MAU COMPORTAMENTO E INDISCIPLINA NAS ESCOLAS – Parte II
AINDA HÁ (BASTANTE) RESPEITO
A questão do respeito pelos professores “é muito importante” e “felizmente a palavra respeito ainda existe no dicionário de uma grande parte da nossa comunidade escolar”. Contudo, chama a atenção para o facto de que “as dinâmicas familiares e sociais mudaram muito, com um foco na individualidade e autonomia, pelo que se questiona a autoridade dentro do próprio seio familiar”. As tecnologias e redes sociais em excesso “leva a uma diminuição da capacidade de concentração e consequentemente uma irritabilidade que promove desacatos e desafios em sala de aula ou até mesmo desafia as opiniões oferecidas pelos mesmos em detrimento ao que leem na Internet”.
De igual modo, “os jogos agressivos que lhes são apresentados diariamente por estes meios, enfim um sem número de exemplos que estão certamente na base deste comportamento desrespeitoso”. Salvaguarda que “não se deve generalizar esta questão” pois “a maior parte dos alunos respeita e valoriza os professores”.
E volta a sublinhar a “forma como os professores estão atentos a estas questões e estão munidos de ferramentas para as evitar ou contornar reflete se numa relação positiva entre os intervenientes”.
A DISCIPLINA COMEÇA NA FAMÍLIA
Para o professor Orlando Pereira, de Meinedo, a indisciplina na sala de aula merece a atenção não apenas da classe docente mas de toda a sociedade. A problemática vem de fora e não é exclusiva da escola.
O antigo docente e diretor escolar revela que enquanto professor não sentiu, nem viveu, “com particular incidência, salvo um ou outro caso pontual, de ligeiro impacto, a indisciplina nas minhas salas de aula”.
Explica que “em boa verdade, a disciplina e indisciplina estruturam-se em torno da organização do poder num determinado espaço público, constituindo antes de mais um problema político e educacional de relevo”. Considera que “a disciplina é genericamente interpretada como a criação de condições necessárias para que a escola, enquanto instituição, alcance os objetivos a que se propõe e o grau de conformidade que se deve exigir aos alunos. Nesta medida, a indisciplina define-se como o comportamento que colide com o que o professor concebeu sobre a sua aula e as aprendizagens a conseguir pelos seus alunos, isto é, os processos de organização e gestão de sala de aula”.
Ora, perante isto, Orlando Pereira releva que “a perceção e avaliação da indisciplina na sala de aula, enquanto diretor de um agrupamento de escolas, missão que exerci nas últimas duas décadas, não é pessimista, por não identificar atos violentos de grande gravidade. A maioria das queixas apresentadas pelos docentes, como atos de indisciplina, reportavam conversas paralelas e cruzadas entre alunos, falta de colaboração nas tarefas, desobediência na execução de trabalhos, desinteresse pela aprendizagem, entre outras, todas de baixo impacto. É ilustrativo salientar que as referências de disciplina ou falta dela, são diferentes nos diversos professores com os alunos da mesma turma”.
Contudo, este antigo docente reporta-se a outros tempos. Por isso, adverte que “não podemos ignorar, no entanto, que estes atos de indisciplina têm vindo a aumentar, provocando num número cada vez maior de professores uma sensação de esgotamento que se reflete na promoção da aprendizagem, potenciando ansiedade nos alunos e famílias”.
A disciplina ou falta dela, “começa nos primeiros anos de vida da criança, na família, no ambiente social em que nasceu. Só com disciplina se consegue desenvolver competências de autocontrolo, autorregulação e socialização. Enquanto a sociedade em geral, as instituições e o governo, não perceberem que as famílias têm que ter tempo disponível para estar com os seus filhos, serena e tranquilamente, não teremos jovens aprendentes numa escola que deve preparar para o futuro incerto e exigente que está aí”.
Reportando-se às medidas que podem ser implementadas para fazer face ao que considera ser “a indisciplina reinante nas nossas escolas”, Orlando Pereira aponta como primeira estratégia “a aquisição de competências de leitura e escrita, desde os primeiros anos de escolaridade. Estas são a condição básica de acesso aos conteúdos, porta aberta ao empenho académico por si só e inibidor da grande parte da indisciplina na sala de aula”. Uma segunda estratégia, “muito descorada pelas políticas educativas, é a formação (inicial e contínua) de professores, nas questões de organização e gestão de sala de aula”.













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