por | 6 Mai, 2026 | Opinião, Partidos Políticos

Na última sessão da Assembleia Municipal de Lousada, perguntei ao executivo que estratégia tem para criar emprego qualificado e reter os jovens que aqui crescem. Recebi três respostas. Merecem ser lidas com atenção, porque revelam muito mais do que pretendem. A Vereadora Maria do Céu Rocha, responsável pelo pelouro da Economia e Investimento, disse: “Não é de todo mal que Lousada tenha estes talentos e que vão para fora.” Está na gravação da Assembleia Municipal. Estará na acta. A teoria subjacente tem nome em economia: brain circulation. Os talentos saem, ganham experiência, regressam com valor acrescentado. É uma ideia legítima, quando o território cria condições de retorno.

Quando há emprego qualificado à espera. Quando há um projecto de futuro que justifique o regresso. Pergunto então: que condições criou Lousada para atrair de volta quem saiu? Que obstáculos removeu Lousada para que o investimento qualificado se instalasse? Que fricção burocrática eliminou? Que custos de contexto reduziu para tornar o território atractivo ao investimento privado?

Sem resposta a estas perguntas, a teoria da brain circulation é apenas uma forma elegante de dizer que não há estratégia. Também tem um nome em economia: brain drain. E a responsável pelo pelouro da Economia confirmou-o na frase seguinte: “Não interessa se vive em Lousada ou se vive no Porto.” O território não importa. O município não tem papel. Se isto é a visão da responsável pela Economia do concelho, podíamos poupar o salário e extinguir o pelouro. Anteciparei o argumento mais previsível: o problema do emprego qualificado não é municipal, é estrutural. É verdade, mas apenas em parte.

Nenhum município resolve sozinho a geografia económica do país. Mas este argumento tem um limite preciso: serve para explicar o passado, não para justificar a inacção no presente. E o que distingue os municípios que avançaram dos que ficam para trás não é a ausência do problema estrutural, mas sim a recusa em o aceitar como desculpa permanente. O Fundão tinha o problema estrutural em dose tripla: interior profundo, sem universidade, sem cluster industrial. Em 2013 decidiu parar de invocar as circunstâncias e apostou numa estratégia deliberada de captação de investimento qualificado. Fê-lo removendo obstáculos, simplificando processos, tornando-se um território de baixa fricção para quem quisesse investir e instalar-se. O mercado fez o resto. Hoje tem mais de mil postos de trabalho em tecnologia, software e biotecnologia. Não porque o problema estrutural desapareceu, mas porque alguém decidiu trabalhar contra ele em vez de se resignar a ele. Lousada tem condições que o Fundão nunca teve. Trinta e cinco minutos do Porto.

O maior cluster automóvel do Norte a meia hora – Bosch, Simoldes, CEiiA, INESC TEC, MOBINOV, entre outros. Conectividade rodoviária e ferroviária. Uma centralidade com que nenhum outro concelho consegue competir. Jovens qualificados. E o Eurocircuito da Costilha. Com tudo isto, fica uma pergunta no ar: porque razão as empresas de conhecimento não escolhem Lousada para se instalar? Porque é que os centros de competência ficam no Porto, em Braga, em Aveiro, e não aqui, que está mais perto de tudo do que a maioria? O que o executivo faz com estas vantagens? Trata-as como cenário para eventos. E quando alguém propõe ir mais longe, invoca as circunstâncias do território como fatalidade geológica, em vez de as encarar como o desafio que uma política séria de redução de custos de contexto resolve.

A orografia não é uma sentença. É uma condicionante que uma estratégia inteligente transforma em vantagem, apostando em economia do conhecimento, em serviços de valor acrescentado, em sectores que não precisam de vale plano para existir. Outros fizeram-no. Lousada tem melhores condições de partida do que a maioria. O Senhor Presidente citou a captação de “empresas inovadoras na metalomecânica” como evidência de emprego qualificado. Não quero cair no erro oposto: a metalomecânica de precisão é um sector de alta complexidade, e as empresas líderes empregam engenheiros com salários competitivos. Isso tem valor real. Mas há uma pergunta que o executivo não fez – e que é a única que importa para este debate: quantas dessas empresas instalaram em Lousada as suas funções de engenharia, de investigação e desenvolvimento, de gestão de produto? Ou instalaram cá a produção, e ficaram com o conhecimento noutro sítio? Porque a diferença entre ter uma fábrica e ter um centro de competências é exactamente a diferença entre emprego industrial e emprego do conhecimento. O primeiro é valioso. O segundo é o que retém um investigador em engenharia, um gestor de produto, um especialista em automação. São mercados distintos, com lógicas distintas, e confundi-los – deliberadamente ou não – é a forma mais eficaz de não responder à pergunta.

Quando propus que o Eurocircuito da Costilha fosse posicionado como infraestrutura de testes de mobilidade autónoma, o Vereador do Desporto veio ao plenário dizer que o circuito não é especial, que há meia dúzia de semelhantes em Portugal, e que a condução autónoma já está resolvida na América. Sobre a maturidade tecnológica, o Vereador tem razão num ponto estreito: os grandes operadores americanos – Waymo, Tesla – estão de facto avançados em condução autónoma de nível 5 em ambiente urbano. Mas há uma distinção que o Vereador não fez, e que é determinante: a Waymo circula em San Francisco com anos de mapeamento daquela cidade específica, em condições regulatórias americanas. Os construtores europeus – que operam sob regulamentação de homologação europeia, com processos de certificação europeus – têm pela frente anos de testes de desenvolvimento e validação. É para isso que o programa Horizon Europe CCAM existe. É para isso que financia infraestrutura de testes. Se o problema estivesse resolvido, o programa não existia – e a União Europeia não estava a injectar centenas de milhões neste sector. O Vereador do Desporto usou o argumento certo para o mercado errado. Concedo um ponto ao Vereador: existem em Portugal circuitos com características técnicas de superfície semelhantes. Tem razão nisso. Mas circuitos não são ilhas. O valor de uma infraestrutura de testes não é apenas técnico. É logístico, económico e de ecossistema. Um circuito no interior da Beira ou no Alentejo pode ter tarmac e terra. Não tem o Bosch a 30 minutos. Não tem o cluster da indústria automóvel a 40. Não tem o CEiiA, o MOBINOV e o INESC TEC na mesma hora de carro. Não está a 35 minutos do Porto, com ligação ferroviária. Não é cruzado por três auto-estradas. A vantagem competitiva da Costilha não está apenas nas características da pista, mas sim em tudo o que existe à sua volta. E isso, por definição, nenhum outro circuito português tem. É uma vantagem de território.

É exactamente o tipo de vantagem que uma política séria de atracção de investimento privado devia estar a monetizar. Sobre o argumento de que a obra ainda não está concluída: é verdade, e é um ponto legítimo. Mas preparar uma candidatura a Horizon Europe demora entre seis a doze meses. A obra e a candidatura são processos paralelos, não sequenciais. Começar hoje significa ter a candidatura pronta quando a infraestrutura estiver operacional. Esperar que a obra esteja concluída para começar a pensar na candidatura é garantir que se perde a janela. É exactamente o tipo de sequenciamento que distingue quem planeia do futuro de quem reage ao presente. Entre 2017 e 2021 este município submeteu dezenas de candidaturas a programas europeus. Erasmus+ para desporto, inclusão, juventude, idosos. Interreg para resíduos. Projectos sobre florestas, hipoterapia, refugiados. Cada um com o seu mérito social genuíno. Nenhum com o objectivo de criar condições para atrair emprego qualificado, atrair investimento, ou transformar a base económica do concelho. Não é uma crítica à quantidade. É uma crítica à direcção. Um município que em quatro anos não submeteu uma única candidatura europeia orientada para o desenvolvimento económico não tem falta de energia – tem falta de ambição.

O Senhor Presidente apresentou o Centro de Formação do IEFP como pilar da estratégia de emprego qualificado. O município cedeu o terreno. É o contributo real e concreto de Lousada nesta infraestrutura. O que ali se ensina, que cursos se leccionam, que perfis se formam, isso é competência do IEFP, entidade nacional com programas definidos centralmente. O município não tem nem terá qualquer intervenção nos conteúdos. Não se sabe que estudo de mercado foi feito sobre as necessidades do tecido empresarial do Vale do Sousa. Não se sabe se os cursos correspondem ao que as empresas locais precisam ou ao catálogo padrão disponível em qualquer ponto do país. Mas o problema mais profundo não é que o controlo seja municipal ou central. É que seja inteiramente estatal. As empresas que sabem o que precisam, que conhecem os perfis que faltam, as competências que procuram, não têm voz nos conteúdos.

A formação profissional devia ser orientada pelo mercado, não pelo catálogo do Estado. E um executivo verdadeiramente comprometido com o desenvolvimento económico local devia estar a exigir exactamente isso, e não a apresentar a cessão de um terreno como estratégia. Há uma coerência interna neste executivo que é necessário nomear claramente: o problema do emprego qualificado é estrutural, logo não há culpa local. Os jovens que saem podem voltar – logo a saída não é problema. Temos metalomecânica e o IEFP, logo estamos a fazer algo. A Costilha não é especial, logo não perdemos nada. É um sistema fechado, impermeável a qualquer resultado. Nunca há falha, nunca há urgência, nunca há responsabilidade. A questão não é se este executivo trabalha: trabalha, e em muitas áreas trabalha bem. A questão é se confunde actividade com política. E se percebe a diferença entre o Estado como produtor de serviços e eventos – papel que domina, e o Estado como facilitador das condições em que o mercado e as pessoas podem prosperar – papel que nunca assumiu. Liberalismo não é pedir que o Estado faça mais. É pedir que faça menos nas coisas erradas, e que faça bem o que só o Estado pode fazer: remover obstáculos, reduzir fricção, criar previsibilidade para quem quer investir e construir. Esse executivo nunca fez esta distinção. Faz festas. Financia eventos. Subsidia a sua empresa municipal.

Candidata-se a fundos europeus para percursos pedestres. E depois invoca as circunstâncias para explicar porque os jovens partem. Lousada tem melhores cartas do que qualquer um deles tinha. Localização, cluster automóvel à porta, infraestrutura, jovens qualificados. O que não tem é um executivo disposto a jogar essas cartas, porque jogar implica arriscar, e arriscar implica poder falhar, e falhar não combina com uma agenda cheia de prémios e festivais. O Fundão arriscou com menos. Aveiro arriscou com menos. Ficaram maiores. Lousada tem melhores cartas do que qualquer um deles tinha e ainda não jogou nenhuma. Gerir bem o quotidiano é necessário. Não é suficiente.

Um município que confunde gestão corrente com estratégia de futuro não está a governar. Está a administrar o presente enquanto hipoteca o amanhã. Os nossos filhos merecem mais do que um dormitório bem gerido. E o executivo de Lousada, mais do que estudos e planos, precisava talvez de ver um pouco mais de mundo. E um pouco menos de festas.

HUGO FERREIRA
Iniciativa Liberal de Lousada

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