por | 13 Mar, 2026 | Ambiente, Património Cultural

Quem não se lembra de comer sopa, tomar um remédio ou tentar adormecer ao som da famosa canção: …” eu vi um sapo, com um guardanapo, estava a papar, um bom jantar”… A canção era passada de geração em geração e aprendíamos a memorizar uma letra e uma melodia muito antes de saber ler ou escrever, ou até aprender música na escola. Este património imaterial consegue, como por exemplo, através da figura do sapo, trazer à memória as mais genuínas raízes da nossa educação, lembranças longínquas e valores culturais dos nossos antepassados.

Poucos animais despertam sentimentos tão contraditórios como o sapo. Há quem tenha medo, quem sinta repulsa, quem lhe atribua poderes mágicos e misteriosos… e há também quem se lembre imediatamente das noites de verão da infância ou juventude, quando os sapos eram vistos pelos campos, nas levadas e nos charcos.

O sapo faz parte do nosso património natural há milhares de anos. Em Portugal, uma das espécies mais comuns é o sapo-comum (Bufo spinosus), um anfíbio robusto, de pele rugosa e olhar atento, que passa grande parte do tempo escondido entre as pedras, muros, hortas e zonas húmidas. É um animal discreto e de hábitos maioritariamente noturnos, o que sempre contribuiu para a aura de mistério que o acompanha.

Biologicamente, os sapos são extraordinários. Começam a vida como pequenos girinos aquáticos e, ao longo de algumas semanas, passam por uma metamorfose completa até se transformarem em anfíbios capazes de viver dentro da água e fora dela. Esta ligação a dois mundos faz deles excelentes indicadores ambientais: se temos a presença de sapos, normalmente significa que a água e os ecossistemas daquele território ainda mantêm alguma qualidade.

Conhecidos pelos lavradores como os melhores amigos da horta, os sapos são os melhores aliados da agricultura. Um único sapo pode alimentar-se de centenas de insetos em pouco tempo: mosquitos, escaravelhos, lesmas, formigas e muitos outros pequenos invertebrados que muitas vezes são considerados pragas. Sem que muitas pessoas se apercebam, os sapos prestam um verdadeiro serviço de ecossistema, ajudando a manter o equilíbrio natural das hortas e dos campos.

Mas o sapo nunca foi apenas um animal da ciência. Sempre ocupou um lugar especial na imaginação popular.

Durante séculos, em várias regiões de Portugal, acreditava-se que os sapos estavam ligados ao mundo da bruxaria e do sobrenatural. Em algumas aldeias dizia-se que encontrar um sapo junto à porta de casa podia ser sinal de mau agouro ou de inveja lançada por alguém. Noutras tradições, o sapo era visto como um animal protetor das terras húmidas e símbolo de fertilidade, resiliência, sorte e proteção. Há ainda quem acredite que colocar um sapo de loiça no jardim afasta os ciganos!

Na minha aldeia falava-se que se aparecesse um sapo com a boca cosida com linha, atormentava a família durante semanas. Ainda se ouvem testemunhos de pessoas antigas que, enquanto jovens, punham cigarros acesos na boca dos sapos para os ver a fumar, acreditando que rebentassem! Coitados dos sapos, morriam intoxicados, de overdose de nicotina, nunca da forma circense e espetacular que desejavam.

Ainda dentro das tradições e crenças populares antigas acreditava-se que matar um sapo podia trazer anos de azar ou secar as fontes próximas, uma forma curiosa de explicar — e talvez proteger — estes animais tão importantes para os ecossistemas.

Ao mesmo tempo, o sapo foi ganhando um lugar inesperado na criatividade e na imaginação coletiva. Nos contos tradicionais e nos desenhos animados aparece frequentemente como o rei do charco, uma figura sábia que observa o mundo à sua volta. E quem nunca ouviu a história de que se beijarmos um sapo ele pode transformar-se num príncipe encantado?

Esta velha história, popularizada por contos e filmes de animação, mostra algo curioso: muitas vezes o sapo surge como personagem para ensinar e nunca para julgar. Nos desenhos animados e nos contos infantis, o sapo raramente julga ou critica — antes observa, aprende e ajuda a transformar quem o rodeia. Tipicamente é o personagem engraçado e barrigudo.

Talvez por isso seja também um animal perfeito para a educação ambiental.

Quando mostramos um sapo a uma criança, abrimos a porta para falar de muitas coisas ao mesmo tempo: o ciclo de vida, a metamorfose, a importância da água, o equilíbrio dos ecossistemas, o controlo natural e biológico de insetos e até as relações entre cultura popular e natureza.

Um sapo pode transformar uma simples caminhada no campo numa verdadeira aula ao ar livre.

Outra curiosidade que poucas pessoas sabem é que os sapos não fazem o coito, eles e elas, depositam os espermatozoides e os óvulos no mesmo local e a fecundação acontece de forma natural e não provocada, numa massa de água potável qualquer. Quando vires um sapo encavalitado em cima de outro, quem está por cima, normalmente, é o macho.

Apesar de tudo isto, os sapos enfrentam hoje muitos desafios. A destruição de zonas húmidas, represas, charcos, levadas e ribeiros, a poluição da água, o uso excessivo de pesticidas e as alterações climáticas têm contribuído para o declínio de muitas populações de anfíbios em todo o mundo.

Hoje em dia, por regulação do governo, são promovidas algumas medidas de proteção aos anfíbios. Estão a ser criadas, um pouco por todo o país, brigadas de proteção e salvaguarda destes animais. O código da estrada já prevê sinalética específica para áreas e zonas de atravessamento destes animais. Em Lousada podemos ver essa sinalética nas freguesias de Pias, Aveleda e em Romariz – Meinedo. A Guarda Nacional Republicana (GNR), através do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), tem vindo a desempenhar um papel fundamental na iniciativa S.O.S. Sapos na Estrada, atuando na proteção da biodiversidade e na segurança rodoviária durante a época de reprodução dos anfíbios.

Proteger os sapos é também proteger os pequenos charcos, as ribeiras, as levadas e os habitats naturais onde a vida começa, e todos podemos ajudar.

Mas talvez a forma mais importante de proteger os sapos seja conhecê-los melhor.

Porque quem cresceu no campo lembra-se certamente de procurar girinos (ou caganatos como chamamos na nossa terra) nas poças de água e de ser surpreendido pela presença de um sapo ao ouvir o restolhar das folhas nas noites quentes de verão.

Agora, se pudermos juntar essa sensibilidade com a comunicação de ciência, a promoção do património natural, e a educação ambiental podemos conseguir momentos de descoberta, partilha, fascínio e curiosidades que aproximam as pessoas da natureza.

E talvez por isso valha a pena deixar uma pergunta no ar: A próxima vez que eu vir um sapo, que sentimento me vai causar?

ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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