por | 9 Nov, 2020 | Região, Saúde, Sociedade

A visão médica e política sobre a pandemia

Sandra Silva é médica dentista e vereadora pelo PSD no Município de Lousada. Conheça a sua visão sobre os momentos difíceis que estamos a viver.

Lousada volta de novo a ser um dos epicentros desta pandemia, neste caso na segunda vaga. O que é que falhou para isso voltar a acontecer?

Na minha opinião falhou acima de tudo a prevenção, a coordenação e ações concertadas entre as entidades com responsabilidades no controlo da epidemia no concelho, nomeadamente o Município e ACES III – Vale do Sousa Norte e, simultaneamente o não cumprimento das medidas de prevenção ao Covid-19, como o distanciamento social, o uso de máscara, a desinfeção das mãos por algumas pessoas.

É difícil combatermos um inimigo invisível e, ao fim de algum tempo surge nas pessoas, o cansaço, o relaxamento e o abandono do uso das medidas preventivas. Neste caso, é fundamental o reforço da motivação e da sensibilização nas pessoas para que as medidas preventivas não serem descuradas.

Contudo, tenho em mim, que esta segunda vaga se deve maioritariamente a uma ausência de resposta na primeira linha do SNS, isto é, na inoperância das USF ( ex: sem resposta para marcações de consultas, atendimento telefónico), na falta de testagem rápida dos casos suspeitos, na informação muita vezes contraditória entre as várias entidades envolvidas, o pouco controlo sobre as pessoas que deveriam respeitar a quarentena e que não a cumprem, na dificuldade das pessoas Covid-19 positivas no acesso de imediato à Certificação de Isolamento Profilático – Identificação de trabalhadores/alunos em situação de isolamento para entregar à entidade patronal e, no atraso verificado nos apoios por parte da segurança social aos cidadãos que ficam inibidos de desempenhar o seu trabalho, que leva a muitos deles preferirem não testar apesar de eventuais suspeitas da doença.

Todas estas situações elencadas resultaram num descontrolo das cadeias de transmissão. O PSD Lousada mostrou-se muito crítico em relação à forma como o executivo socialista está a lidar com a pandemia. Quais são as principais razões dessas críticas?

Lousada é atualmente, com base no Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica, o segundo concelho do país com mais casos Covid por 100.000 habitantes. Sou de opinião que a situação exige uma estratégia centrada nas pessoas, em constante adaptação à evolução pandémica, que vise a preservação de vidas humanas, a proteção dos mais vulneráveis e a adequação de comportamentos e atitudes.

Penso que é fundamental acompanhar a evolução epidemiológica e dar resposta às necessidades da população do concelho, privilegiando a prontidão na resposta dos atores locais e a criação de mecanismos de resposta comunitária, sem considerar que “…é um esbanjar de recursos…” ou invocar a Lei da Proteção de Dados, como responde o Sr Presidente Pedro Machado, nas reuniões de câmara, para justificar a inoperância do executivo camarário, nesta matéria.

E, agora e só agora, perante esta situação de contingência, causada por este surto grave no Concelho, parece que esta última escusa já pode ser ultrapassada.

Urge, conforme vai acontecendo nos concelhos vizinhos, aumentar a capacidade de testagem diária, aquisição de testes de diagnóstico rápidos para apoio aos grupos de risco e à comunidade escolar. Tem de haver um reforço permanente dos equipamentos de proteção individual às Instituições do concelho, nomeadamente Bombeiros, Forças de Proteção, IPSS, Escolas, etc.

O PS Lousada considera que o PSD Lousada está a utilizar a pandemia como mero aproveitamento político, considerando que é a “prova de vida” do partido no concelho de Lousada. Como comenta estas considerações?


Qualquer que seja o assunto que o PSD Lousada ache relevante dar conhecimento aos Lousadenses, é recorrente o PS Lousada argumentar que se trata de aproveitamento político.

Uma das medidas do PSD Lousada é a realização de testes sorológicos à população. O executivo socialista considera que as autoridades de saúde colocam em causa a eficácia dessa medida. Como é que O PSD sustenta a sua posição?

O conhecimento da comunidade científica acerca da pandemia e a sua abordagem tem vindo a evoluir ao longo do tempo. Continuamos convencidos que a nossa proposta de testagem sorológica da população sempre foi válida, como uma medida preventiva e de controlo das cadeias de contágio, como aliás se veio a confirmar recentemente pelas posições tomadas quer pela OMS quer pela DGS.

Na passada segunda-feira, dia 2 de Novembro, Graça Freitas anunciou que a Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou uma Norma com a Estratégia Nacional de Testes para SARS-CoV-2, que contempla a utilização de testes rápidos, com entrada em vigor no dia 9 de Novembro. Segundo Graça Freitas e passo a citar: “…Desta forma, garante-se que “todos os intervenientes no processo – que são muitos e complexos – têm tempo de se ajustar às mudanças. Reduzir e controlar ainda mais a transmissão da doença e prevenir e mitigar o impacto da doença no sistema de saúde, nos seus serviços e nas populações mais vulneráveis”.

“Podem ainda usar-se estes testes numa terceira situação, que é o rastreio periódico de profissionais de saúde em contexto de maior risco de exposição”, acrescentou. Estes testes devem ser usados em pessoas sintomáticas nos primeiros cinco dias de sintomas e em pessoas sem sintomas, mas em situações concretas como surtos.

Neste momento, sublinhou, existem indicações internacionais que indicam “que é seguro utilizar testes rápidos de antigénio, sobretudo nos casos positivos” para sintomatologia e nos primeiros cinco dia de sintomas.

Segundo o jornal Público de 13 de Outubro de 2020, “…Os países que se esforçam por conter uma segunda vaga de covid-19 estão a recorrer a testes mais rápidos, mais baratos mas menos precisos para evitar os atrasos e a escassez que têm atormentado os esforços para diagnosticar e localizar rapidamente os infectados.”…

Resta apenas acrescentar, que por muito que tente, não consigo compreender certas atitudes tomadas pelo Sr. Presidente Pedro Machado e pelo seu executivo, preferindo correr sempre atrás do prejuízo, sem terem a humildade de acarinhar ideias e propostas válidas, independentemente da cor partidária de quem as está a sugerir.

O PS Lousada refere que algumas medidas sugeridas pelo PSD foram até implementadas. É verdade? Quais?

O Vereador do PSD Simão Ribeiro já especificou algumas medidas no último comunicado da concelhia do PDS Lousada, no entanto, algumas dessas medidas sugeridas pelo PSD que até foram implementadas não as foram na integra.

Vou dar como exemplo a medida de reduzir em 50% o preço da água, do saneamento e dos resíduos sólidos urbanos (taxa do lixo), enquanto estão em vigência as medidas de contingência para o Covid 19 ou a distribuição de máscaras e luvas pelos Serviços Municipais, Juntas de Freguesia, Instituições Particulares de Solidariedade Social e comerciantes, em quantidades suficientes para não haver rotura, no apoio às medidas de contingência.

Acusam o presidente da autarquia de não ser proativo. Quais são as principais evidências para esta acusação?

É verdade que o Município de Lousada, tem vindo a implementar algumas medidas no sentido de ajudar as famílias nesta fase pandémica mas, no que diz respeito à área da Saúde, onde é fundamental garantir que todos os Lousadenses tenham acesso aos cuidados de saúde, o Executivo Camarário, presidido pelo Dr Pedro Machado, podia e devia ter feito muito mais.

Em Março último, fomos todos apanhados de surpresa por esta pandemia, provocada pelo coronavírus Covid-19, totalmente desconhecido, contudo, tivemos os meses seguintes para nos prepararmos, para coordenarmos ações, gerirmos recursos, com vista a enfrentarmos uma segunda vaga.

Nas várias reuniões de Câmara, fomos alertando o Sr Presidente Pedro Machado, como entidade máxima da proteção civil do concelho, das constantes queixas dos utentes pela desorganização, falta de planeamento e da necessidade urgente de uma ação concertada, entre o município e o diretor executivo do ACES III – Vale do Sousa Norte, Dr Hugo Lopes, de forma a garantir o acesso aos cuidados de saúde de todos os Lousadenses.

Alertamos também, para a necessidade de serem tomadas medidas de prevenção e combate à pandemia da COVID-19, em resultado do aumento do número de casos de infeção, como por exemplo testes sorológicos, estudos epidemiológicos e testar a imunidade de grupo no concelho. No que diz respeito ao combate à pandemia do Covid-19, era notório a existência de graves constrangimentos, de inoperância e de descoordenação nas áreas da prevenção, testagem, informação/recomendação prestada aos utentes, justificação de faltas e contenção da propagação.

Na ata da reunião de câmara do dia 14 de setembro de 2020 podemos ler: “… Neste novo cenário da pandemia, é, na minha opinião e na dos meus colegas vereadores do PSD, urgente reforçar as medidas de prevenção, tais como a utilização de máscaras em via pública, serem respeitadas as lotações máximas dos interiores do comércio local, esplanadas e distanciamento social. Urge também um maior controlo e aplicação de medidas coercivas pelas entidades competentes…”

Mais uma vez o PSD, propunha como medida preventiva a sensibilização para o uso de máscara na via pública, antes da sua obrigatoriedade. Mais uma vez as propostas tiveram “ouvidos de mercador”.

Foi tudo mal feito, ou existe um lado positivo nesta governação socialista?

Mas é claro que existe um lado positivo nesta governação socialista, eu e os meus colegas vereadores dos PSD parabenizamos o Dr. Pedro Machado e o executivo socialista, pela resposta célere na primeira vaga de Covid-19.

Reconhecemos que foram implementadas algumas medidas para a proteção das famílias e das empresas, como por exemplo: a isenção de taxas municipais, prorrogação do prazo de pagamento das faturas emitidas pela Câmara e suspensão dos cortes de água, a isenção da tarifa de disponibilidade de resíduos, abastecimento de água e águas residuais aos estabelecimentos encerrados, aplicação do tarifário de Famílias Numerosas aos consumidores domésticos (água e saneamento) e comparticipação de testes diagnósticos a instituições.

Contudo e, em abono da verdade estas medidas já tinham sido propostas pelos Vereadores do PSD e com muito mais abrangência. Por exemplo, no caso da comparticipação de testes diagnósticos a instituições, quem lê as declarações do Dr Pedro Machado, pensa que foram feitos imensos testes e que a autarquia Lousadense gastou muito dinheiro na testagem.

Questionei em várias reuniões de Câmara qual esse número e só quando solicitei o registo do número de testes oferecidos pelo Município às Instituições, obtive a resposta: …” valor total gasto foram de seis mil e tal euros, porque só pagamos os primeiros testes. Entretanto, o serviço nacional de saúde assumiu e prescreveu os testes necessários…” ( ata de reunião de câmara do dia 28 de setembro de 2020).

Posteriormente, o Sr. Vereador Nelson Oliveira, fez o seguinte esclarecimento: …”informo que o Município procedeu ao pagamento de 66 testes (SCML) tal como havíamos informado (6.600€).

Posto isto, todas as posteriores necessidades das mais diversas instituições/ cidadãos, têm sido assumidas prontamente pelo SNS no Centro de Testes instalado no Complexo Desportivo.” Verificamos assim, que muitas medidas implementadas pelo executivo socialista ficam muito aquém do expectável e desejável.

A população queixa-se no atendimento nos centros de saúde. O que acha que está a falhar?


O funcionamento e as marcações de consultas tem estado caóticas, com os utentes a queixarem-se constantemente que ninguém, nas Unidades de Saúde Familiares, atendem os telefones. Constatou-se que existe uma grande sobrecarga de serviço nos assistentes operacionais, nos médicos de Clínica Geral e Familiar e nos enfermeiros, que tinha de ser rapidamente resolvida, de forma a garantir uma resposta clínica aos Lousadenses, principalmente para aqueles utentes com patologias crónicas, com necessidades de rastreios e exames complementares de diagnóstico, de prescrição de medicação, cuidados de enfermagem etc.

Qual é o balanço que faz sobre a abertura das escolas com aulas presenciais. Os agrupamentos escolares fizeram um grande esforço para reiniciarem as aulas presenciais, implementando um conjunto de novas regras de segurança e higiene sanitária, definidas pela Direção-Geral da Saúde (DGS) e pelo Ministério da Educação, para minimizar os riscos de contágio e, na minha opinião tem sido positivo.

Acho de extrema importância a testagem rápida dos casos sintomáticos e dos seus contatos na comunidade educativa e possibilitando assim o isolamento profilático célere. A escola presencial é uma ferramenta imprescindível nas relações interpessoais dos alunos.

Ao nível da educação no concelho, preconizamos na última reunião de câmara, um aumento do valor das bolsas de estudo para beneficiar um maior número de alunos do ensino superior, ajudando as famílias do concelho nos seus encargos financeiros.

Esta segunda vaga pode criar mais restrições, refletindo-se no tecido económico e social do concelho. Que medidas deveriam ser tomadas para atenuar o impacto negativo desta segunda vaga?

Não existe uma solução ou soluções mágicas, mas a atuação preventiva, as ações coordenadas entre as várias entidades do concelho e a testagem rápida da população sintomática, são fundamentais para o controlo das cadeias de contágio e eventuais surtos e, assim minimizar o impacto na economia local.

A economia do concelho não aguentará um novo confinamento total e, como é obvio, num concelho com um grande tecido empresarial no sector têxtil, qualquer impacto acaba por se refletir no tipo de respostas sociais que terão de ser implementadas.

Dever-se-ia fazer, de imediato, um estudo epidemiológico à população Lousadense, no sentido de se apurar qual a imunidade de grupo existente de forma a criar, se necessário, uma estratégia de entreajuda entre as empresas têxteis, de forma a garantir o funcionamento destas unidades, quando tiverem baixas significativas de funcionárias, devido à obrigatoriedade de quarentena. Dever-se-ia, a meu ver, criar mais apoios e incentivos ao comércio local, uma vez que é uma forma de subsistência para muitos Lousadenses.

Podemos estimular a criação de um mercado de Natal, que contribuísse para a dinamização do comércio, redução do desperdício alimentar, através da canalização de produtos frescos excedentes dos mercados municipais para as IPSS e famílias com necessidades identificadas.

Temos de investir na dinamização de ações de sensibilização atrativas e dirigidas principalmente à faixa etária mais jovem, visto que o maior número de casos se situam entre os 20 e os 59 anos de idade.

Temos também de ter em consideração que o número de casos positivos é maior nas mulheres e, Lousada é um concelho com muita indústria têxtil, onde a empregabilidade neste sector é maior no sexo feminino.

Deixe uma mensagem final….

Existe vida para além do coronavírus COVID-19, e este só desaparecerá das nossas vidas quando surgir uma vacina ou um tratamento eficaz. Temos de aprender a viver com esta nova condicionante: COVID – 19. A maioria das pessoas infetadas pelo Covid -19, apresenta a doença com sintomas leves e felizmente recupera facilmente, outros até são assintomáticos mas, pode ser mais grave para outras pessoas, ao ponto de necessitarem de tratamento hospitalar.

Temos de nos proteger e proteger quem nos está próximo, respeitando as indicações da Organização Mundial da Saúde e a Direção-Geral de Saúde, que recomendam o uso de máscara, medidas de higiene e etiqueta respiratória para reduzir a exposição e transmissão da doença.

Um estado nutricional e de hidratação adequados são fundamentais para uma otimização do nosso sistema imunitário. Assim, recomenda-se a prática de uma alimentação saudável, de acordo com as orientações presentes na Roda dos Alimentos, o consumo de alimentos ricos em vitamina C, bem como o exercício físico ou passeios ao ar livre, indispensáveis à nossa saúde mental.

Se não conseguirmos controlar a propagação deste coronavírus, vamos ter novas vagas e novas curvas de infeção na população. Se todos nós contribuirmos para o achatamento dessa curva de infeção, reduzimos para o mesmo intervalo de tempo, o número de casos, de internamentos e de mortes, aliviando a pressão sobre o sistema de saúde e ganhando tempo até termos a tão esperada vacina ou um tratamento eficaz.

Sejamos responsáveis. Saber cuidar da nossa saúde é também saber proteger a dos outros.

3 Comments

  1. Alex

    Gostei bastante do seu blog. Legal o conteudo. Parabéns
    :)

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  2. Curso Terapia Capilar

    Aqui é a Fernanda Lima , gostei muito do seu artigo tem
    muito conteúdo de valor parabéns nota 10 gostei muito.

    Reply
  3. Unhas De Manicure

    Sou a Eduarda Ferreira, gostei muito do seu artigo tem
    muito conteúdo de valor, parabéns nota 10.

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