por | 5 Dez, 2024 | Editorial, Editorial

Editorial 134 | Entre o espetáculo e o descaso

O evento “Miss e Mister Sénior”, realizado no passado dia 1, deveria ter sido uma celebração da vitalidade e do protagonismo da terceira idade. Contudo, o que se viu foi uma gritante falta de sensibilidade da autarquia em relação às necessidades básicas dos idosos que participaram.

O evento decorreu numa tenda gigante instalada na Praça das Pocinhas, uma solução que pode parecer conveniente, mas que rapidamente se revelou num símbolo de improviso e descaso. Durante as cinco horas que os participantes passaram no local, foram ignoradas questões essenciais como o acesso a casas de banho e a oferta de água ou alimentos simples, como fruta e bolachas. São detalhes que podem parecer triviais, mas que fazem toda a diferença para o bem-estar de pessoas idosas, especialmente num evento de longa duração.

Esse descuido reflete um padrão preocupante. Também porque, em várias áreas – seja o auditório, as piscinas ou o parque infantil – tudo parece subdimensionado, como se fosse suficiente fazer e ter “o mínimo necessário”. Não se trata apenas de um problema logístico, mas de uma visão administrativa centrada mais no espetáculo do que no serviço à comunidade. A tenda na Praça das Pocinhas resulta da falta de um equipamento (pavilhão multiusos) dimensionado para acolher eventos de média e grande dimensão. Quem não pensa nisto, também não se preocupa com o facto de avaliar se a Tenda é confortável e funcional para o propósito, parecendo suficiente que esteja visível e sirva o intento de criar uma imagem de sucesso.

Eventos como o Miss e Mister Sénior são importantes, pois promovem a interação social, valorizam os idosos e destacam a sua importância na comunidade. Isto se acontecer sem os expor em demasia. No entanto, quando este tipo de iniciativas não são acompanhadas de um planeamento cuidadoso, transmitem a sensação de que são realizadas apenas para o “show-off”, para marcar presença no calendário, sem consideração genuína pelo público-alvo.

Organizar eventos é muito mais do que instalar uma estrutura grandiosa e reunir um grande número de pessoas. Exige empatia, atenção aos detalhes e capacidade de colocar o bem-estar dos participantes no centro das decisões. É certo que saíram satisfeitos, educados que foram a não reclamar e a agradecer o pouco que lhes dão. Mas, neste caso, os idosos de Lousada mereciam mais atenção e acuidade.

O contributo cívico que prestamos com este editorial é um alerta construtivo para que se reflita sobre este episódio e se adote uma abordagem mais humana e responsável na organização de futuros eventos. Não basta que sejam vistos; é essencial que sejam sentidos como uma experiência positiva e acolhedora. Afinal, cuidar dos nossos idosos não é apenas uma questão de responsabilidade, mas de respeito.

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Antero Correia aponta divergências sobre gestão financeira nos Bombeiros de Lousada

Depois do anúncio da sua demissão, que surpreendeu a sociedade lousadense, Antero Correia falou a...

AMBIENTE & PATRIMÓNIO, POR ERNESTO GONÇALVES: OURIÇO-CACHEIRO — Um pequeno vizinho que ajuda mais do que incomoda. Façamos as pazes.

Há animais que, só por aparecerem no nosso jardim ou na nossa horta, são imediatamente vistos como...

JSD Lousada lança projeto “Contas à Vida” para promover a literacia financeira e o empreendedorismo jovem

NOTA DE IMPRENSA DA JSD A Juventude Social Democrata (JSD) de Lousada lançou o “Contas à Vida”, um...

Carta de demissão do Presidente dos Bombeiros de Lousada

Antero Correia, Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros de Lousada apresentou a sua...

De forma cada vez mais frequente, o ex-Primeiro-Ministro e ex-líder do PSD, Pedro Passos Coelho,...

Em tempos, Luís Montenegro disse: «A vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito...

PSD Lousada volta a denunciar atrasos na requalificação da E.M. 564-2 e questiona inação do...

O jornal O Louzadense apresenta uma entrevista com o trompetista lousadense Hélder Coelho, que...

Para mim, falar da castanha é falar de memórias do meu passado longínquo, mas também do meu...

O compasso do tempo dança-se em Lousada: quando uma música vale por mil gestos

A iniciativa reuniu cerca de 80 participantes com 55 ou mais anos, numa jornada dedicada à...

Siga-nos nas redes sociais