por | 30 Mar, 2026 | Ambiente, Património Cultural

Por incrível que pareça, o TOJO ou MATO é da família dos feijões. De facto, o Tojo ((Ulex europaeus) é uma planta leguminosa, os seus frutos são vagens e as suas sementes, pequenos feijõezinhos, são tóxicos. As flores são comestíveis, e os espinhos são os amigos do agricultor.

Na minha aldeia é mais conhecido pelo nome comum de mato. Embora seja um arbusto nativo da Península Ibérica muito frequente em Portugal, o mato é considerado uma planta exótica e invasora na madeira e nos açores, assim como em várias regiões do mundo, como na Nova Zelândia ou em algumas zonas do continente americano. Por cá, cresce pelos montes, nos caminhos, nos terrenos mais pobres e esquecidos. Para muitas pessoas é apenas uma planta cheia de espinhos que arranha as pernas de quem passa. Mas, para quem conhece a vida das aldeias, o tojo é muito mais do que isso. É um daqueles elementos discretos do património natural que, durante gerações, fez parte do quotidiano das pessoas.
Antigamente quase nada se desperdiçava e quase tudo tinha utilidade. E o mato não era exceção.
Ainda hoje há quem pratique um costume muito comum nas casas onde se criam porcos. No chão da corte cobre-se com mato. Aos poucos, misturado com os dejetos dos animais e com a humidade do espaço, aquele mato vai-se decompondo e transforma-se num estrume riquíssimo. Mais tarde levado para a horta ou para o quintal e usado como adubo natural, devolvendo à terra nutrientes essenciais para o crescimento de novos legumes e hortaliças.
O mato tem imensas utilidades curiosas. Em pequenos talhões onde se semeia cebolo, alho ou cebolinho, ainda é comum o agricultor colocar ramos de mato por cima da terra. Aqueles espinhos funcionam como uma espécie de cerca e cobertura natural, protegendo as sementes dos pássaros ou até dos gatos e cães que, por instinto, gostam de remexer a terra acabada de lavrar. Uma solução prática, barata e amiga do ambiente.
Mas o mato também teve, durante muito tempo, uma função essencial nas casas antigas: servia de combustível para acender a lareira, o forno ou o fogão. Por ser uma planta muito seca e rica em matéria inflamável, o mato pega fogo com facilidade e produz uma chama intensa. Por ser uma planta pirófita — uma espécie “amiga do fogo” — torna-a excelente para iniciar fogueiras ou aquecer fornos tradicionais.
O mato também guarda algumas histórias ligadas à medicina popular. As flores, comestíveis, em pequenas quantidades, eram por vezes usadas em infusões, a que se atribuíam propriedades diuréticas ou anti-inflamatórias. As sementes são tóxicas por isso nunca devem ser ingeridas. Como acontece com muitas plantas tradicionais, eram saberes transmitidos de geração em geração. Hoje sabemos que estas utilizações devem ser sempre feitas com cautela, mas mostram bem como as pessoas procuravam na natureza soluções para os problemas do dia-a-dia.
Nas caminhadas que faço, quando vou acompanhado, gosto muitas vezes de desafiar as crianças — e até os adultos — a provar as flores do mato. É um gesto simples, e quase sempre provoca surpresa. Alguns estranham, outros sorriem, outros comentam o sabor. E nesse momento acontece algo muito importante: cria-se uma memória sensorial ligada à natureza. A planta deixa de ser apenas um arbusto espinhoso no monte e passa a ser uma experiência.
O mato também está presente na nossa linguagem e nos ditados populares. Na minha terra ainda se ouve a expressão “Ovelhas não são para mato”, usada quando alguém está a fazer algo para o qual claramente não tem jeito. É uma metáfora simples, que acabou por entrar na forma como falamos e interpretamos o mundo.
Tudo isto mostra que o tojo, ou mato, não é apenas uma planta bravia do monte. É também memória, cultura e sentimento de pertença ao território. Fazendo parte dos nossos usos, costumes e tradições, esta planta mostra bem como o património natural pode caminhar lado a lado com a educação ambiental e com a salvaguarda da natureza.
E talvez por isso valha a pena olhar novamente para aquele mato cheio de espinhos que encontramos nos caminhos. Aquilo que hoje muitos veem apenas como uma planta bravia foi, durante séculos, parte da vida das pessoas.
Quem sabe quantas histórias ainda estão escondidas naquele mato que pisamos sem pensar?


ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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