Na rua onde moro vive um casal de mochos. Ouço o seu piar todas as noites. E penso muitas vezes na falta que me fará o dia em que deixar de o ouvir. Há sons que passam despercebidos. Outros tornam-se parte da nossa casa.
O mocho-galego (Athene noctua) é pequeno no tamanho, mas enorme no significado. Já o vi pousado nos cabos de eletricidade, nos sinais de trânsito, em cima de rochas, nas redes junto aos campos. Já o vi no topo das chaminés, atento, imóvel, à procura de presas. E muitas vezes nas fendas dos muros, o seu abrigo preferencial.
É discreto. Observador. Estratégico. E é um verdadeiro aliado nosso.
Um mocho pode capturar vários roedores numa única noite — em média entre 3 a 6 ratos, podendo esse número aumentar quando há abundância de presas, sobretudo na época de criação das crias. Façamos contas simples: ao longo de um mês, são dezenas e dezenas de ratos eliminados naturalmente. Ao longo de um ano, centenas. Proteção a custo zero. Menos ratos significa menos danos agrícolas, menos contaminações, menos doenças. O mocho presta-nos um serviço de ecossistema silencioso e eficaz. Não pede nada em troca. Apenas espaço, respeito e tranquilidade.
Mas o mocho é mais do que um controlador biológico. É símbolo. Na mitologia grega, a deusa Atena — símbolo da sabedoria — é representada com um mocho. Ao longo dos séculos, o mocho tornou-se imagem do conhecimento, da inteligência, do conselheiro. Nos desenhos animados é o professor, o cientista, o sábio, o chefe do clã.
Mas curiosamente, na sabedoria popular portuguesa, o mocho também foi envolto em algum receio. O seu canto noturno, para alguns, era sinal de mistério, mau presságio ou agoiro, símbolo da morte. A noite sempre foi território do desconhecido. E aquilo que não compreendemos, tendemos a temer. Afinal, o pronuncio é para os ratos!
É aqui que o património natural vivo surge como ferramenta essencial para a educação ambiental.
No meu trabalho, quando falo do mocho, falo sempre de três dimensões: o seu serviço ecológico, a sua simbologia cultural, e o património imaterial que representa. Porque proteger o mocho não é apenas conservar uma ave. É preservar equilíbrio ecológico. É respeitar a cultura popular. É reconciliar o conhecimento científico com as crenças herdadas.
Hoje, quando o ouço piar, já não há mistério nem receio. Há gratidão e satisfação. Gratidão e satisfação por saber que aquela pequena ave noturna está ali, vigilante, a cumprir o seu papel na natureza — e, sem saber, também na nossa história coletiva.
E tu? Quando ouves o seu canto, sentes medo… ou privilégio?
Talvez esteja na hora de olharmos para a noite com outros olhos.
ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património e Técnico de Educação Ambiental
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