Covid19: Será uma oportunidade de reinventar o ensino?

Cândida Novais, professora de Filosofia de Psicologia do Ensino Secundário, viveu, como todos os colegas, um final de ano letivo, que nunca tinha experimentado em décadas de profissão. Agora, já na escola, embora em contacto com os alunos, para além da missão de ensinar, viu novos procedimentos entrarem na sua rotina, para defender a saúde pública e evitar que a escola feche.

Como é que viveu, enquanto professora, o final de ano letivo?

Eu estive com os décimos primeiros anos na escola e havia regras que estavam bem esclarecidas e eu senti que aquilo foi um teste, um estágio que iria ser uma rampa de lançamento para o que iria ser este novo ano letivo que inicia agora. Tínhamos de ter esse primeiro contacto de forma mais reduzida e deu para perceber quais os constrangimentos e virtualidades de voltarmos à escola e de como nos iríamos organizar. A organização escola é muito grande e é a base da sociedade. E, se funcionar bem, acho que isso se multiplica depois para todas as organizações. Os alunos e os jovens portam-se melhor que os adultos, são muito respeitadores.

A experiência foi positiva?

Sim, foi positiva. As regras foram interiorizadas, não houve nenhuns problemas, ou melhor, o único problema tem a ver com alunos de fora do concelho que estavam dependentes do transporte coletivo e particular e, como tal, viram-se confinados e, por isso, ficaram numa situação que gerou desigualdade, pois estavam a assistir a algumas aulas via online, o que não é a mesma coisa. Em conclusão, quem estava isolado, mais isolado ficou, sentiu-se discriminado. Demos aquele apoio online, e funcionou relativamente bem.

A ser necessário continuar nesse sistema, espero que não, não podemos cair no mesmo erro, porque todos estivemos de boa-fé, mas não tivemos tempo para nada, ficamos todos muito expostos. O voluntarismo com que todos nós professores agarraram este desígnio expôs-nos, estávamos sempre online a resolver os problemas e isso tem de ser acautelado.

Considera que as escolas estão preparadas?

Eu não acho que as escolas estejam totalmente preparadas, há variáveis que não controlamos. Nas Jornadas de Educação (eu daqui saúdo o senhor vereador pela escolha que fez dos painéis e dos temas) falou-se de como lidar com o absurdo. Ninguém está preparado para lidar com o absurdo. A ciência responde, vai descobrindo, corrigindo… Em termos de regras, elas já são todas conhecidas. O facto de estarmos a conviver com a situação deu-nos ferramentas para preparar a escola. Previamente, nós, diretores de turma e escola, tínhamos desenhado plantas de aula, sinaléticas, planos de contingência. Essa informação foi dada aos pais e aos alunos e isso transmitiu segurança, que do lado da escola estamos preparados para os acolher. Mas há variáveis que não conseguimos controlar, pois, fora da escola, nada nos garante que eles não possam conviver sem regras. Julgo que não será assim. Mas nós temos de proteger os alunos, as grades servem para proteger os alunos.

Com estas alterações, acha que se vai alterar a forma como o ensino está estruturado?

Se não tirarmos ilações, é um erro crasso. Eu dou aulas a uma faixa etária mais velha. Estes meninos e meninas desenvolveram competência que nós pensávamos que eles já tinham e não tinham e essa foi a grande virtualidade. Desenvolveram competências de pesquisa, cooperação, de organização, de autodisciplina de autorregulação. No início, sofreram imenso, mas eu acho que essas competências eles desenvolveram-nas. Foram muitas coisas juntas. Se nós não aprendermos com isto, é um erro para todos. O ensino, mesmo presencial, vai requerer muito trabalho em casa, um trabalho de pesquisa, de consolidação, de criatividade e de flexibilidade. Não podemos perder este espaço de cooperação humana.
Uma questão que tinha de ser resolvida era a proteção da imagem, saber quem está do lado de lá e, portanto, durante muito tempo, tivemos alunos que se escondiam por detrás do ecrã com um ícone, clicavam, passando a mensagem que estavam presentes e não estavam. E hoje conseguimos perceber que há alguns meninos que desligaram a corrente. Eles aprenderam num curto espaço de tempo, sim, aprenderam. A escola não é só conteúdos, a escola é preparar-nos com estas competências da cooperação e da criatividade.

Toda a comunidade escolar se reinventou. Considera que por parte do Ministério houve a mesma atitude?

Resistir à mudança é normal e é humano, mas temos de nos adaptar. Os currículos têm de ser adaptados, tem que se mudar, sim é verdade, mas já existe uma lei da flexibilidade curricular. Muitas vezes é preciso é coragem, política e pedagógica, e quando digo política não me refiro só aos nossos decisores políticos, refiro-me mesmo a nós, a coragem de assumir. Os pais têm de aceitar e perceber, ir à escola e valorizar o que se passa do lado de cá. E não é só os pais, as organizações, empresas, o Estado, o Ministério. Todos percebemos que, sem a escola organizada, sem os rituais de trabalho dos meninos e dos pais, isto cai como um baralho de cartas, não há sistema que aguente, nem economia que resista aos miúdos em casa com os pais de novo a tomar conta deles.

Quanto aos currículos, também têm de ser adaptados. Dou este exemplo: os testes são importantes, mas não resolvem os problemas das consolidações para problemas práticos e de literacia da vida. E ainda hoje uma menina me perguntava como preencher uma simples alínea do registo biográfico. E porquê? Nós ainda não temos na escola cadeiras para preparar os alunos para essa iliteracia. Se me disserem assim “não há testes de avaliação”, pois há muitas outras ferramentas para avaliar, trabalhos de grupo, de pesquisa, ensaios filosóficos, apresentações orais, que são fundamentais… Dá mais trabalho, mas avalia-se. Podemos fazer testes online. Há muitas outras ferramentas. Eu estou a caminho dos 53 anos. Espero ainda adaptar-me a muitas outras circunstâncias. Agora, espero é que a escola – e isto é um fator muito importante para os ministérios – se renove, pois o corpo docente está a envelhecer rapidamente, a gente cansa-se, dorme pior, não temos tanta capacidade física. Os novos têm de entrar e, se não houver gente a entrar para o ensino, há o risco de isto se perpetuar.

Como é que a filosofia e o pensamento crítico nos pode ajudar enquanto cidadãos, nomeadamente em relação à nossa saúde?

Não é só a filosofia que desenvolve o pensamento crítico. Se qualquer uma das disciplinas não desenvolver pensamento crítico, não estamos a formar ninguém. Todos os currículos e todas as disciplinas que os alunos têm passam pela problematização. Aliás, um dos comentários do senso comum é quando muitos pais olham para os exames. Nem qualquer um resolve o exame, pois os exames pedem conteúdos, mas também pedem as tais competências, e essas competências iniciam-se pela problematização. Saber o que é que a pergunta pede. Uma questão filosófica não é uma questão prática. Temos de encontrar soluções e as soluções não podem ser iguais para todos. Contudo, os conteúdos servem para nos ajudar a resolver problemas.

O paradigma da escola como a que tínhamos do séc. XIX tem de acabar. Como é que um jovem vai ler um exame? Primeiro, anular o medo e a insegurança e anular o fator surpresa. Isto quer dizer que todos temos de estar capacitados com os mesmos conhecimentos, ferramentas e treinados durante todo o ano para mobilizar conhecimentos para o tipo de questões que vão sair no exame. O argumento científico é fundamental, é prioritário, mas cabe sobre esse argumento haver uma justificação. Hoje em dia, toda a gente acha que sabe e esse é o primeiro passo para não se saber nada. Depois, além de achar que sabe, argumenta como quê? Com aquilo que acha que sabe. Toda a gente opina, toda a gente tem ideias sobre o assunto, mas não tem nada consolidado. Problematizar é fundamental para construir o saber.

Ninguém se preocupa com a cidadania se tiver consciência de que esta é uma formação basilar para todos. Muitos pais preocupam-se porque não se revêm nas pessoas que lecionam essa disciplina com competências científicas para a fazer. E como se resolve, na minha perspetiva? Com ciência, para a saúde, para a política, para o direito. Nós, quando falamos de ciência, estamos mais seguros.

O papel do erro é fundamental. Temos de saber lidar com ele. Eu sei que os alunos são bem sucedidos se têm 20 a matemática. Mas isso chega para a sua vida? Por exemplo, se estiver perdido no Alentejo, serve o vinte a matemática? Tudo isto tem de ser contextualizado. Temos de aceitar o erro e admiti-lo. A sociedade não aceita que as pessoas errem, não aceita as pessoas com insucesso, não aceita pessoas que entrem em contradição. Ora, o problema é esse: ninguém é perfeito e os meninos têm de errar para aprender. Quem nunca errou que atire a primeira pedra.

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