por | 19 Fev, 2026 | Ambiente

Sou do tempo de ir aos grilos. De joelhos no meio do campo, a cantar aquela cantiga meio séria, meio malandra, para o fazer sair da toca: “Gri-gri sai cá fora que o teu pai está aqui com uma faca de agrião para te espetar no coração…”

Encontrada a toca, arrancávamos uma palhinha fina e seca, daquelas com pelos na ponta, e fazíamos um leve movimento de vai-e-vem pelo buraco adentro. O grilo havia de sair. Às vezes fazíamos batota — uma garrafa de água ajudava, e no limite até uma boa “urinadela” resolvia o assunto. A sachola era só para casos extremos.

Se saísse uma fêmea, deixávamo-la. Se fosse um grilo-capa-de-rei, lá vinha ele connosco para casa, numa pequena gaiola improvisada. Colhíamos a serradela no campo, juntávamos alface da horta e, se cantasse muito… ficava connosco durante o verão. Se não cantasse nos primeiros dias, era devolvido ao campo, junto da sua toca.

Hoje percebo que aquilo era muito mais do que uma brincadeira. Era educação ambiental — mesmo antes de sabermos que essa expressão existia.

Em casa, ao som do cantar do grilo, aprendíamos muto mais sobre a sua importância. Que servia de alimento a ouriços-cacheiros, aves insetívoras, cobras, sardões e até alguns anfíbios. Que as suas tocas e galerias ajudavam a arejar o solo, permitindo que o ar e a água chegassem às raízes das plantas.

Aprendíamos o que era equilíbrio ecológico mesmo antes de sabermos dizer “ecossistema”.

Na minha aldeia sempre se disse que o grilo é sinal de sorte. Quando canta dentro de casa, dizem os mais velhos, é porque vêm boas notícias, prosperidade ou renovação. O grilo não é só um inseto — é um símbolo, um património vivo.

O mais comum por aqui é o grilo-do-campo (Gryllus campestris), ativo entre fevereiro e julho, com maior intensidade de canto nos serões quentes de maio e junho. Mas entre os grilos também encontramos o “tenebroso” grilo-de-sela, mais ligado aos bosques, e o inusitado grilo-toupeira, ou ralo, que prefere as hortas.

Hoje já não se encontram com a mesma facilidade. Talvez porque os campos mudaram. Talvez porque nós mudámos os campos e a natureza à nossa volta.

Mas continuo a acreditar que o património natural não vive apenas nas grandes árvores ou nas paisagens protegidas. Vive também nestes pequenos seres que marcaram a nossa infância, moldaram as nossas memórias e ensinaram, de forma simples, a respeitar a natureza.

É aqui que a educação ambiental formal tem tanto a aprender com a sabedoria popular. A escola pode explicar o ciclo de vida, a função ecológica e a importância da biodiversidade. Mas a comunidade ensina o afeto, a memória, o significado.

E quando conseguimos juntar ciência e memória, natureza e cultura, estamos verdadeiramente a proteger património.

O grilo é pequeno.
Mas a história que carrega é grande.

Talvez esteja na hora de voltarmos a escutar.

#PatrimónioVivo
#EducaçãoAmbiental
#NaturezaECultura
#Grilocapaderei
#IdentidadeLocal
#AprenderComANatureza

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Equipa de Shinkyokushin conquistou seis pódios

O WIBK Dojo Verdadeiro Espírito, do lousadense Paulo Rente Silva marcou presença no Torneio...

Atleta de Lousada convocada para Jogos do Eixo Atlântico

A jovem Daniela Pereira, natural da freguesia de Pias, em Lousada, foi convocada para integrar a...

"Talvez seja por isso que gosto tanto das nascentes. Porque, ao contrário dos rios, que toda a...

Campeões Nacionais de Natação Adaptada

Os atletas lousadenses do clube Lousada Século XXI estiveram em grande evidência no Campeonato...

A bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, Paula Franco, foi uma das convidadas do...

Forte internacionalização do Inferno das Febras

O Inferno das Febras regressa ao Parque de Lazer e Merendas de Casais, em Lousada, nos dias 28 e...

O treinador penafidelense João Paulo Guedes Silvestre, de 36 anos, é referido por várias fontes...

Protocolo para projeto de turismo cultural assinado entre a CCDR-N e Vidas em Cena

A Associação Vidas em Cena, de Lousada, está entre as dez entidades culturais da Região Norte...

A celebração dos 100 anos dos Bombeiros Voluntários de Lousada constitui um momento de...

Na passada semana, Portugal assistiu a algo que deveria ser praticamente impensável numa sociedade...

Siga-nos nas redes sociais