A POUPA — A ave com uma crista de guitarrista punk-rock
Há aves que até podem passar despercebidas, mas outras ficam na memória. A poupa é uma delas.
Quem cresceu no meio rural, como eu, entre campos, quintais, prados e caminhos antigos, dificilmente fica indiferente quando vê aquela ave de plumagem alaranjada, asas riscadas de preto e branco, bico comprido e, sobretudo, aquela extraordinária poupa na nuca, que abre como um leque. Na nossa juventude, quando a víamos, não lhe poupávamos comparações: “É aquela com a crista que até aparece um guitarrista de punk-rock!”
E talvez não haja melhor maneira de descrever a Upupa epops, o nome científico desta ave tão característica da nossa paisagem e que emite um canto tão singular que a denuncia – um repetido “up-up-up”.
Pela minha zona, onde Lousada se encontra com Paços de Ferreira, é costume vê-la sobretudo no verão, com maior frequência durante o mês de julho. Surge nos campos, nos quintais e nos prados onde a vegetação foi cortada, caminhando pelo solo, quase sempre com um propósito muito concreto: procurar comida.
Tem um bico longo, fino e ligeiramente curvado, uma verdadeira ferramenta para sondar o solo onde procura alimento. Remexe a vegetação seca e procura larvas, escaravelhos, gafanhotos, grilos, formigas, minhocas e outros invertebrados. É, por isso, uma excelente aliada dos ecossistemas agrícolas, ajudando a controlar naturalmente muitas espécies de insetos e outras pragas. A sua presença está também associada a terrenos secos, abertos e com vegetação pouco densa — precisamente aqueles espaços onde ainda existe um mosaico de campos, prados, árvores e pequenas parcelas agrícolas.
A poupa precisa de um território rico em animais pequeninos para sobreviver. Quando encontramos estas aves a procurar alimento persistentemente no chão, estamos também perante um pequeno sinal de que naquele lugar ainda existe vida suficiente para a sustentar – e por isso o solo tem qualidade.
Mas a poupa também tem a sua fama de “malcheirosa” na tradição oral e nos provérbios populares. Na minha aldeia ainda se ouve com alguma frequência, quando a conversa é sobre a ganância e a poupança exagerada de alguém:
“Oh, é como a poupa: tanto que poupou que fez um ninho de merda.” Referindo-se ao facto de quando alguém poupa tanto, ou é tão avarento, que acaba por viver pior, sem investir no seu próprio conforto.
A sabedoria popular, neste caso, encontrou uma expressão curiosa para uma característica verdadeira da biologia da espécie. O ninho da poupa é feito geralmente numa cavidade — de uma árvore, de um muro, de um edifício antigo ou de uma ruína — e não é propriamente um ninho requintado e elaborado. Durante a reprodução, a fêmea e, mais tarde, as crias produzem secreções de cheiro muito desagradável através das glândulas uropigiais, que funcionam como uma estratégia de defesa contra predadores. Ainda por cima, as crias têm por hábito projetar fezes e conteúdo cloacal quando se sentem ameaçadas. Ou seja, o mau cheiro não é falta de higiene: é uma defesa!
É uma daquelas pequenas maravilhas que a natureza nos ensina que, tal como no caso das poupas, a evolução e a adaptação das espécies ao seu ambiente, ao longo de milhares e milhares de anos, desenvolveu nas plantas e nos animais características e comportamento tão diversos e “estranhos” que, quando são, afinal, compreendidos pelo homem deixam de ser considerados um “defeito ou uma virtude”, e passam a ser ciência e curiosidade. Quando a curiosidade, o interesse e a disposição nos permitem querer conhecer melhor o que nos rodeia, podemos decifrar melhor aquilo a que, muitas vezes, nos provoca medo, repulsa, afeição ou carinho.
A poupa é também uma ave estival no Norte de Portugal. Embora existam populações residentes noutras regiões do país, mais a sul, por estas terras é sobretudo no final da primavera e durante o verão que a encontramos. E talvez seja por isso que a sua partida se torna tão evidente. Por aqui, pelo menos, quando agosto começa a chegar ao fim, a sua presença torna-se cada vez mais rara. O verão vai embora e, com ele, desaparece também aquela silhueta inconfundível que tantas vezes caminhou diante dos nossos olhos.
Há, portanto, qualquer coisa de património nesta ave.
Não um património feito de pedra, documentos ou monumentos, mas um património natural que também constrói a nossa memória coletiva. A poupa faz parte das paisagens da nossa infância, das histórias contadas pelos mais velhos, dos provérbios, dos campos onde brincámos e daqueles momentos em que alguém dizia: “Olha! Está ali uma poupa!”
E talvez seja essa uma das maiores riquezas do património natural da nossa região: não está apenas naquilo que protegemos, mas também naquilo que aprendemos a reconhecer e a amar.
Da próxima vez que virmos uma poupa a caminhar pelo campo, vale a pena parar. Olhar para aquela crista. E voltar a imaginá-la como nós a imaginávamos quando éramos mais novos: uma verdadeira guitarrista de punk-rock! E lembrar que aquela ave que procura minhocas entre as ervas secas é muito mais do que uma presença bonita na paisagem.
É natureza. É memória. É identidade. É património.
E quando, no final de agosto, deixar de aparecer nos nossos campos, talvez percebamos que também há património que só valorizamos verdadeiramente quando sentimos a sua falta.
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Ernesto Gonçalves é gestor de património cultural e técnico de educação ambiental
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