E DEPOIS D’ABRIL? [4]
Depois da revolução, a sociedade abriu-se de uma forma por vezes deslumbrada e esfuziante. Surgiram novas festas e as que já se faziam subiram de tom. As associações e os eventos desportivos aumentaram exponencialmente. O final de uma etapa da Volta a Portugal em Lousada, a 5 de agosto de 1974, foi exemplo desse intenso afã de novidade e manifestação na vida pública nos seus vários sentidos, mormente social, cultural e desportivo. Nas Festas Grandes surgiu pela primeira vez o “Cortejo Luminoso” e os “Carros de Crítica”.
Lousada viveu um verão quente e intensamente festivo em 1974. Reza a história que pela primeira vez surgiram os famosos “carros de crítica” nas Festas Grandes do Concelho.
Numa belíssima crónica de Maria Orquídea de Barros Nunes, chefe de redação do Jornal de Lousada, lia-se em título: “Excederam-se em brilho e grandiosidade as Festas Grandes do Concelho de Lousada”. Nos dias 27, 28 e 29 de julho, acorreram a Lousada “milhares de forasteiros, provenientes dos mais variados pontos do país, ávidos de presenciarem este magnífico e ímpar espetáculo de luz e cor. Não faltaram também, nos três dias festivos, muitos dos nossos conterrâneos ausentes, aqueles que ainda sentem no coração, viva e ardente, a chama do amor ao torrão natal”.
As Marchas Alegóricas ou Cortejo Luminoso, que fora uma criação da autoria da professora Palmira Meireles, esteve arredado do programa durante vários anos e regressou em 1974. Uma novidade juntou-se a esse desfile, os carros de crítica. Esta prática foi caindo em desuso até aos dias de hoje, mas foi, desde aquele ano e durante décadas, uma forma de manifestação democrática através da crítica satírica que até ali estava impedida pela censura do antigo regime.
“Tudo se excedeu em brilho e grandiosidade, sendo de salientar a inclusão de mais um número no programa, o cortejo luminoso”. Nos moldes habituais, as Festas Iniciaram-se no sábado com uma salva de morteiros, ao romper do dia. Os gigantes e Zés Pereiras saíram para a rua, aturdindo os ares e enchendo de animação as nossas gentes. Realizou-se a Feira Franca, muito concorrida, e nela integrado o Concurso Pecuário levado a efeito pelo Grêmio da Lavoura. De tarde, a Banda de Música de Lousada deu concerto num dos coretos instalados no Jardim. À noite, houve Festival de folclore. Já no sábado à noite, a vila registou enorme enchente”, escreveu a referida articulista.
No domingo, “depois da tradicional salva de alvorada, deu entrada a Banda de Lousada. Seguiu-se a Missa Solene com Sermão, em homenagem ao Senhor dos Aflitos. De tarde, verificou-se a entrada da Banda de Música de Gueifães – Maia, e da Fanfarra dos Bombeiros de S. Mamede de Infesta. Depois do concerto musical, em que participaram as duas Bandas, seguiu-se a majestosa e imponente Procissão do Senhor dos Aflitos, o número de eleição das nossas festas. O andor do Senhor dos Aflitos, aos ombros dos homens bons da terra, percorreu as ruas da vila e o Senhor, lá do alto da Cruz, abençoou Lousada e os seus crentes. À noite, Lousada estava linda com os seus milhares de luzes e cheia como um ovo. Os visitantes, num vai e vem constante, deram vida à terra até altas horas da madrugada. Houve concertos musicais, excelentes sessões de fogo de artifício e a tradicional corrida de duas vacas de fogo”.

Na segunda-feira, “de tarde, realizou-se a prova ciclista e à noite o Cortejo Luminoso, com carros alegóricos e alguns representativos das maiores firmas locais. Este número foi do agrado geral e oxalá que para o ano outras firmas e outras freguesias deem também o seu concurso. Pelo que realizou e pelo êxito que alcançaram as Festas Grandes de 1974, merece encómios a sua briosa Comissão”, conclui Maria Orquídea.
Dias depois a vila voltou a encher-se de gente para novo evento. “Ficará como ponto alto da história da nossa vila e do concelho a magnífica jornada vivida no passado dia 5, com a realização nesta vila de uma final de etapa da 37.ª Volta a Portugal em Bicicleta. Desde manhã cedo que se notava que ia ser um dia diferente, um dia de festa. A circulação dos veículos e a movimentação das pessoas aumentava de hora para hora. Por volta das 10 horas havia já muita gente junto aos Bombeiros Voluntários, local da meta, procurando ocupar os melhores lugares. Procuravam-se os melhores sítios, os lugares mais elevados. O monte do Senhor dos Aflitos ia-se vestindo de pessoas. Formaram-se alas ao longo da rua”, escreveu o Jornal de Lousada na edição de 10 de Agosto de 1974, que se apresentou com uma raridade: a primeira página surgiu estampada de azul, porventura aludindo ao triunfo do FC Porto naquela etapa da Volta a Portugal.
“A animação ia aumentando com a aproximação da hora, e com a chegada dos primeiros órgãos de informação e carros da Rádio. Com a chegada dos cronometristas, os corredores estavam perto. Sabia-se que havia homens em fuga. A emoção ia crescendo de momento a momento até que explodiu com a chegada dos ciclistas e com a vitória de Custódio Gomes (FC do Porto), que num vigoroso sprint bateu os seus companheiros de fuga sob a linha da meta”.
A vitória esfuziantemente celebrada e aplaudida com calor, aplausos que redobraram novamente quando o diretor do Jornal de Lousada, José Domingos Dias, envergou a Custódio Gomes a faixa de vencedor da etapa e a António Martins, do Benfica, (ver fotografia) a camisola amarela que arrebatara ao seu colega de equipa Joaquim Leite.
“Ficou plenamente demonstrado que a Volta é a mais popular manifestação desportiva do país, aquela que mais faz vibrar. E ficou igualmente demonstrado que Lousada sabe corresponder às iniciativas que lhe oferecem. Jornal de Lousada e Estofex estão satisfeitos e esperam ter aberto um caminho para novas e futuras realizações de interesse geral para o concelho, de modo a engrandecê-lo e a torná-lo conhecido”, escreveu o jornal local.














Comentários