Em Lustosa, o vento sopra devagar, como se respeitasse o tempo das coisas. O sino da igreja marca as horas com a mesma paciência de sempre, e as ruas estreitas guardam o murmúrio das conversas de quem se conhece desde o berço. Tudo ali parece ter o peso da rotina – até o dia em que uma mulher sentou-se na cadeira grande da presidência da junta.
Não foi um trovão, nem uma revolução. Foi um gesto simples: uma mulher, uma caneta, um olhar decidido.
Mas em Lustosa, os gestos simples têm ecos longos.
Dizem que, naquela manhã, de 4 de Novembro, após a tomada de posse, o cheiro do café pareceu mais forte. Que o sol entrou pelas janelas com uma claridade nova, como se quisesse ver de perto o que se passava. A presidente – Professora Agostinha, nome de flor e teimosia – ajeitou as pastas, abriu a janela e deixou o ar entrar.
E o ar entrou.
Entrou levando embora o pó dos papéis esquecidos, o cheiro antigo de promessa e espera. Trouxe o rumor da praça, o riso das crianças, o rumor do mundo lá fora. Tinha começado o governo do detalhe – das pequenas coisas que mudam tudo.
Agostinha não falava alto. Tinha voz de brisa, mas firme. Sabia que poder não é grito, é escuta.
E, aos poucos, Lustosa começou a escutar também: a voz das mulheres que nunca tinham subido aquelas escadas, o cansaço dos homens que só sabiam mandar, a esperança escondida nos olhos dos jovens.
Nas paredes brancas da junta começaram a brotar cores – não pintadas, mas sentidas. O relógio parecia mais leve, e até o tempo se deixava governar com doçura.
Dizem que, ao fim de cada tarde, Agostinha ficava uns minutos sozinha no salão, olhando o jardim. As roseiras, que há anos dormiam, começaram a florescer outra vez.
Ninguém soube explicar.
Mas talvez o segredo estivesse ali – no gesto calmo de quem cuida, na paciência de quem semeia, no silêncio de quem transforma.
E Lustosa, sem alarde, aprendeu uma lição antiga: que o poder, quando passa pelas nãos de uma mulher, não precisa de trono – basta um jardim.
E quando o dia termina, o sol desce devagar por detrás das serras e o vento volta a passar pelas ruas de Lustosa – leve, fresco, curioso.
Dizem que que ele leva o perfume das rosas até à praça e sussurra, para quem quiser ouvir, que tempo novo chegou.
Silencioso, firme, feminino.













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