por | 12 Mai, 2025 | Sociedade

Enfermagem reclama mais valorização financeira e reconhecimento institucional

DIA INTERNACIONAL DO ENFERMEIRO CELEBRA-SE HOJE

A Enfermagem é uma profissão crucial para o funcionamento do sistema de saúde, com Enfermeiros a atuarem em diversas áreas, desde hospitais e clínicas a cuidados domiciliários e saúde pública. O tema escolhido para o Dia Internacional do Enfermeiro em 2025 é “Os nossos Enfermeiros. O nosso Futuro. Cuidar dos Enfermeiros fortalece as economias”, que destaca a importância do bem-estar dos enfermeiros para a melhoria do sistema de saúde. Entrevistamos três lousadenses desta classe laboral, que nos contaram os contras e as virtudes desta profissão.

O Dia Internacional do Enfermeiro é celebrado a 12 de maio, data de nascimento de Florence Nightingale, uma pioneira da Enfermagem moderna. Esta data é um momento para reconhecer o trabalho essencial dos Enfermeiros em todo o mundo, que desempenham um papel fundamental na promoção e manutenção da saúde.

A Enfermeira Joana Pinho escolheu essa profissão pelo gosto de cuidar dos outros e, quando teve necessidade de ser cuidada, todos os enfermeiros que a ajudaram “foram exímios”. Para ela é “gratificante ser Enfermeira e motivo de orgulho” e salienta que apesar dos desafios, voltaria a escolher esta profissão.

Enfermeira Joana Pinho.

A Enfermagem em Portugal tem evoluído, principalmente a nível de formação, especialização e reconhecimento enquanto ciência. Apesar de ser uma peça “essencial no sistema de saúde, o apoio do Estado ainda fica aquém das necessidades” e explica que falta sobretudo “valorização salarial, melhores condições de trabalho e um verdadeiro investimento nas carreiras”. Esta Enfermeira sublinha que “mesmo com o investimento individual que, por vezes coloca em causa a vida pessoal, prevalecem os contratos precários e sobrecarga de trabalho”.
A emigração é uma saída escolhida por muitos Enfermeiros e Joana Pinho lamenta o facto e lembra que “a diferença salarial, o respeito profissional e as oportunidades de progressão em países como o Reino Unido, Suíça ou Alemanha continuam a ser muito atrativas”.
Emigrar nunca chegou a ser hipótese para ela, contudo, tem “vários colegas que emigraram e, em geral, falam da valorização salarial, do reconhecimento da profissão e da carga horária e de trabalho. Sentem-se mais valorizados, mas claro, também apontam várias dificuldades, como as saudades da família e os desafios com o idioma e a integração”.
Recentemente têm surgido estudos que mostram que os jovens não estão com vontade de seguir a área da saúde. Questionada sobre isso, Joana responde que isso “deve-se à perceção do desgaste físico e emocional, dos horários exigentes e à pouca valorização financeira. Talvez os jovens procurem mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e, infelizmente, a saúde — em particular a Enfermagem — ainda é vista como uma carreira de sacrifício constante, desde os horários rotativos até ter de abdicar das festividades com a família”.

FALTAM REMUNERAÇÕES ADEQUADAS

O Enfermeiro Jorge Miguel Pereira desde cedo soube que queria exercer uma profissão com verdadeiro impacto na sociedade, “onde pudesse ajudar os outros em momentos delicados das suas vidas. A experiência de ter estado internado em criança e o exemplo de um familiar próximo, também Enfermeiro, reforçaram essa ambição”.
E voltaria a repetir a opção? Responde que “se considerasse apenas a qualidade de vida, talvez me imaginasse noutra área completamente diferente. Mas, colocando em primeiro plano a realização pessoal, acredito que a Enfermagem foi a escolha certa”. Acrescenta que “continua a ser uma profissão muito recompensadora para mim, especialmente no contexto da prestação de cuidados, onde tenho trabalhado nos últimos anos”.

Enfermeiro Jorge Miguel Pereira

Sobre o setor e a classe de Enfermeiros, Jorge sente que “a profissão atravessa hoje uma fase de estagnação. A estabilidade atual traduz-se na consolidação de funções, mas também numa certa resignação, fruto da perda de entusiasmo inicial e de uma maior instalação de pragmatismo nos profissionais”.
Apesar do apreço e da gratidão que a sociedade demonstra pelos Enfermeiros, “esse reconhecimento simbólico não é suficiente”. Considera que “continuam a faltar remunerações adequadas, percursos de carreira claros, investimento em formação e melhores condições de trabalho”.
De emigração também fala e tem mesmo que falar, pois Jorge já foi um emigrante: “eu prova viva dos muitos recém-licenciados em Enfermagem que, forçosamente, tiveram de emigrar. No meu caso específico, iniciei a minha carreira numa unidade de cuidados continuados na Irlanda do Norte; depois, mudei-me para um hospital central em Inglaterra, permanecendo pelo Reino Unido durante seis anos”.
Da sua turma, ”praticamente todos emigraram nessa altura — apenas uma colega permaneceu em Portugal. No referido hospital em Inglaterra, onde trabalhei durante muito tempo, os Enfermeiros portugueses eram às centenas”.
A perceção de que se trata de uma carreira pouco valorizada do ponto de vista salarial pesa no decréscimo de procura da mesma pelos jovens, mas Jorge Miguel Pereira enaltece que  “quem escolhe Enfermagem fá-lo, na maioria das vezes, por vocação e compromisso pessoal. Num contexto em que áreas como a tecnologia e as engenharias oferecem melhores condições e benefícios, torna-se difícil atrair novos profissionais para uma carreira exigente, mas nem sempre valorizada como merece”.


PORTUGAL PRODUZ EXCELENTES ENFERMEIROS

“Na altura optei por Enfermagem por ser um curso de 3 anos, empregabilidade garantida, progressão na carreira (que era de 3 em 3 anos), em suma pela estabilidade e segurança no trabalho. “Um trabalho para a vida inteira…em que posso ajudar pessoas”, confessa a Enfermeira Emília Carvalho.

Enfermeira Emília Carvalho

Diz que ao longo da carreira viveu “muitos desencantos” que a levaram a dizer “se me saísse o Euromilhões deixava já isto tudo”, mas também aprendeu muito “com todos os colegas com quem tive a honra de trabalhar – 15 anos no Hospital de Fafe – período laboral mais feliz, porque aí praticamos uma Enfermagem que aprendemos na Escola, lutamos juntos pela autonomia, dignidade e afirmação de uma Enfermagem de qualidade”. Seguiu-se a experiência nos Cuidados de Saúde Primários e as várias reestruturações ao longo desta década e meia, do Sec. XXI. “Aqui os desafios são ainda maiores e põem à prova a nossa resiliência e o esforço individual para dar resposta às necessidades do utente e família. Aqui percebe-se e procura-se aplicar em pleno o conceito de sinergia para obter resultados mais eficientes e eficazes na saúde, onde todos saem a ganhar”.

No entender da Enfermeira Emília Carvalho falta “reconhecimento e respeito” à classe e

“existem reivindicações de responsabilidade coletiva, mas também de responsabilidade individual que podem contribuir para a confirmação do período de modernização e reconhecimento da Enfermagem do seculo XXI, passando pela melhoria na Literacia em Saúde”.
O setor da enfermagem está muito ligado ao fenómeno da emigração, mas na sua opinião “a tendência de emigração vai sempre existir dependendo dos objetivos de vida de cada pessoa. Nunca ponderei emigrar, porque sou filha de pais emigrantes-  1972 a 1984, na Alemanha. Vivi a minha infância lá, desde 1974 a 1980 – essa experiência de vida marcou muito a minha personalidade e a minha forma de estar, pensar e contribuir para a evolução do meu país ao longo destes anos todos. Penso fazer mais falta aqui do que lá fora”.
Ainda sobre este tema diz que o país produz excelentes Enfermeiros e isso é reconhecido internacionalmente, sendo também isso motivo para o bom acolhimento no estrangeiro de portugueses formados nessa área.

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