por | 3 Mai, 2019 | Cultura, Economia

Lousadense prestigia Lousada na arte do restauro

Há 12 anos a dar vida ao antigo, a Dalmática é uma empresa sediada em Lustosa, que tem alcançado grande prestígio na conservação e restauro do património. Foi, no entanto, o restauro da Catedral Basílica Santa Maria la Antigua, na cidade do Panamá, monumento classificado como Património Mundial da UNESCO, que lhe trouxe a notoriedade a nível nacional e internacional.

Rui Barbosa, de 40 anos, de Lustosa, é o proprietário desta empresa, que tem 15 funcionários e recorre a serviços externos, quando necessário. A arte do restauro começou por acaso, quando frequentava o quinto ano de Teologia. Na altura, abriu a escola de conservação e restauro na Universidade Católica. Ainda estudante, foi convidado a trabalhar na escola. Aceitou e os 5 anos que lá permaneceu deram-lhe asas para criar a Dalmática.

Duas circunstâncias contribuíram para este nascimento: o facto de a atividade profissional do pai ser na área das madeiras, material muito usual no restauro, e a existência de muitas igrejas e capelas na área geográfica de residência. “Lousada pertence à Rota do Românico. O Vale do Sousa e o Tâmega são o nosso foco. Aqui concentra-se a maior parte das igrejas, que são o nosso principal cliente”, explica Rui Mota.
Rui Barbosa vê-se como um Indiana Jones em busca da arte perdida e, por vezes, é surpreendido por achados fantásticos: “As melhores peças e as mais antigas estão escondidas”, afirma. “Velhas”, “guardadas”, “no seu estado original”, mas “num estado de degradação bastante avançado”: é este muitas vezes o cenário. Uma situação muito curiosa foi a descoberta de pinturas do séc. XVII na parte de trás do altar do séc. XVIII, na catedral restaurada no Panamá.

Há mais “tesouros” escondidos em Lousada

No Vale do Sousa, o trabalho de restauro tem sido bastante. Em Lousada, a Dalmática começou por restaurar a igreja de Lustosa, seguindo-se a de S. João de Covas e a capela Nossa Senhora do Padrão, estando a concorrer para o restauro da igreja de Boim.

Mas nos projetos da Dalmática há um desafio maior, como explica Rui Barbosa: “Os tetos das igrejas antigamente eram todos pintados, mas, por razões diversas, foram tapados com pladur ou madeira de castanheiro. Por baixo, têm pinturas! É provável que seja o caso da capela do Senhor dos Aflitos, da igreja de Silvares, de Cristelos, da capela da Senhora do Avelar… O nosso projeto é visitar algumas igrejas aqui do concelho, saber o que existe e tentar recuperar esses registos, que marcam a identidade destas comunidades”.

Questionado sobre a igreja que mais lhe diz, não hesita: “A de Lustosa, pois é a minha terra”. E relembra o trabalho de restauro empreendido há uns anos, cujo resultado o deixou satisfeito. “O resultado foi o melhor, mas ainda há muito para explorar. É uma igreja de muita referência, tem registos interessantíssimos, a nível de talha, de escultura, de pintura, de pintura mural…Vamos ver o que acontece”, refere.

As madeiras são o principal suporte dos trabalhos executados. “Temos de o proteger, tirar madeiras, substituí-las, sempre por castanho, nunca o pinho, que é aquilo que se vê muito, mas tem o problema do bicho da madeira”, explica. Por paixão à arte, muitas vezes, a Dalmática vai além do que se propôs fazer e acaba “por ter prejuízo ou não ter lucro”, confessa.

A internacionalização da Dalmática sempre esteve na mira de Rui Barbosa. A América Latina é um destino óbvio: “Os altares em madeira são produzidos no Norte da Península Ibérica e para onde foram a maior parte deles? Para a América Latina”, explica. “Fomos contratados para restaurar o retábulo-mor, que é do séc. XVIII”. A obra acabou por demorar mais tempo pelo achado já referido: por detrás desse retábulo, havia uma pintura do séc. XVII. “Acabamos por apresentar uma proposta para a recuperar e, por isso, estivemos mais tempo lá”, conta. De realçar que a Dalmática chegou a ter 20 pessoas a trabalhar no Panamá.

Esta obra é para Rui mais “um sonho concretizado”. Depois de uma meta atingida, pensa já num novo percurso, numa nova meta. “Foi fundamental, quer a nível nacional, para nos dar alguma credibilidade, quer a nível internacional, que é cada vez mais o nosso forte”, remata.
O Panamá foi, assim, o início de um projeto de investimento

América Latina, mas é um processo que demora o seu tempo, exigindo um estudo de mercado para “ver o que existe e o seu estado de conservação”. Só assim se perceberá se é possível a entrada ou não. Esta é a parte de Indiana Jones que cabe a Rui Barbosa, digamos assim.
Neste momento, a Dalmática está já a negociar em Bogotá, na Colômbia; em Cusco, no Perú, e em Quito, no Equador.

Falta de legislação leva a ações contra o património

A nível de restauro, em Portugal, existe muita concorrência, mas, infelizmente, muita dela “desleal”: “Cada um faz o que quer, desde restauradores a habilidosos. É mau de mais”, lamenta. Há uma lacuna a nível legal, que leva a que se comentam alguns atentados contra a arte: “É impressionante! Com peças tão sensíveis, com 200, 300 anos, não há nada, nem sindicato, nem ordem, nem legislação. Muitas vezes, as pessoas que pintam casas estão a pintar altares. Depois a grande parte do nosso trabalho é retirar essas tintas que os habilidosos utilizam. A grande parte dos problemas, e onde perdemos muito tempo, é nas madeiras, que é um material vivo. São poucas as equipas de restauro que têm uma equipa de carpintaria”, refere.

O futuro passará certamente pela internacionalização e “alguns projetos interessantes, tanto a nível nacional como internacional”, diz, pondo sempre a tónica na qualidade: “Interessa-me alguma quantidade para garantir trabalho à equipa, mas sobretudo trabalhos de referência e de qualidade”. Esta qualidade, que destaca a Dalmática relativamente a outras empresas congéneres, está patente também nas “estruturas dos retábulos, que é o menos visto”, sendo “importante todo o trabalho dedicado às estruturas das peças. Esse é um fator em que a Dalmática se destaca da concorrência. É esse cuidado com que as peças durem mais duzentos ou trezentos anos”, remata.

Alfredo, funcionário, de Lustosa

Há 5 anos, entrou por três meses e ficou até hoje. Tem 27 anos e tirou o curso na área dos móveis. Possuidor de deficiência, é um exemplo de integração de sucesso. Marlene Maia, esposa de Rui Barbosa, explica que sempre apoiaram a sua integração e procuraram forma de o fazer crescer, mas também ficaram a ganhar: “O Alfredo tem aprendido muito com a Dalmática, mas também nós temos aprendido muito com o Alfredo. A equipa transformou-se um bocado, nós tivemos de descobrir a forma de o apoiar e acabamos por crescer imenso. A equipa torna-se mais coesa, pois sentimos todos que fazemos parte de uma família”.

Sofia Lobo, de Raimonda

“A Dalmática é a minha segunda casa. Às vezes acho até que é a primeira casa. Também é uma verdadeira família. É isso que faz com que a Dalmática também seja diferente. Temos a sorte e a felicidade de termos um chefe que nos permite trabalhar com um padrão de qualidade para o qual nem sempre as empresas estão disponíveis. Aqui não se referem apenas números, mas sim qualidade.”
A fazer uma intervenção conservativa, Sofia foi-nos explicando a importância dos saberes para evitar erros: “Primeiro é importante a parte científica, temos de ter um grande leque de conhecimentos da Química, Física e Biologia, para entender as peças, a essência de cada peça, pois, se a não conhecermos, podemos facilmente cometer um erro. O nosso maior desafio é estabilizar a peça para não se estragar mais, para que dure mais 150 anos”.
A obra do Panamá foi um “desafio gigante” para Sofia. “Uma peça gigante, uma equipa deslocada… era tudo um novo ambiente, um país com uma cultura muito diferente da nossa, com uma filosofia de restauro muito diferente do que a que se pratica na Europa e foi quase um processo de fazer com que as pessoas entendessem as razões da necessidade daquele trabalho e a forma como estávamos a atuar na casa deles. O nosso maior desafio foi ensinar um pouco o que acontece aqui na Europa”, diz.
Alexandra Barreira, de Bragança, sobre o trabalho no Panamá
“A Dalmática é família. Irmos para um país novo onde a cultura de restauro é distinta da que temos em Portugal traz sempre novos desafios. O trabalho envolveu muitos tratamentos e uma parte boa foram as pessoas da obra realmente poderem ver o que estávamos a fazer. Isso é bom, pois assim viram o resultado inicial e o final.
Foi muito complicado, principalmente quando não estava a Sofia. Mas foi bom, faz-nos sempre bem, aprendemos a trabalhar mais em equipa, pois aí dependemos uns dos outros. Foi um desafio. Foi uma honra ter o Papa Francisco a inaugurar esta obra. Foi correr contra o tempo e sentimos mais a pressão. Lousada está lá no Panamá. O nosso trabalho foi filmado e está lá presente todos os dias. Lousada e Dalmática estarão lá sempre presentes”.

Alexandra Barreira, de Bragança, sobre o trabalho no Panamá

“A Dalmática é família. Irmos para um país novo onde a cultura de restauro é distinta da que temos em Portugal traz sempre novos desafios. O trabalho envolveu muitos tratamentos e uma parte boa foram as pessoas da obra realmente poderem ver o que estávamos a fazer. Isso é bom, pois assim viram o resultado inicial e o final.
Foi muito complicado, principalmente quando não estava a Sofia. Mas foi bom, faz-nos sempre bem, aprendemos a trabalhar mais em equipa, pois aí dependemos uns dos outros. Foi um desafio. Foi uma honra ter o Papa Francisco a inaugurar esta obra. Foi correr contra o tempo e sentimos mais a pressão. Lousada está lá no Panamá. O nosso trabalho foi filmado e está lá presente todos os dias. Lousada e Dalmática estarão lá sempre presentes”.

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