Acontecimentos familiares dos últimos tempos, vividos a par com o Natal e os dias cinzentos e chuvosos, predispuseram-me a algumas reflexões sobre memória e invenção. A releitura desta obra de Lídia Jorge nas férias do Natal juntou as peças todas para esta reflexão.
Segundo a psicologia narrativa, a memória pode, no entendimento de Nunning, ser ela mesma considerada uma ficção. Consideramos aqui ficção no sentido de invenção, ou jogo entre o que é matéria do imaginário, ainda que gerada pela procura do acontecido no passado individual de quem ativa o processo da memória. Por conseguinte, e em torno destas considerações, pairam as cores inevitáveis da invenção, ou seja, de uma certa ideia de que as relações entre literatura e memória não subtraem o acesso ao passado, outrossim, admitem a imaginação como possibilidade única de o ativar num continuum dinâmico gerado pelo potencial literário que implicam nesse processo.
Ser testemunha daquilo que a erosão do tempo foi esburacando é a origem e o motor que move a mão da narradora de O Vale da Paixão, que se apresenta ora na primeira, ora na terceira pessoa (repare-se neste movimento pendular no excerto – «ela detinha» transformado expressivamente e de forma declarativa em «eu possuía entre mãos uma inestimável herança»), ser testemunha em relato escrito exige, depois, a deslocação do ser da narradora para o ritmo do tempo, radicando-se a memória nesta imperfeição que o constitui.
Assim, se a construção textual supõe o recurso à linguagem, assumindo uma dose de reconstituição interpretativa, aspeto que coloca imediatamente o que testemunha no lugar precário da recuperação imprecisa e indecisa do que poderá ter ocorrido, no outro extremo, a narradora coloca-se no lugar da inexatidão da própria memória que traz para a narração o seu estatuto fragmentário, escorregadio e inexato. A sabedoria daí adquirida com a herança dos pontos cardeais de uma história de amor transmuta-se na inexcedível possibilidade de a narrar. Essa procura e constante regresso a uma caverna poderosa revivificada pela memória e pelos espaços em branco deixados nas derivas do tempo revelam-se como os lugares a desvendar, sendo este cerzir polarizador da energia inventiva e promessa de revelação do enigma que sempre fundou as relações humanas.
A narração de O Vale da Paixão, embora alterne da primeira para a terceira pessoa do singular e, desse modo, apresente e intercete ângulos diferentes dos acontecimentos relembrados, parece, nessa alternância, representar uma fórmula nova da narrativa individual do acontecimento, como se alicerçasse a experiência do vivido na experiência do narrado.
Ora, os mundos interiores em O Vale da Paixão emergem como representações literárias da memória, que, em virtude do uso de meios específicos, como a metáfora, certas imagens verbais ou ritmos semânticos, possibilitam a ilustração pendular do tempo, assim constituído de versões possíveis, quer do passado situado entre o mundo extratextual, quer da sua configuração textual, que depois é reconfigurada também pelo leitor.
Conceição Brandão
Professora













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