por | 8 Jul, 2022 | Canto do saber, Opinião

O príncipe, o anjo, o “progresso” e o “novo”

Num episódio da série “The Crown”, que se passa no ano de 1969, o príncipe Philip, duque de Edimburgo, marido da Rainha Elizabeth II, aparece, contrafeito, num retiro espiritual para padres da igreja anglicana. Perante as dúvidas existenciais aí colocadas, a reação do príncipe é brutal: expressa o seu desprezo por todo aquele questionamento contemplativo e insta os padres a seguir os passos do “progresso”, exemplificando com a recente ida à lua. A ansiedade nele provocada pelo deslumbramento por este evento é enorme. Deslumbramento que se desvanece ao conhecer os astronautas, os heróis do “progresso”. Afinal mais não são do que 3 rapazolas, instrumentos de consagração da vontade humana num dado momento da história. Desiludido, regressa ao retiro onde reconhece, perante todos os que haviam escutado antes – do alto da sua arrogância “prática” – atacar o esforço deles em encontrar respostas, que, afinal, ele próprio necessita do mesmo tipo de respostas. 

Sublinhei a palavra “progresso”, porque a usei indevidamente num artigo, por este jornal publicado em janeiro deste ano, ao afirmar ser de progresso que a humanidade necessita. Progresso, nesse artigo, deve ser lido como aperfeiçoamento, enquanto, que “progresso” , aqui neste texto, se relaciona a ideia de crescimento constante alicerçado no desenvolvimento técnico – numa prosperidade cada vez mais apontada à utilidade de satisfação da necessidade do momento, mesmo que artificialmente induzida.

Volto, então, ao quadro de Klee, o “Angelus Novus”: o anjo que volta o rosto para o passado. Ao mesmo tempo que ele vê os factos sucederem como uma catástrofe que lhos lança incessantemente aos pés, sob a forma de ruína, ele gostaria de tudo reconstruir. Mas não consegue: um vendaval impele as suas asas rumo ao futuro a que ele volta costas – esse vendaval é o “progresso”. Não consegue, porque não lhe é dado tempo. O tempo do “progresso” é o tempo historicista, linear, contínuo, que não permite o reconhecimento do “novo”. Contudo, a vanguarda do pensamento, portanto, a do verdadeiro aperfeiçoamento humano, demanda o rompimento dessa continuidade, isto é, o reconhecimento da época, do tempo próprio, que não é o tempo do relógio, como são os exemplos próprias da nossa experiência de vida: a infância, a juventude, a velhice e a morte, onde existe uma descontinuidade que permite passar de uma fase a outra. São transições que necessitam de tempo que, na contemporaneidade, face ao “progresso” desenfreado tendem a desintegrar-se , reduzindo-se a rápidos corredores, links contínuos e cliques intermináveis – o que importa, hoje, não é o “novo” é a novidade que imediatamente se petrifica, pelo efeito de medusa, num qualquer post de duração efémera. As ruínas acumulam-se cada vez mais rápido, tudo é arrastado pelo vendaval, com os políticos à frente: a novidade reproduzida é o ópio que usam no adormecimento do povo. A incapacidade para o “novo” é crescente…

Mas não nos deixemos levar pela escatologia, esforcemo-nos por reconhecer o tempo próprio, a época, a necessidade contemplativa. No fim, foi o que o príncipe Philip, Duque de Edimburgo, falecido marido da famosíssima rainha Elizabeth II, fez ao fundar a St. George’s House, que funciona na propriedade do  castelo de Windsor, dedicada à filosofia e ao retiro espiritual. Sirva o encanto da família real para nos inspirar nesta vertente menos conhecida da sua atuação, todavia, de uma importância fundamental para a humanidade. 

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