É a notícia que ninguém quer dar. Sem guião e, na sua maioria, sem cura, o cancro vai invadindo o corpo de cada doente sem pedir autorização. Muda as pessoas, as suas perspetivas e vai, inevitavelmente, interferir em todos os setores da sua vida. A prevenção e o diagnóstico são as armas essenciais para combater esta guerra que não se combate, nunca, sozinho.
Natural de Freamunde, em Paços de Ferreira, Paula Gonçalves tem 53 anos e reside em Lousada há 25. Apesar de realizar regularmente as apalpações recomendadas, nunca sentiu dores ou qualquer tipo de relevo na zona mamária. Aos 47 anos, depois de ser aconselhada a fazer uma biópsia, Paula Gonçalves descobre que tem um cancro na mama.
“No meio de todo o azar, senti-me uma mulher sortuda por terem descoberto ainda no início. Apesar deste alívio, senti-me assustada e decidi recorrer a mais cinco médicos, para ter a certeza do que se estava a passar”, conta. Paula Gonçalves mostrou-se uma mulher forte desde o primeiro segundo. Ao receber a carta do resultado da primeira mamografia, não esperou até ao dia da sua consulta e abriu-a, descobrindo, assim, que tinha cancro na mama.
A entrada no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto aconteceu a 22 de janeiro de 2015, onde realizou diversos exames e, no mês seguinte, procedeu à primeira mastectomia parcial, um procedimento cirúrgico para a remoção de uma ou ambas as mamas, que pode ser parcial, quando apenas uma parte do tecido é removida, ou total, quando a mama é retirada por completo. Porém, foi alertada que após a operação teria de fazer radioterapia e que seria uma decisão incerta, “porque tudo podia mudar se a doença evoluísse”, explana.

Quando regressou ao IPO, desta vez para fazer o curativo, o médico avisou que não teria de fazer a quimioterapia, mas seria necessário voltar a ser operada e, por isso, fez um alargamento de margem, ou seja, retirar a quantidade de tecido mamário normal em torno do tumor.
O “balde de água fria”, como descreve, chegaria dias mais tarde. Paula estava preparada para começar a radioterapia, que teria a duração de 25 sessões, no entanto, ao refazer vários exames, inclusive a mamografia, recebeu a notícia que teria de “parar tudo” devido ao surgimento de mais um nódulo na mama.
Depois de realizada nova biópsia, para confirmar o que significava o nódulo, foi confrontada com o regresso do cancro. “Fui aconselhada pela médica a fazer uma nova biópsia, porque podia ser a carne a unir como pode ser algo mais grave”, afirma, recordando o dia que ficou marcado “pela negativa”, uma vez que teria de realizar uma mastectomia total.
Ainda que encarasse a doença com um espírito positivo, “houve noites que não conseguia dormir”, conta, acrescentando: “mas nunca chorei em frente às minhas filhas e dizia-lhes ‘se eu aguento, vocês também têm de aguentar’”.
Consciente de que o pós-operatório da mastectomia total seria “muito mau”, preferiu não receber a visita das filhas: “sentia-me muito mal, estava sempre a desmaiar e acabei por sofrer uma hemorragia. Naquele dia, se eu tivesse morrido, não sentia”, revela Paula Gonçalves.
“Naquele dia [pós operação], se eu tivesse morrido, não sentia.” – Paula Gonçalves
No entanto, contar a notícia à família foi a sua maior dificuldade, uma vez que poucos meses antes perdera o seu pai. Só depois de confirmada a doença é que contou aos seus familiares e amigos e, ainda assim, por telefone.
Ao descobrir que estava com cancro tentou saber mais sobre a doença. O seu marido ofereceu-lhe um livro que conta como é viver com cancro, mas que o melhor ensinamento, garante, “foi o que tive dentro do IPO, ao ouvir as histórias de vida das pessoas que estavam a passar pelo mesmo”.
Tentou sempre confortar pessoas que, ao longo dos seus tratamentos, ia encontrando, e procurar conforto nas histórias dos outros. Mas, nem sempre foi fácil. “Houve noites que tive medo de morrer, começando-me a cair as lágrimas e ter de virar a almofada ao contrário porque estava encharcada”, recorda.
Apesar dos momentos e das notícias que ia recebendo ao longo dos seus tratamentos, e dos pensamentos mais negativos, admitiu que encarar esta doença de forma positiva “é 99% para a cura”.
E o que parece um simples gesto de olhar ao espelho, para Paula foi muitas vezes doloroso. “A primeira vez que me olhei ao espelho caiu-me tudo, sentia-me diferente. Não conseguia olhar-me ao espelho, porque não me sentia bem comigo mesma. O que via não era meu, eu não era assim”, lembra. Hoje, aceita o seu corpo, mas deseja fazer uma cirurgia de aperfeiçoamento mamário. Já curada, continua com tratamentos e acompanhamentos para prevenir e vigiar.
Para as pessoas que estão a passar por isso, Paula deixa umas palavras de conforto: “o primeiro passo é a aceitação, encarar esta doença de forma positiva e acreditar que tudo vai ficar bem, para acabar bem. Acreditar nos médicos que estão lá para nos ajudar, porque eles são tão humanos”.
Sexo masculino tem maior percentagem de cancro
Em Portugal, cerca de 25% da população corre o risco de ter cancro até aos 75 anos, sendo que 10% podem ser fatais. Contudo, 30% a 50% podem ser prevenidos. A segunda causa de morte, no país, é o cancro e, a cada ano, a sua incidência tem vindo a aumentar cerca de 3%.
O cancro chega para provar que a vida pode ter outro horizonte e, se é difícil receber essa notícia, para quem a dá também o é. Os médicos oncologistas vivem as doenças dos seus pacientes com grande intensidade e, dentro das quatros paredes do consultório, acabam por se tornar uma família.
Para Hélder Bastos, Médico Pneumologista no Hospital de São João, Porto, onde integra as equipas de Doenças Pulmonares Difusas, Oncologia Pneumológica e de Broncologia de Intervenção Pleural, “uma notícia destas não é fácil de dar. Há casos em que o próprio doente já sabe, mas quer ouvir da nossa própria boca”.

E acrescenta, “a medicina tem isto de bom: nós conhecemos a biologia e percebemos como é que funciona o cancro e depois aplicamos estes conhecimentos à pessoa, com uma relação de humanismo”. Apesar de duas pessoas terem o mesmo cancro, nunca será igual, porque “cada pessoa é um caso, do ponto de vista do seu cancro, como do seu ser psicossocial”, explica.
“Viver o dia a dia e não pensar tanto onde a doença os pode levar.” – Hélder Bastos
No entanto, a maneira como o próprio doente encara esta doença, “ajuda bastante neste processo. Viver o dia a dia e não pensar tanto onde a doença os pode levar”, alerta. Identificar o cancro numa fase inicial é o “ideal”, refere, mas há alguns tipos de cancro que se torna difícil, como por exemplo, o cancro nos pulmões, porque “não se tem sintomas, ou raramente se tem. Quando se tem sintomas já é numa fase bastante avançada”.
Dependendo do tratamento que o doente está a fazer, é recomendável ter um estilo de vida saudável. “É importante terem alimentos ricos em ferro e nutritivos, para manterem uma vida razoável”, explica, referindo que assim conseguem acomodar o tratamento. O médico aconselha, ainda, a que cada doente “confie no trabalho dos médicos e, assim, confiar que vai correr bem”.
Se tem cancro:
Não se isole, o apoio que pode necessitar dos seus familiares e amigos é importante;
Procure apoio emocional e social;
Esclareça as dúvidas com o seu médico;
Procure um assistente social que poderá sugerir recursos sociais, como apoio financeiro, facilidades de transporte e cuidados ambulatórios;
Se sentir necessidade de partilhar informação e experiências sobre como lidar com a doença e tratamento, encontre um grupo de apoio.
Se está saudável, esteja atento ao que o seu corpo lhe diz:
Mama: Deve ser consultado um médico em caso de aparecimento de nódulos, alterações no tamanho, formato e pele da mama e perda de líquido no mamilo.
Cabeça e pescoço: Estes tumores são frequentes e o diagnóstico é muitas vezes tardio. Sintomas: alterações na voz, sangue na saliva, dor persistente ao engolir, caroço no pescoço.
Pulmão: Consulte um médico caso tenha tosse com sangue, falta de ar, dor torácica e pneumonias difíceis de curar.
Fígado: Alertas: dor na omoplata direita ou desconforto no lado direito do abdómen superior, icterícia, náuseas, perda de peso.
Rim: Representa 1,8% dos tumores malignos diagnosticados no país. Sintomas: sangue ao urinar, surgimento de uma massa na região lombar, anemia, perda de apetite e de peso.












Comentários