Durante décadas, a política de segurança pública em Portugal foi marcada por uma progressiva redução da presença policial de proximidade. O encerramento de esquadras, a concentração de meios e a diminuição dos efetivos nas esquadras, afastaram a polícia das comunidades, substituindo, em muitos casos, a prevenção permanente por um modelo essencialmente reativo.
No passado, as esquadras de bairro garantiam uma presença regular e próxima. Os polícias conheciam as ruas, os comerciantes, as associações e os moradores, criando relações de confiança que constituíam uma importante ferramenta de prevenção criminal.
Ao longo dos anos, porém, sucessivos governos apostaram numa alegada modernização que, segundo o autor, privilegiou a reorganização e a aparência dos meios em detrimento da presença policial no terreno. Os alertas feitos por profissionais e estruturas sindicais, entre elas a ASPP/PSP, foram repetidamente ignorados.
As consequências fazem-se sentir tanto junto das populações como dentro das próprias forças de segurança. A falta de efetivos, o envelhecimento dos profissionais, a sobrecarga de serviço, as condições de trabalho e a desvalorização salarial contribuem para um quadro de crescente desgaste físico e psicológico.
O problema não se resume às estatísticas oficiais. Muitos cidadãos, por medo, descrença ou pela convicção de que a resposta policial será tardia, deixam de apresentar queixa. O crime não desaparece; desaparece uma parte da realidade que chega às estatísticas. Esta perda de confiança constitui, por si só, uma ameaça à segurança e à coesão das comunidades.
O autor alerta ainda para os problemas de saúde mental entre os profissionais da PSP e GNR, incluindo situações de burnout, depressão e suicídio. Segundo os dados referidos no texto, cerca de 190 profissionais das forças de segurança terão perdido a vida por suicídio ao longo das últimas décadas, um número que considera exigir uma reflexão séria por parte do Estado. Perante esta realidade, importa perguntar: qual tem sido, afinal, o papel do Governo e da Direção Nacional da PSP?
Fechar uma esquadra, defende Alberto Torres, ex-presidente da ASPP/PSP, não significa apenas encerrar um edifício. Significa perder um ponto de contacto com a população e uma parte do conhecimento que permite à polícia antecipar problemas e prevenir crimes.
Para o autor, a segurança pública não pode ser reduzida a uma questão de aparência, reorganização administrativa ou contenção de custos. Exige pessoas, proximidade, prevenção, meios e, sobretudo, respeito por quem diariamente assume o risco de proteger os outros.
A verdadeira conta da segurança, conclui, não aparece apenas nos mapas estatísticos. Está nas vítimas, nos cidadãos que deixam de denunciar, nos comerciantes que vivem com receio e nas famílias que perdem confiança. E está também nos homens e mulheres que vestem uma farda e que não podem continuar a ser vistos apenas como uma despesa a reduzir.
Alberto Torres
Ex-presidente da ASPP/PSP — Associação Sindical dos Profissionais da Polícia

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