O amor cria um arco-íris que permite ver o outro através da lente do coração. Quando o sentimos, a luz que nos guia é uma ponte entre o sol e a água – elementos essenciais para a vida. Por isso, o amor, como se de um milagre se tratasse, tem a mesma forma e o mesmo calor de um abraço.
Nos livros, deparamo-nos com histórias que são abraços. Nas palavras, construímos imagens, por vezes, convencionais, que servem de reconhecimento coletivo do abraço primordial. A força genesíaca do olhar da mãe ou do pai será sempre a imagem de onde nascem todos os sentidos anteriores à nomeação das coisas.
As palavras são o suporte do cheiro, da luz dos olhos, da mão enlaçada – antes disso, está o que transcende os atos, a antiquíssima fonte de onde brotam os significados. Deste modo, no palco ímpar da narrativa romanesca, erguem-se figuras que interpretam, ora os silêncios, ora os gritos da humanidade à procura do seu lugar na terra, quase como seres fantasmáticos em busca de um sentido, como nas inesquecíveis criações de Raul Brandão ou de Vergílio Ferreira. Essas figuras, ou mais explicitamente, essas personagens de natureza da metafísica, por serem inapreensíveis, evanescentes e ao mesmo tempo duráveis para sempre, expandem-se pelas páginas da narrativa romanesca, emergindo assim pela leitura para o espaço da imaginação e agitam-se desse lugar semiobscurecido na tentativa de resolver os enigmas essenciais dos seres – uma fórmula para dar voz à demanda e ao amor dos homens na sua labuta pela terra.
Na curva eterna do tempo, confrontamo-nos com os apelos que nele sobrevivem às enxurradas, lembrando que a questão fundamental sobre a essência do amor reside no fundo das narrativas como espelho das nossas incapacidades.
Desta forma, os pássaros anunciam o lugar da palavra dentro da diegese, conferindo-lhe um corpo único e capaz de rasgar os limites dos sentidos. Dentro deste tecido do texto, movendo-se entre a névoa e a luz, adensam-se significados que trazem para a tona da história os significados que damos ao amor a lembrar a incorporação daquilo que não se vê, mas que voa do interior das coisas.













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