O álbum que sai hoje é uma aposta arrojada do músico lousadense de Rock, que vive em Inglaterra. Is This Worth Living For?, é o segundo álbum da banda de Pedro Cabanelas, aliás Jason Payne. Tivemos o privilégio e a honra de ouvir em primeira mão esta novíssima produção em vinil. É uma maravilha para quem aprecia metal avant garde, pós moderno. a obra tem muito estilo post-grunge e uma inquietação contemporânea. As letras são fortes e profundas. Isto é musicalidade para desinquietar mentes. Os jovens que fazem parte deste projeto sempre se mostraram arrojados, mas agora é como se apostassem as ichas todas. O álbum é duplo! E com isto lançam-se para patamares muito altos. Vão dar inúmeros concertos, já marcados e há uma tournée para 2027 que vai até à Alemanha.
Há discos que procuram respostas e há discos que preferem deixar perguntas a ecoar. Is This Worth Living For?, o segundo álbum dos Electron, pertence claramente à segunda categoria. O nosso Cabanelas está em alta.
Com lançamento marcado para este dia 2 de Outubro, o novo trabalho do duo formado por Jason Payne (voz e guitarra) e Joanna Hyde (voz e baixo) nasce de uma pergunta tão simples quanto desconfortável: afinal, vale a pena viver neste mundo que construímos? A resposta, ao longo das canções, nunca é linear. Há raiva, isolamento, desencanto, procura de identidade e uma permanente tensão entre aquilo que somos e aquilo que sentimos que deveríamos ser.
Os Electron continuam a mover-se dentro do território do modern metal, mas Is This Worth Living For? mostra uma banda pouco interessada em respeitar fronteiras rígidas. Aliás a versatilidade e ecletismo metálico de Pedro Cabanelas, perdão, Jason Payne, foi sempre uma marca do seu percurso. As guitarras podem surgir esmagadoras e imediatamente depois dar lugar a sintetizadores obscuros e melódicos; um tema pode aproximar-se do metalcore e, alguns minutos mais tarde, mergulhar em ambientes electrónicos ou numa sensibilidade mais próxima do post-grunge. Isto é altamente apreciável.
Há momentos em que a electrónica escura e industrial evoca Depeche Mode ou Nine Inch Nails; outros em que o peso, o baixo e a construção rítmica aproximam a banda de uma tradição que passa por Korn; e existe ainda uma filosofia de cruzamento de géneros que pode lembrar propostas contemporâneas como Nova Twins. Não são cópias nem exercícios de nostalgia. São pontos de contacto que ajudam a perceber onde os Electron estão a construir a sua própria linguagem.
“Trap” é uma boa porta de entrada para esse universo. Sintetizadores espaciais e guitarras distantes dão lugar à voz de Jason Payne, capaz de viajar entre registos altos e momentos mais contidos. A música cresce progressivamente até encontrar um refrão de dimensão quase hínica.
“Lie To Me” empurra a balança para o lado mais pesado. Guitarras distorcidas, baixo profundo, electrónica e screams desembocam num breakdown e num solo de guitarra. É uma das faixas onde melhor se percebe a intenção dos Electron de fazer coexistir agressividade e desenho melódico.
Já “Dying To Feel Alive” introduz outra textura, começando ao piano antes de entrar num território mais próximo do groove metal, enquanto “You Betray” explora novamente o peso do baixo, um refrão particularmente memorável e um breakdown seguido de solo.
“Echoes Of A Dying World”, por sua vez, aproxima-se do post-hardcore e reforça a dimensão mais introspectiva do álbum.
Entre os temas já apresentados, “Toxic” talvez seja aquele em que a dimensão contemporânea do álbum fica mais evidente. A canção aborda o impacto das redes sociais, a dependência, a influência constante e a forma como a imagem de uma vida perfeita pode afectar a percepção que temos de nós próprios. Musicalmente, junta riffs pesados, sintetizadores ameaçadores e uma interpretação vocal que alterna melodias amplas com growls.
Depois chega “Taken”, que é sobre libertação e é o meu tema preferido. Tem a participação surpreendente de Benji Webbe, vocalista dos Skindred, que introduz uma dimensão ragga-metal que expande ainda mais o espectro sonoro dos Electron. Riffs esmagadores, bateria, sintetizadores sombrios, screams e a voz característica de Webbe transformam a música numa espécie de descarga de frustração acumulada. É também um exemplo perfeito da atitude que atravessa o álbum: quando tudo parece demasiado pesado, a resposta pode ser transformar essa pressão em música.
Já li que os Electron descrevem o álbum como uma exploração de existencialismo e metafísica, questionando quem somos, onde estamos e para onde vamos. A inspiração nasceu também da rejeição da ideia de uma vida perfeita constantemente projectada pelas redes sociais e pelas expectativas sociais. Isso ajuda a explicar por que razão o disco consegue ser simultaneamente agressivo e melancólico. A solidão não aparece apenas nas letras. Está nos espaços deixados pelos sintetizadores, nos momentos em que a guitarra recua, nos contrastes vocais e na alternância entre explosão e contenção.
A produção de Romesh Dodangoda, que já trabalhou com nomes como Bring Me The Horizon e Nova Twins (que vão estar em Portugal, no Meo Areno, neste domingo, na primeira parte do concerto dos Evanescense), contribui para essa dualidade, mantendo as guitarras e a secção rítmica com grande impacto sem eliminar as camadas electrónicas.
O álbum foi gravado nos Longwave Studios, em Cardiff. O resultado é um trabalho que parece querer colocar os Electron num espaço próprio dentro daquilo que referi acima, o metal alternativo contemporâneo. É a tentativa de juntar todas essas linguagens numa mesma narrativa.
A edição apresenta 13 faixas: dez temas de estúdio e, no final, versões ao vivo de “Burning Inside”, “Echoes Of A Dying World” e “You Betray”. Essa escolha dá ao álbum uma espécie de segundo acto, permitindo perceber como parte deste novo material se transforma quando deixa o estúdio e passa para o palco.
Is This Worth Living For? E a resposta pode ser esta: Lets make it worth!
por J. C. Carvalheiras, Sociólogo e Jornalista













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