por | 25 Dez, 2024 | Economia, Sociedade

Feira das Oitavas é um fenómeno social que pede mais expansão

JÁ SE CHAMOU “FEIRA DAS PRENDAS” E “FEIRA DAS TROCAS”

Os termos “mar de gente”, “concorridíssima”, “superlotada”, “abarrotada” são encontrados nos jornais antigos em textos sobre a Feira das Oitavas. Desde há mais de um século, este evento, que se realiza no dia a seguir ao Natal, é um dos momentos sociais mais importantes da história de Lousada moderna. Já foi conhecida por Feira das Trocas, Feira de Natal, Feira das Prendas, além de outras designações. Mas ficou consolidada a designação Feira das Oitavas, a partir de meados do século passado. O evento é cada vez mais uma organização quase que espontânea dos feirantes e foi perdendo a festividade envolvente que tanto a caracterizou. Já não tem carrosséis nem outras diversões, embora um ou outro grupo de bombos ou trupe musical entrem em cena.

Engalanadas com as vestes novas, moças e moços rodopiam pela feira em busca dos seus pares, para ali trocarem prendas, que normalmente são peças de vestuário ou então utilidades para o enxoval e futuro lar os novos noivos, que no ano seguinte hão-de casar. Este hábito de antigamente ainda ocorre na atualidade. É um dos muitos exemplos da rica dinâmica social que acontece nesta feira. Mas, tal como noutras épocas distantes, também na atualidade há quem reclame por mais condições festivas, nomeadamente diversões e mais comes e bebes.

Há mais de 100 anos esta era uma feira conhecida pela troca de prendas. É curioso o informe de um jornal que se publicou na segunda década do século XX, em Lousada, denominado O Radical. Diz na sua edição de 29 de dezembro de 1912: “realizou-se no dia 26 passado a tradicional feira das prendas, apesar da chuva miudinha, que durante todo o dia polvilhou os elegantes trajes das raparigas lavradeiras que à feira vieram ganhar a consoada dos seus namorados”. E lê-se no mesmo artigo que “apesar da elevada concorrência, a feira desfez-se cedo, porque a chuva com a sua teimosia não deixava passear os namorados”.

A feira também era (e ainda é) motivo para os padrinhos levarem os afilhados a comprar uma prenda, normalmente uma peça de vestuário ou de calçado. Daí o nome «feira das prendas», como se chamava há décadas.

A 29 de dezembro de 1928 o Jornal de Lousada escrevia que “como previmos, esteve concorridíssima a Feira das Prendas, que se realizou nesta vila como de costume a 26 de dezembro. A parte alta da vila esteve coalhada de gente, desde as 12 às 16 horas, sendo impossível atravessar-se as ruas e largos”.

Vinte anos mais tarde, o Jornal de Lousada de 18 de dezembro de 1948 dá amplo destaque ao evento: “A feira das Oitavas ou feirado Natal realizar-se-á este ano a um domingo. Conhecida em todo o norte do País, a ela acorrem milhares de feirantes para transacionarem os seus produtos e muitos mais para mostrarem as suas garridas vestimentas estreadas no dia anterior. Segundo nos consta, já alguns proprietários de «Rodas de Carrinhos» e «Barracas de Tiro» marcaram os seus lugares, pelo que este ano a afluência de forasteiros será, sem dúvida, maior que a dos anos transatos”. Nesse artigo surge um lamento: “Pena é, que o comércio local,não tome as necessárias providências para que a vila beneficie com a afluência dos forasteiros. Seria interessante que todos os anos se realizassem concursos de gado, exposições agrícolas de forma que os prémios previamente estabelecidos e propagandeados servissem de estímulo ao lavrador que é quem dá o verdadeiro valor comercial a uma feira”.

Feira das Oitavas_Créditos LAF

UM REPARO DE 1970…

Em 1970 a crítica pela falta desenvolvimento da feira voltou a ser referida, novamente no jornal local: “Realizou-se mais uma vez a feira dos 25 desta vila que, por coincidir com um dia santificado (dia de Natal) veio, como habitualmente, a recair no dia imediato. E por assim ser, esta feira passou a denominar-se por Feira de Natal ou Feira das Oitavas (como muitos ainda lhe chamam) sendo considerada a maior feira do ano das aqui realizadas, seguindo-se-lhe a que costuma realizar-se, integrada no programa das Festas do Concelho. Embora no aspeto de transações não vá além das que costumam realizar-se bimensalmente, e não seja muito rendosa para os feirantes que aqui expõem os seus artigos, é-o, sem dúvida, para os Cafés, Pensões e casas de comes e bebes onde não há mãos a medir. A feira deste ano, com um tempo razoável, convergiu na nossa terra milhares de pessoas,contribuindo para um grande movimento automóvel especialmente nas carreiras de transportes públicos que, até de noite, andaram num vai e vem constante. A «Feira das Oitavas» é já bastante conhecida, mas mais o poderia ser se se encarasse a sério na sua divulgação, fazendo a seu tempo propaganda adequada. E é aqui que cabe a palavra ao comércio local, porquanto é o que beneficia mais diretamente com uma maior expansão da feira”.


A Origem do nome

Pe André Ferreira

A designação “Feira das Oitavas” deriva do facto de decorrer no oitavário do Natal. Diz o padre André Ferreira, de Airães e outras paróquias de Felgueiras: “As grandes Solenidades de Natal e de Páscoa são celebradas durante 8 dias como sendo um só dia. No Natal, o primeiro dia da oitava é o dia 26 e o último dia é o 1 de Janeiro. Na Páscoa, o primeiro dia é a segunda-feira e o último dia é do II domingo de Páscoa ou a Pascoela. Isso terá implicações sobretudo na liturgia e na piedade popular. Em muitos locais, como Lousada, fazem-se os mercados ou feiras das oitavas para assinalar a grande festa de Natal. Na Bíblia, o número 8 significa a plenitude. Ao celebrarmos as oitavas de Natal e da Páscoa queremos afirmar a plenitude de Deus na nossa vida”.


A OPINIÃO DOS FEIRANTES

DUARTE MORAIS

“É uma feira anual de grande tradição”, diz este feirante de Macieira, que também é cantor. “O nome Feira da Oitava do Natal diz muito devido à sua antiguidade” e “geralmente as pessoas vestem a sua roupa nova estreada por esta altura, e seguem em romaria, até à feira, ao mesmo tempo aproveitam para comprar alguns artigos em falta para a consoada de ano novo, assim como outros produtos que já são vendidos mais em conta”.

ARMANDA NETO

Esta filha da famosa Virinha da Tenda e do Rei da Galocha (Joaquim Neto), já tem 48 anos de feira a vender miudezas e vestuário para bebé “Ando nisto desde os meus 14 anos e gosto muito da Feira das Oitavas. É uma feira maior, talvez como a da Festa Grande. Um dos pontos fortes desta feira são os emigrantes, que vêm passar o Natal e fazem muitas compras. Nesta altura vendo principalmente pijamas e meias”.

MARGARIDA MENDES

O setor do calçado é um dos mais procurados na Feira das Oitavas. Uma das comerciantes mais conhecidas nessa área é a fadista Margarida Mendes, de Casais. “Reconhece que o calçado “ainda é uma das prendas mais oferecidas no Natal”. Quanto ao evento de dia 26, “é uma feira com tradição muito antiga e mete muito povo e muita animação”. Desde muito cedo “eu fazia esta feira com os meus pais, tinha eu nessa altura 12 anos, portanto foi há quase 50 anos”. Em questão de vendas “é certo que se vende mais nesta época natalícia, mas relativamente ao calçado enquanto prendas já foi melhor noutros tempos”.

LUÍS OLIVEIRA

“Se o tempo ajudar é sempre a maior feira do ano e na região só é superada pela feira de São Martinho, em Penafiel”, diz Luís Oliveira, que é feirante desde 1984. “É uma feira que traz muitos emigrantes que só vemos por esta altura precisamente”, acrescenta o feirante natural de Vilar do Torno e Alentém, mas residente em Macieira. “O largo da feira fica cheio na Feira das Oitavas, mas ficava bem um palco nalgum sítio dos arredores com grupos musicais ou até grupos de bombos”, afirma Luís Oliveira, que também é músico e presidente do conjunto Rompe Cordas.

JORGE PINTO

Há cinco décadas nas andanças, Jorge Pinto descende de antigos feirantes. Diz que “por ser uma feira franca, a Feira das Oitavas tem mais movimento, pois vem feirantes de fora, e acima de tudo vem fregueses de todos os lados”. Antigamente havia mais feirantes de fora porque eles não pagavam. Mas como era uma injustiça para os feirantes habituais, eles também passaram a pagar uma taxa, embora pequena”.

A chamada propaganda, com megafone ou altifalante, também “dá um ser diferente e animado à Feira das Oitavas, onde toda a gente vende, seja de que ramo for”.

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