Jorge Simão: apaixonado pelas corridas

Nascido no dia de São Simão, Jorge Simão de Sousa Teixeira deve ao dia de nascimento o seu nome. Em 1962, Casais foi a terra que o viu nascer, mas foi em Cristelos que acabou por fazer a sua vida, a partir dos 16 anos. Autarca, presidente do Clube Automóvel de Lousada, empresário e membro da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada são as experiências que marcam o seu percurso social. 

Teimoso, inovador e crente naquilo que deseja podem descrever Jorge Simão, que não aprecia falar de si próprio. Depois de uma infância difícil, com raízes humildes, começou a trabalhar aos 12 anos, após terminar o atual 6.º ano. Lutador, acredita que foi isso que o levou a atingir os seus objetivos e a realizar tudo aquilo a que se propõe. 

“Sempre acreditei que se queremos ser, vamos ser. Dê o trabalho que der. Acho que isso me ajudou. Quando digo que quero e acredito naquilo que quero, vou à luta e sou teimoso comigo mesmo, quase que coloco etapas na minha vida e tenho de conseguir cumprir. Em termos pessoais, tento ser o melhor ser humano possível”, conta. 

Jorge Simão, como é popularmente conhecido, nasceu em Casais, onde concluiu o ensino primário e frequentou a catequese. “Conclui o 6.º ano e fui trabalhar. Sou de uma família humilde e não havia possibilidades para mais nada. Já o meu irmão mais velho concluiu o 6.º ano, porque o meu pai entendia que era importante”, refere. 

Depois de concluído o ensino, o seu primeiro emprego foi na agricultura, aos 12 anos. Mais tarde, foi trabalhar nos automóveis, onde a paixão pelos carros se assinalou cada vez mais, garante: “já gostava, porque as nossas brincadeiras em miúdos eram os carrinhos em madeiras. Sempre disse ao meu pai que se conseguisse arranjar trabalho numa oficina de automóveis que gostava muito, e tive essa sorte”. 

“O nosso trabalho torna-se muito mais fácil quando fazemos aquilo que gostamos.” 

“O nosso trabalho torna-se muito mais fácil quando fazemos aquilo que gostamos. É diferente eu ir para um trabalho em que me levanto todos os dias e vou contrariado e ir para o trabalho bem-disposto, porque vou fazer o que gosto. Quando fui trabalhar, ainda havia quem fosse para este ramo como aprendiz e pagava para aprender. Eu não tive esse azar, fui trabalhar e ganhei logo um salário no primeiro mês de trabalho, pequenino, mas ganhei”, lembra. 

A sua perspetiva de vida sempre foi ter o seu próprio negócio e, por isso, aos 24 anos começou a trabalhar por conta própria. “Comecei num espaço pequeno, em casa, onde cabiam cerca de quatro viaturas, não cabiam mais. Depois, aumentei o espaço para caber umas 10 viaturas e depois é que surgiu este investimento (Auto Cristelos). Trabalhei em casa nove anos e, ao fim desse tempo, entendi que devia fazer um pavilhão de raiz. De 1986 a 1994, trabalhei como empresário individual. Em 1994, criei esta empresa, esta sociedade e, em 2004, mudei-me para estas instalações”, recorda. 

Arriscou tudo o que tinha para conseguir concretizar o seu sonho, mas a sua teimosia e força de vontade superaram qualquer medo. “Mas também foi um risco mais ou menos calculado, mas temos sempre medo. Temos agora o exemplo de que quando tudo estava a correr muito bem, surge a covid-19. E isso abanou qualquer estrutura. Os automóveis não andavam na rua e não tinha os serviços que eram necessários para manter o trabalho”, lamenta. 

A paixão pelas corridas 

No mundo das corridas, Jorge Simão começou por dar apenas assistência técnica a alguns pilotos lousadenses, em 1996. Em 1998, surge a oportunidade de fazer a corrida “6 horas de Rallycross ‘Paulo Sérgio’” e, assim, comprou o primeiro carro e começou a participar nas provas. 

“Em 1999, fiz quase o campeonato todo. No ano seguinte, preparei uma viatura de raiz, fiz o campeonato todo e fui campeão nacional. No primeiro ano participei com uma viatura inferior, ganhei alguma experiência, e depois entendi que devia preparar uma viatura mais capaz. No ano de estreia, fui logo campeão”, orgulha-se. 

“A minha maneira de estar nas corridas valeu-me o campeonato.”

Para Jorge Simão, “não fui campeão por ser o melhor nem por ter o melhor carro, mas por ser mais regular. A minha maneira de estar nas corridas valeu-me o campeonato. Se a corrida começava às nove, eu às oito horas já tinha o carro pronto. Com a viatura inferior às que lá estavam, consegui ser campeão. Em tudo o que fazemos, mesmo como amadores, devemos aplicar tudo o que sabemos”. 

“Todos sabemos como se faz, podemos é ser mais capazes ou menos capazes. As coisas ficam piores se não formos com vontade. Comigo, tudo na vida tem este sentido. Se não estivermos lá para fazer, não vamos”, afirma. 

E nada melhor que ser campeão em Lousada: “consegui o campeonato em Lousada, porque estávamos a disputar o primeiro lugar com uma diferença de um ponto ou dois. Houve muitos amigos que me deram os parabéns e ficaram realmente felizes e pessoas que me ajudaram também a chegar lá. Houve muitas pessoas que me deram boas indicações, porque há muitas pessoas nas corridas que dão as indicações erradas para perdermos, mas também há pessoas muito honestas, nessas que acreditei”, refere. 

“Ser campeão em Lousada tem outro sabor. Depois fiz algumas corridas, mas não levava aquilo a sério já. Ia para ter a emoção das corridas. Quando fiz este investimento tive mesmo de parar”, lamenta. Depois de uma pausa de cerca de 10 anos, Jorge Simão sonha regressar às pistas. 

O amor pelo CAL 

Mas o seu amor pelos carros não se fica pelas pistas. Com o Clube Automóvel de Lousada (CAL) parado, Jorge Simão decide retomar as atividades e não deixar morrer uma associação “tão importante” para o desporto automóvel do concelho. Assim, foi presidente da associação durante 10 anos, entre 2009 e 2019. 

“Nem foi iniciativa minha, foi um amigo que me incentivou. Nessa altura, entendi que tinha essa obrigação, porque era Presidente da Junta de Freguesia de Cristelos e custava-me imenso saber que aquilo pertencia à nossa freguesia e estava fechado. Sempre colaborei com o clube, apesar de não fazer parte de direção nenhuma, mas o falecido Jaime Moura, sempre que precisava de mim, ligava-me e eu lá estava naquilo que era preciso”, lembra.

Primeiro carro de Jorge Simão

“Senti que ia ser uma grande perda, e uma perda irreparável. Se naquela hora ninguém agarrava o clube, desaparecia tudo.”

E, como qualquer apaixonado pelo desporto automóvel, “senti que ia ser uma grande perda, e uma perda irreparável. Se naquela hora ninguém agarrava o clube, desaparecia tudo. Senti que tinha essa responsabilidade. Tínhamos ideia de que poderíamos encontrar uma situação muito difícil, ninguém pensou é que ela fosse tão difícil. Tentamos salvar aquilo como podíamos, e em boa hora, porque o clube está aí, está a trabalhar e isso é muito bom para Lousada”, testemunha. 

Pelo caminho, foram muitas as dificuldades e obstáculos: “estava tudo caducado. Não tinha água, luz, internet. O clube é um associado da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting e tinha as quotas todas por pagar. Havia, ainda, uma série de contas para pagar e as licenças dos comissários desportivos que envolve sensivelmente 50 pessoas a trabalhar para o clube. Todas essas pessoas precisam de uma licença, mas estava tudo caducado. A partir daí foram-se licenciando os trabalhadores aos poucos”. 

Aos poucos, foram conseguindo que as corridas voltassem a ser uma realidade no concelho, depois da paragem forçada. “O clube começou a crescer e, quando em 2014, surgiu a oportunidade de fazer cá o Rally de Portugal, foi aí que o clube ficou novamente nas bocas do mundo”, recorda. 

“Depois de ter estado uns tempos no sul do país, quando surgiu a oportunidade de regressar foi muito bom para tudo, para o concelho e para o clube. Quem gosta de automóveis não falava de outra coisa. Até termos o contrato pronto, foram dois meses de ansiedade. Depois do contrato assinado, era a expectativa do dia do Rally”, revela. 

Segunda viatura onde Jorge Simão correu

Jorge Simão confessa que, naquela semana, não ia à oficina: “tirava a semana inteira para ir trabalhar para lá [para o Rally]. Há muita coisa que tem de ser feita. Andamos uma semana com aquela confusão que ninguém pára para pensar no que vai acontecer. Sabemos que temos de fazer aquilo, estamos determinados em deixar a pista segura e bonita, dar-lhe uma boa imagem para quem estiver a ver. Só ao outro dia é que caímos na realidade”. 

As marcas deixadas na política local 

A entrada na política aconteceu em 1997, quando foi convidado para pertencer a uma lista candidata à Junta de Freguesia de Cristelos. Apesar de essa lista ter perdido, manteve-se na Assembleia de Freguesia. Quatro anos depois, foi convidado a pensar e formar a sua própria lista candidata, que acabou por ganhar as eleições, em 2001. Foi Presidente de Junta durante três mandatos, até 2013. 

“Pensei: isto vai até ao dia das eleições, chega-se ao dia das eleições eu perco e depois acaba-se a chatice. O problema foi até chegar ao dia das eleições. Começou-se a avizinhar a campanha, comecei a ouvir algumas coisas que não gostei tanto e aí já não estava ‘eu vou por ir’, disse: ‘eu vou, mas vou ganhar’, tive de dizer isso a muita gente”, confirma. 

A sua certeza viria a confirmar-se no dia das eleições: tinha sido eleito para Presidente de Junta, experiência que lhe proporcionou diversas aprendizagens. “Não gosto da política, estive lá, aprendi muito, não dou como perdido o tempo que lá estive, pelo contrário. Aprendi muito, lidei com muitas situações e muita gente que nos dão outro sentido em algumas coisas na vida, mas não é uma paixão como eram os automóveis. Aconteceu, enquanto estive quis fazer bem, mas não é das coisas que mais gosto”, revela. 

Numa freguesia que não era a sua, embora fizesse a sua vida em Cristelos, acabou por deixar algumas marcas que ainda hoje recorda: “fez-se um trabalho na Junta que toda a gente entendia que devia ser feito, mas nunca tinham chegado. Houve duas ou três coisas que se fizeram na altura que deixaram uma marca que daqui por 30 anos ainda tenho essa marca aí, ninguém me tira”. 

“A primeira coisa foi o transporte escolar, foi a primeira Junta a ter a freguesia toda coberta por transporte escolar. Entendemos que devíamos cobrir a freguesia toda e conseguimos.” 

“A primeira coisa foi o transporte escolar, foi a primeira Junta a ter a freguesia toda coberta por transporte escolar. Quando cheguei à Junta não tinha carrinha, não tinha nada. Entendemos que devíamos cobrir a freguesia toda e conseguimos. Quando saí, deixei três carrinhas a circular a fazer cobertura à freguesia toda, inclusive buscar crianças a freguesias vizinhas que por uma razão ou outra os pais queriam que estivessem na escola de Cristelos”, afirma. 

A construção da Capela Mortuária e o Parque da Capela da Senhora da Conceição são duas das marcas que também se orgulha em ter construído e melhorado. “Muitas coisas se fizeram, mas estes são aqueles três projetos que entendia que me devia debater e levar aquilo para a frente”, reflete. 

Houve um projeto que, com alguma insatisfação, teve de deixar por fazer: “a sede da Junta de Freguesia, arranquei com as obras, mas, devido a um embargo, deixei aquilo por acabar. Deixou-me muita pena. Quando saí da Junta de Freguesia, a obra ainda ficou embargada”, lamenta. 

A passagem pelos Bombeiros 

Foram diversas as associações a que esteve ligado, como o Cristelos Sport Clube e a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada, onde começou por ser diretor legível. Mais tarde, “houve um problema com a direção e fui convidado pelo presidente atual para integrar uma lista para concluir aquele mandato. Fui como vice-presidente para essa direção, mantendo-me até hoje”, afirma. 

Depois de terminar este mandato, pretende fazer uma pausa no mundo associativo. “Todos temos a obrigação de dar um bocadinho de nós neste serviço social, mas tudo tem o seu tempo, já tenho um neto e preciso de tempo para mim e para voltar às corridas”, explica. 

“Todos temos a obrigação de dar um bocadinho de nós neste serviço social, mas tudo tem o seu tempo.”

“Esta foi uma experiência diferente. Os Bombeiros são uma associação de muita responsabilidade e de muito trabalho. Os Bombeiros têm de ter um acompanhamento diário e é preciso ter muita disponibilidade para aquilo. Se não fosse o presidente que lá está, eu não conseguia ser vice-presidente, porque o presidente é uma pessoa que tem algum tempo, e se não tem arranja, para fazer o acompanhamento necessário dos Bombeiros. Isso facilita outras pessoas que estão com ele”, conta. 

Para além disso, refere ainda, “é uma associação que lida com muita gente, não só Bombeiros assalariados, como Bombeiros Voluntários, como comando e muitas outras pessoas, onde há sempre um problema para resolver e é muito trabalhoso”. 

Questionado sobre qual foi a experiência social que mais marcou a sua vida, Jorge Simão não hesita: “o Clube Automóvel foi daquelas coisas que fiz mesmo com paixão. Fui porque quis, se não fosse o clube acabava. Gostei muito da experiência e espero que esta nova direção tenha muito sucesso, porque são pessoas empenhadas, jovens, que sabem aquilo que querem, acho que vão ter muito sucesso e vamos ter muito boas notícias deles. É, sem dúvida, o que fiz com mais gosto”. 

Por fazer, o empresário e piloto não deixa nada: “consegui sempre fazer mais ou menos o que pretendia”, termina.  

1 Comment

  1. Manuel Cristóvão Barbosa

    Muitos parabéns. Sem mecenas e sem voluntariado, o desenvolvimento desportivo, económico, social e cultural seria quase insignificante e o progresso das comunidades seria muito mais lento e a vida seria menos alegre e divertida.
    Todos nós deveríamos contribuir, mesmo que seja apenas com um pequeno contributo, mas sempre baseado nos valores da humanidade e de cidadania.

    Reply

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