por | 21 Mai, 2025 | Dar voz aos livros, Opinião

A propósito de amor

O amor cria um arco-íris que permite ver o outro através da lente do coração. Quando o sentimos, a luz que nos guia é uma ponte entre o sol e a água – elementos essenciais para a vida. Por isso, o amor, como se de um milagre se tratasse, tem a mesma forma e o mesmo calor de um abraço.

Nos livros, deparamo-nos com histórias que são abraços. Nas palavras, construímos imagens, por vezes, convencionais, que servem de reconhecimento coletivo do abraço primordial. A força genesíaca do olhar da mãe ou do pai será sempre a imagem de onde nascem todos os sentidos anteriores à nomeação das coisas. 

As palavras são o suporte do cheiro, da luz dos olhos, da mão enlaçada – antes disso, está o que transcende os atos, a antiquíssima fonte de onde brotam os significados. Deste modo, no palco ímpar da narrativa romanesca, erguem-se figuras que interpretam, ora os silêncios, ora os gritos da humanidade à procura do seu lugar na terra, quase como seres fantasmáticos em busca de um sentido, como nas inesquecíveis criações de Raul Brandão ou de Vergílio Ferreira. Essas figuras, ou mais explicitamente, essas personagens de natureza da metafísica, por serem inapreensíveis, evanescentes e ao mesmo tempo duráveis para sempre, expandem-se pelas páginas da narrativa romanesca, emergindo assim pela leitura para o espaço da imaginação e agitam-se desse lugar semiobscurecido na tentativa de resolver os enigmas essenciais dos seres – uma fórmula para dar voz à demanda e ao amor dos homens na sua labuta pela terra.

Na curva eterna do tempo, confrontamo-nos com os apelos que nele sobrevivem às enxurradas, lembrando que a questão fundamental sobre a essência do amor reside no fundo das narrativas como espelho das nossas incapacidades. 

Desta forma, os pássaros anunciam o lugar da palavra dentro da diegese, conferindo-lhe um corpo único e capaz de rasgar os limites dos sentidos. Dentro deste tecido do texto, movendo-se entre a névoa e a luz, adensam-se significados que trazem para a tona da história os significados que damos ao amor a lembrar a incorporação daquilo que não se vê, mas que voa do interior das coisas.                                                             

                                                     Conceição Brandão

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Equipa de Shinkyokushin conquistou seis pódios

O WIBK Dojo Verdadeiro Espírito, do lousadense Paulo Rente Silva marcou presença no Torneio...

Atleta de Lousada convocada para Jogos do Eixo Atlântico

A jovem Daniela Pereira, natural da freguesia de Pias, em Lousada, foi convocada para integrar a...

"Talvez seja por isso que gosto tanto das nascentes. Porque, ao contrário dos rios, que toda a...

Campeões Nacionais de Natação Adaptada

Os atletas lousadenses do clube Lousada Século XXI estiveram em grande evidência no Campeonato...

A bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, Paula Franco, foi uma das convidadas do...

Forte internacionalização do Inferno das Febras

O Inferno das Febras regressa ao Parque de Lazer e Merendas de Casais, em Lousada, nos dias 28 e...

O treinador penafidelense João Paulo Guedes Silvestre, de 36 anos, é referido por várias fontes...

Protocolo para projeto de turismo cultural assinado entre a CCDR-N e Vidas em Cena

A Associação Vidas em Cena, de Lousada, está entre as dez entidades culturais da Região Norte...

A celebração dos 100 anos dos Bombeiros Voluntários de Lousada constitui um momento de...

Na passada semana, Portugal assistiu a algo que deveria ser praticamente impensável numa sociedade...

Siga-nos nas redes sociais