Nasceu em Pias, em 1952, mas a sua infância nem sempre foi fácil. Por isso, aos 10 anos, deu início à sua vida profissional, exercendo diversas profissões distintas. É curioso, gosta de aprender coisas novas e orgulha-se de ter deixado amigos por onde passou. José Silva foi Bombeiro Sapador e esteve ligado à Junta de Freguesia de Pias, durante 20 anos, sendo que 12 foram no cargo de presidente.
De sorriso fácil, não diz que não a uma conversa. Gosta de brincar, de alegrar os outros e de deixar a sua marca por onde passa, principalmente, amizades. A sua infância nem sempre foi fácil e garante que, naquela altura, “não havia infância propriamente dita”.
“Tínhamos uma infância que tinha de ser criada por nós próprios, ou seja, não havia um brinquedo, não havia entretenimento capaz de ocupar uma criança. Os brinquedos que tinha era eu que os fazia, tinha que inventar. A primeira vez que vi um rádio em minha casa tinha 19 anos”, conta José Silva.
“Os brinquedos que tinha era eu que os fazia, tinha que inventar.”
Aos 10 anos, completou a 4.ª classe e, passadas três semanas, ingressou no mercado de trabalho, embora não fosse permitido. Começou por ser tamanqueiro, depois, empregado de café, mais tarde foi ferreiro, entre outras profissões que foi exercendo ao longo da juventude. “Só era permitido a partir dos 14 anos, mas a necessidade era muita, os meus pais eram praticamente analfabetos”, lembra.
Com o pai pedreiro e a mãe doméstica, “havia muitas dificuldades”, refere, explicando que “o meu pai, durante o inverno, não trabalhava o mês inteiro e o dinheiro era insuficiente. Tínhamos alguma agricultura e animais em casa para ajudar”. É o mais novo dos três irmãos, mas recorda os esforços do pai para ajudar a família: “apesar de todas as dificuldades, nunca deixou que faltasse nada aos filhos”.

Aos 16 anos, vai para o Porto em busca de melhores condições de trabalho, juntamente com um amigo. “A única cidade que conhecia era Penafiel, nunca tinha ido ao Porto. Estivemos lá a trabalhar na construção civil até ir para a tropa”, recorda.
Vida militar
A ida para a tropa acontece aos 21 anos, quando é sinalizado para a Figueira da Foz. A mudança para a zona Centro foi “um bocado complicado”, mas, “quando me deram as guias de marcha fui andando e fui aprendendo, fui vendo o que os outros faziam e lá consegui cumprir a primeira fase”, revela.
Terminada a primeira fase, regressou ao Norte para tirar a especialidade no Regime de Infantaria 6 do Porto, na Senhora da Hora, em Matosinhos. “Fui motorista e comecei a ser mobilizado”, conta.

“O 25 de abril de 1974 aconteceu quando ainda estava no Regime de Infantaria 6 do Porto. Não participei integralmente, mas participei. O meu quartel era comandado por um ditador, enquanto outros quartéis já se tinham rendido, aquele não se rendia. Destituíram o general e acabaram por sair à rua”, lembra Silva.
Enquanto militar, esta foi uma nova fase da sua vida, mas que, acredita, “correu bem e ainda bem que assim foi”. Mais tarde, segue para Lisboa, onde “fiquei espantadíssimo como podia haver uma cidade com tantas casas”, brinca, e onde apanhou o avião rumo a Luanda.
“Para quem não tinha saído de Lousada, chegar a Luanda foi espantoso. Não era nada daquilo que diziam os nossos governantes.”
“Para quem não tinha saído de Lousada, chegar a Luanda foi espantoso. Não era nada daquilo que diziam os nossos governantes, íamos daqui com a ideia errada, que nos incutiam a morte aos negros, que são pessoas muito humildes. Tinha um clima bastante quente e eram mesmo muito humildes. Era um país rico em tudo: clima, flora, fauna e pessoas humildes”, confirma o ex-militar.
O regresso a Portugal Continental acontece 12 dias antes da Independência de Angola (11 de novembro de 1975). “Fiz o espólio em Lisboa, passei ao estado civil e deixei de ser militar.
De Angola, recorda o seu povo “humilde e com um olhar triste”. Revela que “tinham a sua cultura e não entendiam porque tinham de ser expulsos da sua terra. O angolano só tinha uma preocupação: respirar, não queriam mais nada, o restante a natureza dava-lhes”.
Acredita que a sua vida militar foi exemplar e sente-se “tranquilo e consciente de que fiz uma vida militar em prol do próximo”. José Silva afirma que “não conseguia compreender como tinha de matar uma pessoa pelo facto de ela pensar de uma forma diferente de mim. Pelo facto de ela exigir que a deixasse respirar”.
Atualmente, gostava de ter regressado e admite ter saudades do país, não descartando a oportunidade de regressar um dia.
“Quando me encontrava no antigo Luso, hoje Luena, mais propriamente no Dala e no Alto de Chicapa, aprendi a palavra em quimbundo que os africanos de Angola nos dirigiam em forma de agradecimento por qualquer dádiva, como uma lata de conservas: ‘Ansakuila”, que significa ‘obrigado’, ainda hoje não a esqueci. Para esse nobre povo africano que ainda sofre horrores num país cheio de tudo e do bom, deste Portugal que eles apelidavam do puto, lhes envio o meu ‘Ansakuila’, expressa.
A perda do amor da sua vida
Quando regressou, quis formar a sua própria família. “Foi aí que conheci a minha querida Armanda, que já me deixou, há cerca de quatro meses. Tinha ela 13 anos. Amei e amo aquela mulher. Ela ainda está no meu pensamento, ela morreu, mas continuo casado com ela e a prova disso é a aliança dela que trago ao peito, continuará comigo até morrer”, revela.
“Ela morreu, mas continuo casado com ela e a prova disso é a aliança dela que trago ao peito.”
“Fomos muito felizes e ela ajudou-me em tudo o que pode. Ajudou-me muito nas campanhas. Quando soube do seu falecimento, embora estivesse à espera, foi um choque. Para quem viveu muito unido à minha esposa, sabe que ela é uma mulher querida e cativante. Nas campanhas eleitorais, berrava mais do que eu”, relata.
Conhecida pela primeira-dama da freguesia de Pias, “havia pessoas que ainda a tratavam assim. Tenho muitas saudades dela, não é fácil. Ainda hoje a vejo em todos os lados da casa”, testemunha.
Bombeiros: mais do que profissão
Com o regresso de vários militares ao continente, José encontrou muitas dificuldades na procura de emprego. “O trabalho nunca me assustou e trabalhei em tudo o que me aparecia, mas precisava de algo mais seguro para constituir família. Estava a preparar-me para emigrar, mas surgiu um concurso para os Bombeiros Sapadores do Porto”, conta.
“Iniciei aí a minha profissão de bombeiro, que também é uma profissão nobre. O sapador bombeiro não deixa de ser um bombeiro. O voluntário tem o espírito mais aberto, porque é voluntário, mas o espírito humanitário é o mesmo. Tive diversas situações que se não fosse o meu lado nobre, o lado profissional e o sentido que temos de ter de ajudar, não iria resultar”, testemunha.
“O voluntário tem o espírito mais aberto, porque é voluntário, mas o espírito humanitário é o mesmo.”
José Silva exerceu a profissão de Bombeiro Sapador durante 26 anos e reformou-se assim que completou o quinquagésimo aniversário, não por opção, mas porque a lei assim obrigava.
No entanto, o objetivo de ser bombeiro “foi conseguido e tive muito prazer em trabalhar lá”, refere. “Quando vinham chefes de Estado à Câmara do Porto, éramos escalados para estar lá. Estive com Jacques Chirac, presidente da França, estive a quatro passos da Rainha Elizabeth II, rainha de Inglaterra, e estive a poucos passos do Papa João Paulo II”, explana.
Entrega à freguesia de Pias
Nunca teve o objetivo de ser Presidente de Junta, mas o destino levou-o a exercer o cargo durante 12 anos. Começou por pertencer à lista do anterior presidente, António Magalhães, em 1985.
Em 1993, o atual secretário candidatou-se numa lista independente e José Silva entrou para a lista de António Magalhães como secretário, cargo que ocupou durante dois mandatos. “Integrei-me muito bem, porque sou uma pessoa curiosa, gosto de aprender e não gosto de estar nas coisas para fazer número. Penso que dei boa resposta”, revela.
Em 2001, na impossibilidade do atual presidente candidatar-se, por motivos de saúde, José Silva avança com uma lista, pelo Partido Socialista, e ganha o seu primeiro mandato. “Por aquilo que semeei, colhi bastantes votos. Em 2005, fui o elemento mais votado do concelho”, conta. Em 2009, volta a ganhar e cumpre o seu último mandato.
Com algumas dificuldades características do cargo, o ex-presidente começou o seu mandato a trabalhar. “Arranquei com várias obras e a primeira foi a construção da capela mortuária, o alargamento do cemitério, a implementação de capelas no cemitério, que mais tarde foram vendidas, alguns pavimentos e alargamentos de ruas e a obra em frente à igreja de pias, a remodelação toda da rua”, relata.

“Quando entreguei a Junta de Freguesia, entreguei com uma obra que sonhava que fosse um Centro de Dia, um espaço para os idosos. Compramos também três carrinhas para ir buscar os idosos a casa. Como sei que viver na solidão é terrível, tinha o objetivo de criar esse espaço para eles conviverem, jogarem cartas, recordar os tempos de mocidade”, conta.
Na igreja, sublinha, “reconstruímos os altares, toda a estatuaria ali presente, o adro da igreja, reconstruímos as paredes laterais e, ainda, a reconstrução da residência, que começou quando saí”.
Das marcas que deixou, destaca a “Rotunda das Pias” e a “Rotunda dos Presidentes”. A primeira, é o símbolo da freguesia, “é uma rotunda com pias e com o chafariz a funcionar”, conta. A segunda, é “uma homenagem a todos os ex-presidentes desde o nascimento da freguesia”, explica.
“Tenho, ainda, recordações das várias presenças que fiz e inaugurações. Nomeadamente, a presença de José Sócrates na inauguração da Escola Primária de Pias, que ainda era presidente”, comenta.
Da passagem pela política, guarda algumas amizades, como Jorge Magalhães, Mário Fonseca e José Santalha, “com quem privei muitas vezes e são pessoas excelentes, grandes camaradas e amigos”, refere.
“Assim como o diretor do jornal ‘O Lousadense’, o professor José Diogo Fernandes, que é um excelente homem e educadíssimo, com um grande sentido de humor e muito sentido de ajuda”, confessa, acrescentando: “tal como tenho relações com Leonel Vieira, Agostinho Ribeiro e Simão Ribeiro. Primeiro está a amizade e depois as bandeiras políticas. Não vou estragar amizades por causa da política”.
O ex-presidente esteve, ainda, ligado à Associação Recreativa e Cultural de Pias, como secretário, em 1992, e à Associação “Os Pienses”, que sempre apoiou, embora não estivesse ligado aos órgãos sociais.
“Por todo o lado que passo consigo deixar uma marca da minha presença.”
Com sentido de dever cumprido, “acredito que já dei o meu contributo, durante 12 anos como presidente, mais oito como secretário, e outras atividades a que fui estando ligado, acredito que já tenho a minha parte feita”, assegura.
“Ganhei várias amizades por todos os lados que passei, na escola, na tropa, nos sapadores de bombeiros e na freguesia de Pias. Tive uma vida muito gratificante nesse aspeto. Por todo o lado que passo, consigo deixar uma marca da minha presença e dá-me muito gosto ter deixado amigos por todo o lado”, termina.












Sinto-me grato por esta publicação, que retrata os episódios mais marcantes da minha vida, a todos os que tornaram possíveis esta publicação grande abraço de amizade.
Sempre ao V. dispor, sempre com grande amizade, qualquer situação em que eu possa estar presente para dar testemunho, ao V. dispor .
Obrigado
Jose Ribeiro da Silva.