Formada em animação cultural e educação comunitária, Rute Cunha trabalha em dois pelouros na Câmara Municipal de Lousada, o da juventude e da cultura, e ainda lhe sobre tempo para o associativismo, dendo presidente da associação Vidas em Cena.
O associativismo faz parte da sua vida. Como consegue gerir o tempo?
Eu acho que o tempo não manda em nós, nós é que mandamos nele. Temos de o gerir e de priorizar as coisas, organizar o tempo do trabalho e da nossa vida pessoal. É óbvio que sobra tempo para aquilo que gostamos de fazer, neste caso para o associativismo.
Esteve desde o início na formação da LADEC- Lousada Associação de Eventos Culturais. Como foi essa participação, já que curiosamente é constituída maioritariamente por homens?
Foi há 10 anos, em 2010, quando surgiu um convite irrecusável, feito pelo Joaquim Gonçalves, pessoa que eu muito estimo, mas também pelas restantes pessoas que iriam integrar essa associação, pelas quais tenho muita consideração. Além disso, também é importante a missão da própria associação, que vai um bocadinho ao encontro daquela que é a minha formação de base e que quis, de alguma forma, fazer a diferença no panorama cultural de Lousada. Estavam reunidos todos os motivos para me associar.
Chegou a ser presidente da comissão de festas em honra do Senhor dos Aflitos. Como é que foi essa experiência?
Foi com alguma surpresa que recebi o convite, pois não estava a contar com o convite para encabeçar a lista da comissão de festas. No entanto, eu sabia que tinha muitas pessoas a apoiar-me, nomeadamente as pessoas da LADEC. Foi com satisfação e com muito orgulho! Não fui a primeira mulher, pois já houve a Palmira Meireles e a Miquinhas do Armador. Aceitar esse convite também veio dar continuidade àquilo que eu já fazia, pois eu já fazia parte das festas, direta e indiretamente, há muito tempo. Comecei com o senhor Pires da Boavista, nos peditórios. Foi aí que começou a surgir o bichinho, esse amor às Festas Grandes, aliado ao espírito bairrista que todos nós temos. Foi com satisfação que em 2010 me associei às festas e em 2012 aceitei o convite para presidente.
Teve alguma peripécia curiosa nessa edição de festas?
Tive dois episódios muito engraçados: um deles é público, o outro foi interno, mas um bocadinho caricato. No que diz respeito ao cartaz, que é discutido em trabalho de grupo, não houve problema nenhum. Houve problema já as festas estavam prestes a começar, isto porque eu sou um pouco esquisita e tenho as minhas ideias, os meus gostos, e eu queria uma iluminação em tom branco, uma cor mais suave, não queria as cores berrantes, vermelhos e azuis… O senhor da iluminação apresentou-me um catálogo e eu fiquei fascinada e fiz a minha escolha. E eis que constato que o senhor, ao colocar as iluminações, pôs tudo aquilo que eu tinha dito que não queria. Fiquei muito chateada. Fui falar com o senhor e pedi-lhe para mudar aquilo. Ele não ficou satisfeito. Não sei se realmente foi o facto de eu ser uma rapariguinha na altura que o levou a reagir assim tão mal. Apesar de não ter a iluminação que eu queria, as festas lá se fizeram, com aquela parolada, para mim era o termo. Apesar do descontentamento, tinha uma missão maior.
A outra é do conhecimento público: a malfadada tourada foi no meu ano. Há pormenores que nunca chegam a ser devidamente esclarecidos. Quero dizer apenas que eu não defendo as touradas. Já na altura eu tinha dito isso. O caricato é as pessoas confundirem um momento da nossa vida com aquilo que somos na realidade. Foi preciso muita força para conseguir lidar com as críticas, algumas ofensas pessoais, atentados ao meu bom nome, conotarem-me com certas coisas que eu não defendo de todo… Mas, do alto dos meus trinta anos, consegui na altura contornar essa situação. Tive sempre comigo a comissão, o Senhor Guilherme, o senhor Gonçalves o senhor Barbosa, que são uma espécie de pais, ou tios para mim. As dificuldades superam-se quando estamos acompanhados das pessoas certas. Foram dois pontos marcantes das festas da minha organização.
Acha que a população está bem informada para opinar verdadeiramente sobre a tourada?
Como sabemos, a tourada está instituída como tradição, como cultura. Aceitar isso pressupõe um entendimento do que é a tradição e cultura. Se toda a gente tem essa capacidade e esse conhecimento é questionável. Até mesmo as pessoas que estão no setor cultural não sabem a abrangência desta área no setor. Não acredito que no séc. XXI as pessoas não estejam informadas, pois a informação está ao alcance de toda a gente. Na dúvida, as pessoas podem pesquisar e tirar essa mesma dúvida. Acho que tem a ver mais com a aceitação dos valores, nomeadamente a questão da proteção e defesa aligada a nenhuma associação, mas sou acérrima defensora dos direitos dos animais. Sem dar grande visibilidade, tenho muito trabalho nessa matéria. Em relação à tourada, na verdade, se eu como carne de vaca, não posso ter uma opinião 100% contra a tourada. Agora, se eu vejo tourada, não; se a defendo, não defendo; se eu escolheria que não houvesse, sim escolheria. Passava bem sem ela. Mesmo em pequena não entendia aquele tipo de espetáculo. Eu acho que a defesa dos direitos dos animais vai às vezes até ao irracional. Há pessoas tão fanáticas que às vezes perdem a noção dos limites e em relação à tourada foi isso que na altura aconteceu.
Nem sequer fui eu que decidi sobre a legalização da tourada em Lousada.
Como vê a violência doméstica em relação à mulher?
Nós somos produto de um conjunto imenso de fatores: da nossa genética, da hereditariedade, do ambiente onde fomos criados e tudo isso nos torna aquilo que somos. A questão do género, na maior parte das vezes, é uma questão cultural e depois uma questão pessoal, ou seja, daquilo que nós temos como valores e daquilo em que acreditamos, que é a nossa essência. Se queremos respeito, devemos respeitar. Apregoamos igualdade, liberdade e temos de agir em consonância com isso.
A questão de género penso que passa também por outra questão, a de um sistema que é permissivo. Basta ver os casos de violência doméstica, como eles são processados e no que usualmente culminam. Acho que é todo um conjunto de situações que continuam a perpetuar-se. Em relação a certo tipo de comportamentos e certo tipo de mentalidades aqui na nossa região, é um flagelo. Penso que é o maior a par do alcoolismo, o que é injustificável.
Em relação à posição da mulher, as mulheres têm voz e aquelas que se vão calando é porque com certeza foram criadas nesse ambiente e ainda temem alguma coisa. Deviam acreditar que isso tem de ser ultrapassado. Existem pessoas que estão atentas, leis que as protegem, existem instituições, os amigos e as amigas, a família. Hoje em dia, também no trabalho as mulheres estão às vezes tão bem como os homens, são livres de decidir. Portanto, tem de haver uma mudança de paradigma, mas começa em cada uma de nós, pela aceitação de cada mulher de ser livre, empoderada em pleno séc. XXI, sem ser dependente. Não é preciso manifestações nem queimar sutiãs. É preciso dizer “eu estou aqui” e aquilo que eu quero ser, afirmando-me.
Voltando ao associativismo. Enquanto presidente da Associação Vidas em Cena, fale-nos um pouco sobre a associação.
Bem, eu conheci mais de perto a realidade de Vidas em Cena em 2015. Já tinha visto algumas peças, gostava delas e então surgiu a oportunidade de colaborar com eles. No início, naquilo que eles precisavam, mediante a minha disponibilidade e, entretanto, como associada e presidente da mesa da assembleia da Associação. De há um ano, como presidente da direção de Vidas em Cena.
É uma associação que já tem dez anos. Surgiu como um grupo informal de pessoas que gostavam do teatro, que tinham algumas questões sociais para discutir, para resolver, daí também o nome Vidas em Cena. Quatro anos depois desse grupo informal ganhar nome e visibilidade, tornou-se uma associação ligada ao teatro, com peças muito ligadas ao que é cultura local, nomeadamente o “Dom Rodrigo”, “Os Cabeçudos”, “O Isler”, uma figura muito importante para Lousada. Nós às vezes temos a tendência de nos esquecermos de quem temos cá de bom, quer os que cá estão, quer os que já não estão entre nós. E o Hans Isler foi uma pessoa que deu muito ao nosso concelho, foi um grande mecenas, deu muito a esta terra e merecia que o lembrassem. A peça está muito fiel ao que ele foi e ao que aconteceu. É bom fazer parte disso, ser eu também uma vida em cena nesta peça de teatro que é a vida.
Vidas em Cena, a par do teatro, faz outras coisas no âmbito cultural. Participamos no mercado histórico, em vários eventos durante o ano, fazemos a caminhada anual, que está integrada no programa municipal de caminhadas da CM de Lousada. Também é uma associação juvenil desde 2018, inscrita na Renas, apoiada pelo IPDJ, que, a par da Câmara, são os nossos principais parceiros. Neste momento, estamos em Pias, mas vamos deixar de estar. Estivemos em Pias no auditório, que estava parado há já 30 anos. Imprimimos alguma dinâmica e, devagarinho, vamos fazendo o nosso caminho. Como presidente, não gosto muito de holofotes e, portanto, o meu trabalho é sempre mais na retaguarda, deixar os outros irem à frente e eu sou o suporte, assumindo de corpo e alma o compromisso.
Enquanto cidadã, o que espera desta pandemia?
Eu queria acreditar que nós sairíamos da pandemia melhores pessoas, no entanto, não é isso que nós vemos. O que eu acho é que o isolamento, a pandemia em si, nos devia trazer a todos maior capacidade de resiliência. Não importa as vezes que caímos, desde que nos tornemos a levantar. Isso é meio caminho andado para que nós nos tornamos efetivamente melhores, ainda que o caminho seja longo e se faça devagar. Eu prefiro ser otimista, ser resiliente e, de facto, achar que vamos sair daqui todos melhores pessoas. Espero ver isso. Mas ninguém melhorou nada em relação ao que era antes da pandemia. Quem era solidário continuou a ser e quem era egoísta continuou a ser egoísta. Mais uma vez é uma questão dos valores, daquilo que vamos construindo. Vamo-nos conhecendo, melhorando e olhando para nós com orgulho naquilo que construímos, deixando para as gerações futuras um mundo efetivamente melhor que aquele que encontramos quando chegamos cá. É importante crescermos, tornamo-nos melhores pessoas.












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