por | 14 Dez, 2024 | Sociedade, Uncategorized

Aconselhamento matrimonial e terapia de casal combatem aumento do divórcio

ESTATÍSTICAS NÃO MOSTRAM REAL DIMENSÃO DO DIVÓRCIO

Portugal ocupa o segundo lugar no ranking de países europeus com mais divórcios. Segundo dados oficiais portugueses, em 2021 foram celebrados 29 057 casamentos e 17 279 divórcios. Em cada 100 casamentos, há 60 divórcios. Em Lousada, no ano passado registaram-se 77 divórcios. Contudo, os casamentos informais e as uniões de facto temporárias ou repentinas escapam às estatísticas, pelo que estas não retratam a realidade como ela acontece. Há especialistas que dizem que estamos a assistir a uma avalanche de casa-descasa, junta-separa. Para estancar este fenómeno social há um novo recurso a ganhar terreno: o aconselhamento matrimonial.

Advogados, psicólogos e assistentes sociais que entrevistamos são unânimes: os números estão muito aquém da realidade.
Para Regina Sampaio, advogada, “tendo em atenção a minha experiência profissional de quase 30 anos do exercício da advocacia, cumpre-me referir que o número de casos de divórcio, em Lousada, tem vindo a crescer exponencialmente”. Nas idades mais jovens trata-se, maioritariamente, “de separações porque, maioritariamente, os jovens até aos 30 anos optam por união de facto, ao invés de casamento, seja ele civil ou religioso”, esclarece a advogada.

Esta insiste que a sua experiência profissional, “mostra que a principal razão da separação ou divórcio de casais jovens, se prende, maioritariamente, com dificuldades de comunicação, muito oriundas da falta de tempo e disponibilidade emocional, que o dia-a-dia acarreta”.

No que se refere a outras faixas etárias “tal como os brasileiros denominaram, constato um grande aumento do número de divórcios aclamados de «grisalhos», isto é, divórcios de pessoas casadas há mais de 20 ou 30 anos. É uma realidade muito crescente na sociedade lousadense”.

O que Regina Sampaio depreende de tal realidade, é que, “é um dos membros do casal que pretende a separação, por razões pessoais, que se relacionam com o facto de ambicionarem uma vida desprendida de responsabilidades que um projeto familiar sempre, e inevitavelmente, acarreta”.

Os divórcios e/ou separações em casais mais jovens “tendem a ser litigiosos e com muita dificuldade nas regulações das responsabilidades parentais e partilha de bens. Já nos casais mais velhos, apesar de quase sempre a iniciativa da separação e/ou divórcio parta de um dos membros do casal, acaba, quase sempre, por terminar em divórcio por mútuo consentimento”. Considera que isso se justifica pela maturidade dos membros do casal, que pretendem solucionar a separação com os menores danos emocionais e patrimoniais possíveis.

“Comum a ambas as faixas etárias é prescindirem da mediação familiar, que o Estado disponibiliza, no sentido de os casais tomaram a decisão o mais amadurecida possível”, aponta a advogada, a qual está em crer que “caso tal expediente fosse utilizado com mais frequência se diminuiria o número de divórcios e separações”.

A advogada conclui, que “este aumento a que assisto diariamente do número de separações e divórcios na realidade lousadense se deve ao fenómeno mundial, nacional e, inevitavelmente, local, descrito pelo sociólogo polaco Zygmunt Bauman, em que define o conceito de modernidade líquida como uma nova época em que as relações são frágeis e maleáveis como os líquidos”.

MAIS MULHERES A TOMAR A INICIATIVA

De igual modo a também Carolina Santos, de Felgueiras, mas a exercer advocacia em Lousada explana a mesma ideia em relação ao fenómeno em apreço. “A minha perceção pessoal, demonstra que, mais do que o estrato social, tenho-me apercebido de uma alteração na idade de quem requer o divórcio, bem como um grande desequilíbrio do sexo do cônjuges que toma essa iniciativa”.

“Tenho reparado que, cada vez com maior frequência, são mulheres mais velhas que me procuram para se divorciar”, revela Carolina Santos, acrescentando que “a grande maioria já com «os filhos criados» e muitas delas, inclusive, já com netos”.

Da sua experiência profissional assume que, “muitas delas se acomodaram durante décadas a um casamento que não as realizava, muitas vezes violento, mas que o mantiveram em prol dos filhos e da estabilidade financeira do agregado familiar, até que ganharam coragem para dar este importante passo quando já não têm menores a seu cargo e quando passam a receber uma reforma que lhes permite adquirir independência financeira”.

Entre outros fatores, muitas vezes essa decisão coincide, “com uma situação de desemprego ou reforma de um ou ambos os cônjuges e o aumento da convivência diária por falta de obrigações profissionais força os cônjuges a uma permanência maior na habitação, gerando discussões que desgastam a relação”.

Na mesma linha de pensamento da sua colega Regina Sampaio, também Carolina Santos entende que há uns anos “era muito comum ver divórcios de casais juntos há uma década, apercebo-me que tais casos são cada vez mais raros na medida em que a maioria dos casais se separam ou pouco depois do casamento, geralmente após o nascimento do primeiro filho, que implica uma alteração muito grande da rotina familiar, ou depois de décadas de casamento, sendo raras as situações de meio termo”.

A advogada termina alertando para o facto de que “talvez a falta de divórcios mais jovens se fique a dever ao facto de toda uma geração de casais que hoje têm 30/45 anos, que optaram por viver em união de facto, em detrimento da celebração casamento, pelo que tais separações não se refletem no número de divórcios”.

UMA NOVA OPORTUNIDADE

Diz a lei e diz a sabedoria que importa tentar resolver os problemas do relacionamento, para que não seja prematuro considerar a separação. É importante tentar resolver os problemas através da terapia de casal ou comunicação eficaz antes de tomar uma decisão final.

Quando não se colocam em perspetiva as possibilidades de perdoar, melhorar, debater e analisar, nunca se saberá se havia alternativa ao divórcio ou à separação. A propósito disto, leia-se em anexo a este texto o que tem a dizer a psicóloga Marina Ferreira, que se encontra a realizar duas especializações académicas, em Sexologia Clínica e em Terapia de Casal e Familiar.

Terapia de Casal e Sexologia Clínica

Marina Ferreira, psicóloga

São 24 horas, a esposa de C. e o filho bebé já estão a dormir. O marido sempre se habituou a deitar tarde, pois nunca necessitou mais de seis horas de sono para e sentir bem no dia seguinte. Trabalha on-line para uma empresa prestigiada do ramo dos seguros e consegue gerir o seu tempo de forma adequada. A esposa, por seu lado, sempre necessitou de uma boa noite de sono, para se sentir funcional, ainda mais agora que tem uma criança pequena para cuidar. E que trabalho que lhe dá! Enquanto C. trabalha durante a noite, raramente se encontram nesse horário. O bebé precisa que o adormeça, o que faz com que ela fique a dormir junto dele. O marido ultimamente tem dado por si, durante a madrugada, a frequentar sites on line para adultos, chats de conversas e redes sociais. Isso tem-lhe agradado, mesmo que signifique descuidar-se da vida íntima e amorosa conjugal. A esposa aos poucos vai percebendo isso e o distanciamento que há entre eles preocupa-a muito. Ela procurou uma consulta na semana passada. Foi uma primeira vez sozinha, mas na próxima sessão C. vai acompanha-la à consulta de terapia de casal e sexologia clínica.

Este é um caso fictício, mas ajuda a demonstrar que a terapia de casal é uma área de intervenção psicológica (psicoterapia), que tem como objetivo ajudar casais que se encontram em dificuldades pelas mais variadas razões, a encontrar novamente o equilíbrio na relação, ou então, numa última análise, a concluir conscientemente que será melhor terminar a relação.

Esta intervenção psicoterapêutica é apenas operada por profissionais especializados na área, com conhecimento científico para tal. Quando um casal como o que está mencionada no início deste texto nos procura, tentamos abordar o problema da forma mais séria e assertiva possível, onde procuramos que ambas as partes percebam as limitações e dificuldades pelas quais estão a passar, as exponham e que se comprometam a trabalhar a relação em conjunto.

Numa primeira abordagem e durante as sessões, o casal recorda e verbaliza a fase de enamoramento, o início da relação, o casamento, o compromisso, a vinda do filho entre outras fases importantes da vida em casal. Esta análise permite que se possa intervir e ajudar conscientemente a resolver os aspetos importantes e que são o cerne do problema ou problemas que estão a ser trabalhados.

A terapia de casal e a sexologia clínica são duas áreas de intervenção fundamentais nos dias que correm se formos analisar todos os obstáculos pelos quais passam as relações amorosas e íntimas da nossa sociedade.

Temas como homossexualidade / bissexualidade, violência doméstica das mais variadas formas, infertilidade, gravidez não desejada, e até questões relacionadas com disfunções nas relações sexuais podem ser abordadas e intervencionadas com sucesso neste tipo de apoio clínico.

Por fim, é de salientar que estas abordagens, como todas as outras em psicologia, não são mágicas nem de efeitos imediatos. Há muito trabalho subjacente a estes processos. Por detrás de cada sessão há tarefas a cumprir, estratégias a serem testadas e acima de tudo tem de existir vontade, empenho e dedicação também da parte de quem nos procura. Levar a sério a terapia é definitivamente meio caminho andado para obter resultados satisfatórios. É importante pedir ajuda. A confidencialidade é assegurada pelo profissional de psicologia e o código deontológico é sempre o maior aliado do terapeuta em contexto de consulta.

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Lousada ultrapassou os 50 mil habitantes, devido ao aumento da população estrangeira

Análise do jornal O Louzadense aos mais recentes dados provisórios e preliminares do Instituto...

Equipa de Shinkyokushin conquistou seis pódios

O WIBK Dojo Verdadeiro Espírito, do lousadense Paulo Rente Silva marcou presença no Torneio...

Atleta de Lousada convocada para Jogos do Eixo Atlântico

A jovem Daniela Pereira, natural da freguesia de Pias, em Lousada, foi convocada para integrar a...

"Talvez seja por isso que gosto tanto das nascentes. Porque, ao contrário dos rios, que toda a...

Campeões Nacionais de Natação Adaptada

Os atletas lousadenses do clube Lousada Século XXI estiveram em grande evidência no Campeonato...

A bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, Paula Franco, foi uma das convidadas do...

Forte internacionalização do Inferno das Febras

O Inferno das Febras regressa ao Parque de Lazer e Merendas de Casais, em Lousada, nos dias 28 e...

O treinador penafidelense João Paulo Guedes Silvestre, de 36 anos, é referido por várias fontes...

Protocolo para projeto de turismo cultural assinado entre a CCDR-N e Vidas em Cena

A Associação Vidas em Cena, de Lousada, está entre as dez entidades culturais da Região Norte...

A celebração dos 100 anos dos Bombeiros Voluntários de Lousada constitui um momento de...

Siga-nos nas redes sociais