Por Pedro Magalhães
O recente arranjo no parlamento dos Açores para viabilização de um governo regional de direita avivou as memórias sobre a congeminação de esquerda que o partido socialista encabeçou após as eleições legislativas de 2015.
Na altura, alguns de esquerda e a maioria da direita insurgiram-se contra a solução encontrada e, por isso, denominaram-na, pejorativamente, geringonça.
Na altura, concordei plenamente com a solução encontrada… Diriam alguns que a minha concordância derivou do facto de ser militante do partido socialista. De facto, sou socialista, mas não foi daí que veio o meu consentimento.
Efetivamente, continuo a concordar com os entendimentos parlamentares, sejam eles formados à esquerda ou à direita… Acho legítimo que, à luz de um acordo parlamentar, se formem governos estáveis, sejam eles de âmbito nacional ou regional.
Os opositores desta solução são-no porque, de facto, esta não é a tradição democrática do pós 25 de Abril em Portugal. Contudo, todos os costumes, por mais antigos que sejam, foram novos em algum momento da História.
E na altura em que surgiram, por terem colocado em causa a tradição, causaram renitência e despertaram crítica e oposição. A geringonça é a nova tradição democrática.
Apesar de ter preferido uma geringonça de esquerda (por razões óbvias), a geringonça de direita alinhavada para os Açores não me desperta qualquer tipo de obstáculo, à exceção do envolvimento do Chega independentemente da parcela que lhe diz respeito… Diga o que se disser, os seus princípios e a sua natureza são contrários a uma plena democracia… Esta, pela sua matriz de tolerância e de pluralidade de ideias, está a ser aproveitada como veículo de boleia para o crescimento dos «cheganos», infelizmente.
No enredo insular, em meu entender, o PSD pisou uma linha de entendimento perigosa. Não se limitou simplesmente a encostar-se à ala mais à direita da direita portuguesa… Abeirou-se do extremismo!
Espero que o PSD não faça deste encosto uma tradição! Creio que não o fará… A razão está no próprio crescimento dos extremismos! Daqui a uns tempos não se falará de geringonça de direita ou de geringonça de esquerda. Com o avanço dos partidos extremistas, falaremos de uma geringonça ao centro.
De facto, a literatura sobre as eleições e os seus vencedores está muito concentrada nas maiorias alcançadas, quer sejam de esquerda quer sejam de direita. E é com base nestas maiorias que se têm fundamentado as legitimidades para a formação de governos de base parlamentar.
Contudo, será que os portugueses andam a votar cegamente ou à esquerda ou à direita, ignorando a moderação e o radicalismo dos partidos de cada uma das alas? Se interpretarmos os atos eleitorais noutra perspetiva, constatamos que os portugueses, desde do 25 de Abril, têm votado tendencialmente ao centro…
Por isso, à exceção das maiorias unipartidárias alcançadas, parece que os portugueses andam há muito a dizer que querem um novo tipo de geringonça, uma que não passe ou só pela esquerda ou só pela direita…
Apesar deste difícil reconhecimento político, os resultados eleitorais assim o indicam! E tendo em conta o avanço dos extremismos, é expectável que isso possa acontecer num futuro próximo, possivelmente como forma de os combater!












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