfico fico, sem espírito, desértico como ventos parados. Um barco sem vela sou, bêbado com a secreção de uma vagina de uma marginal, tenho paixão sem ciclo… Tom Waits, Don Van Vliet, Wild Man Fischer? Talvez a música experimental de John Zorn tenha compaixão de mim?…
Faleço.
Entro num estado sem governo de mim próprio, bom, ora essa…, inexistente na Via Láctea. Apenas cogito um manancial de ocas palavras, vivo das cirroses que acomodaram Pessoa. Sou atingido por um raio, milagrosamente sinestésico, remetendo a minha impessoalidade ao caos de um buraco negro.
Ácidas chuvas sou. Sou o corpo de um menino subnutrido. Sou uma bala que perfurou o cérebro de um afro-americano. Sou o taxista do Inferno de Dante Alighieri. Sou um cão doente, vítima de atropelamento à margem de um precipício. Sou um pedinte em Ladri di biciclette (1948). Sou o kaleidoscópio de Sedmikrásky (1966). Sou aquilo que nunca serei, que jamais anseios poderei conter. Sou aquilo que nunca fui, na ponte da velha estrada dos meus pensamentos mórbidos e hei de ser o que o desejo desprezou na mais brilhante mente de todas. Sou a complexidade de uma ratoeira, um ninho de avestruzes e quetzalcoatlus.
Sou o céu cristão que tem aprisionado multidões, levando cada um ao degredo e ao retrocesso da sublime humanidade.
Edgar Queirós
Estudante na FLUP













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