O Organista de Lídia Jorge, livro publicado em 2014, é uma fábula sobre a criação do universo. Na verdade, tal como esclarece o Padre Anselmo Borges ,«quando se trata dos grandes enigmas e mistérios – donde vimos, para onde vamos, questões do bem e do mal, por que razão há algo e não há nada, qual o sentido último de tudo, a questão de Deus -, não se deve pedir a um filósofo ou a um teólogo (não são os melhores), deve pedir-se a um artista. Afinal, O Organista é que sabe falar do essencial, das perguntas essenciais. Porque é um Poema em Música» (Livro Escritaria 2014, pág. 18).
Em O Organista, o aparecimento, ou reaparecimento do Criador, insurgindo-se na festa do homem e da mulher, transportou consigo a percepção do tempo e do espaço, o homem perdeu a inocência e tomou consciência da sua finitude e da sua pequenez face à (in)finitude do cosmos. O vazio foi anulado pela luz que, pelo sopro inigualável do Criador, se tinha expandido pelos quatro cantos do universo. A distância entre Criador e criado, porém, eram tão grandes, que se tornaram obscenas, atendendo à pobre humanidade. Tempos sobre tempos terão de passar para que o homem se sente de novo, agora consciente, tocando o órgão. Assim, à inocência inaugural, sucede a inevitável consciência infeliz que se apresenta, nesta obra, pela impossibilidade do homem anular a sua finitude, avançando lentamente no tempo, numa evolução tão lenta que o arrasta pelos tempos «Biliões de anos, de triliões de anos passariam, desde que o Criador disse ao homem: Vem!» (O Organista, pág. 39).
O Organista é, com efeito, uma fábula sobre a criação do universo, e nela somos colocados numa espécie de confronto com o enigma da criação. O problema de Deus é-nos colocado depois do aparecimento do homem, já que é a ele, nas palavras de Vergílio Ferreira, «ao ser frágil e infinitamente breve que ele é, que se reverte toda a vertigem do mundo». Há como que uma indecifrável presença anterior a tudo e ao próprio tempo: «Sim, a primeira nota executada pelo Criador era, para todos os efeitos, um som próprio da música que o homem havia tocado, tinha a mesma natureza (…)» (O Organista, pág. 29).
A fábula que Lídia Jorge nos propõe, parece-nos revelar uma identificação com a interrogação original, na suspeita de uma presença totalizadora que o homem pós-moderno perdeu e que, incessantemente, continua à procura. Na síntese luminosa de Vergílio Ferreira, «é na dimensão do sagrado que se situa o espanto (…), o senso do mistério, a indefinida suspensão com que reagimos à estranheza do universo, do enigma que o funda, dos seres que o povoam, do homem».













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