por | 20 Out, 2024 | Espaço Cidadania, Sociedade

“Sou vaidoso naquilo que faço”

CASIMIRO SOUSA, ENTALHADOR DE COVAS

Há ofícios que têm uma componente artística muito grande. Na marcenaria ou indústria dos móveis há verdadeiros artífices. São escultores de madeira ou entalhadores. Em Covas, vive há 65 anos um destes artistas, com muitas provas dadas na sua atividade. O baloiço panorâmico no Monte da Senhora do Amparo é um exemplo disso.

Ainda era rapaz quando Casimiro Barbosa Coelho de Sousa foi trabalhar para Freamunde, numa fábrica de móveis. “Fui aquilo a que se chama rapaz-da-cola, quer dizer, era um ajudante dos marceneiros, aos quais eu chegava a cola, as ferramentas e tudo o mais que fosse preciso para eles trabalharem”, recorda.

Foi ali que ganhou admiração pelo trabalho de entalhar e esculpir a madeira. “Eu ficava fascinado com o trabalho do mestre Quim Bica, um famoso artista de Freamunde, que trabalhava naquela fábrica e isso deu-me gosto para ser entalhador”, revela Casimiro.

Já crescido, mas ainda menor de idade, foi trabalhar para Sobrão (Paços de Ferreira), na oficina de um compadre do seu pai. “Estive lá dos 13 aos 19 anos e aprendi muito numa equipa de 18 trabalhadores. Depois mudei-me para os móveis Ponto Final, em Covas. Com o que aprendi naqueles anos, decidi instalar-me por conta própria, depois de ficar livre da tropa, aos 20 anos. Cheguei a ter seis rapazes a trabalhar para mim”, conta este profissional.

Casou e construiu habitação no lugar das Casas Novas, “mas faltavam 500 contos para pagar a construção e precisava de ganhar rápido esse dinheiro, por isso fui trabalhar para França. Estive oito meses na construção civil e voltei”.

Aos 31 anos, Casimiro foi de novo para a fábrica do padrinho de um irmão, em Sobrão. Ali se manteve até à reforma, aos 60 anos, quando era encarregado daquela fábrica, que tinha 22 funcionários. “Foram anos de muita exigência, pois trabalhávamos para decoradores nacionais e grandes clientes estrangeiros”, salienta o artista.

O fabrico de móveis foi sempre a sua atividade principal, mas a paixão, o que realmente o motivava naquela profissão, era a parte artística. Esculpir madeira, como fazia Quim Bica, era o que Casimiro queria. Só de o ver burilar a madeira, com o formão ou com a goiva, a forma como ajeitava a madeira e posicionava os braços e o corpo, tudo serviu para Casimiro aprender. Foi um excelente aluno e as peças que produz são disso um exemplo cabal.

Casimiro Sousa

“Gosto desta arte e sou vaidoso em tudo o que faço, ou seja, gosto de chegar ao fim de qualquer trabalho e gostar do que fiz, é isso que mais me dá motivação”, confessa.

Quanto ao rendimento que obtém dos trabalhos artísticos, diz que “entalhar não dá muito dinheiro, não dá para viver quem tem muitos encargos, porque é muito mal pago. É uma arte que requer muitas horas de trabalho miudinho e no fim se fosse a cobrar o que realmente tinha investido em tempo, a maioria das peças ficavam por uma fortuna”, admite. Por isso o forte do trabalho foi sempre o fabrico de móveis e nas horas vagas dedicava-se à arte de entalhador, sobretudo na arte sacra.

Baloiço Panorâmico de Covas

Na sua oficina improvisada na garagem da casa, Casimiro Sousa tem esculturas de santos já acabadas e outras ainda por ultimar. Em grande destaque numa prateleira está Ecce Homo, Jesus Cristo crucificado, no qual se destaca o realismo e um aspeto que também é muito especial para este artista, a pintura. “Foi o meu primeiro trabalho”, diz por entre um sorriso e os olhos a brilhar. Já vendeu vários exemplares iguais. É o seu Ex Libris. Mas revelou-nos que não é a sua obra preferida. Essa é o brasão da freguesia de Covas, que está exposta ao público no alto do Monte da Senhora do Amparo, no Baloiço Panorâmico.

Baloiço Panorâmico de Covas

“Certo dia o meu amigo Francisco Ribeiro, também daqui de Covas e também dos móveis, contou-me a sua ideia de instalar um baloiço lá em cima no Cristo-Rei. O Fernando Magalhães, Presidente da Junta de Freguesia, também gostou da ideia e todos metemos mãos à obra. Tivemos ajuda da Câmara, embora esta pudesse ter feito mais para embelezar o local, com um carrossel ou outro entretenimento para crianças, por exemplo”.

“Tenho muito gosto naquilo que lá está”, declara Casimiro Sousa, que deixou a sua marca bem patente na talha que ornamenta o baloiço, onde estão representadas figuras e símbolos das tradições locais. Não se cobrou da mão de obra que empregou naquele trabalho, mas Casimiro diz que a melhor forma de pagar aquilo que fez “é ouvir o meu neto dizer «isto foi feito pelo meu avô»”.

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