“Caíde vai ter um hotel. Sei que é um projeto em grande” Adão Moreira

Adão António Moreira, de 50 anos, é o presidente da Junta de Freguesia de Caíde de Rei. O autarca, natural da freguesia, está no segundo mandato. O Louzadense esteve à conversa com ele, para conhecer a sua perspetiva sobre o trabalho realizado e as expectativas para o futuro.

Quais as principais razões que o levaram a candidatar-se à Junta de Freguesia?

Eu tinha isso na ideia, devido às várias vertentes nas quais já estava envolvido na freguesia. Passar pela Junta de Freguesia estava nas minhas opções. Fui convidado por ambos os partidos e escolhi aquele que me dava mais segurança para abraçar um projeto melhor para a freguesia.

Foi convidado pelo PSD?

Sim, na pessoa de António Meireles, anterior presidente da Junta. Eu era um seguidor dele, também, nunca escondi isso, pois defendia muitas ideias que eram dele. Quando me convidou, disse-lhe que não queria dar seguimento a um projeto que não era meu, mas sim fazer o meu projeto. E, assim, escolhi o partido com as pessoas que me davam mais garantias de conseguir levar a cabo os meus objetivos para esta freguesia. Nisto não vejo projetos políticos, mas sim as pessoas que me podem ajudar e que sabem o que é que o meio precisa. Nunca foi pela circunstância PS, mas sim pelas pessoas que estavam na Câmara Municipal de Lousada e pelas pessoas que estavam aqui. Julgo que temos agora um projeto muito conseguido, apesar de muitas dificuldades

Como recebeu esta Junta de Freguesia?

Péssima. Até pela forma como me entregaram a Junta de Freguesia. Foi entregue neste espaço onde estamos. Convidaram-me para vir aqui receber as chaves às sete da tarde. Deram-me as chaves e saíram pela porta fora. Não se faz. O próximo presidente da Junta terá sempre um miniestágio, se pretender, para perceber o que é que vai ter pela frente.

Pela amizade que tinha pelo António Meireles, como se sentiu?

Senti-me desprezado, completamente. E depois, quando vi o que encontrei, que foi aproximadamente cem mil euros de dívida, foi um caos, e arrependi-me logo ali de ter sido presidente da Junta. Se sabia que a Junta tinha uma dívida assim, nunca abraçaria o projeto, porque, por educação, nunca fui habituado a dever nada a ninguém.

Foi um mandato difícil?

Super difícil. Cheguei a estabelecimentos comprar e pediam ‘dinheirinho’, ‘sem dinheiro não há peças’. Até tive que ir eu e dar a cara. Comecei a fazer as compras com acordos de pagamento, sem falhar.

Que dívidas eram essas?

Eram quase todas relacionadas com o Complexo Cemiterial de Caíde de Rei. Havia seguros e Segurança Social para pagar, dois meses de salários que também estavam para trás. Havia uma conta corrente de quinze mil euros. O resto era tudo do cemitério: terreno, aos empreiteiros que lá andavam a trabalhar, mármores, ferro, tudo.

Não considera o cemitério um investimento?

Foi-se longe de mais. O Dr. Meireles é uma pessoa a quem a freguesia terá de ficar muito grata pelo seu empenho e pela passagem dele por aqui. Nem tudo foi mau. Ele estava a ver as coisas numa realidade que não é a da freguesia. Era um sonhador e tentou trazer um cemitério digno de uma grande cidade. Ele estava orçamentado no valor de um milhão e duzentos e cinquenta mil euros, o que é impossível para uma freguesia de três mil habitantes. Quis dar um passo para o qual não tinha perna suficiente.

E como está atualmente?

Vai-se andando, vai-se contruindo, fazendo e vendendo. Não se vende uma coisa que as pessoas não querem comprar. Isto acontece só quando as pessoas vão morrendo e vão necessitando. Há uma manutenção que é diária e que tem de ser feita, e o dinheiro do que se vende é canalizado quase todo para a manutenção do cemitério. Fizemos um poço, colocamos luz pública, temos caminhos para fazer. Há uma série de investimentos e o que se recebe não chega para pagar dívida alguma.

E quanto custará agora esse projeto?

Muito mais barato. Não tem nada a ver. Pois não vou fazer nada do que estava programado. Até porque não irei construir o crematório. Enquanto eu for presidente da Junta, Caíde não vai ter crematório. Está lá o espaço e quem vier faça como entender. O cemitério ficará na casa dos trezentos mil euros.

Foram essas as dificuldades no primeiro mandato?

Sim, complicou, pois tinha de pagar primeiro a dívida. E tive logo de falar com as entidades credoras, que foram recebendo de acordo a nossa possibilidade. Devo dizer que neste momento já reduzimos a dívida em cerca de cinquenta por cento, à volta de cinquenta mil euros. Neste momento, é mais fácil gerir a Junta de Freguesia. Eu não posso aceitar dever à Segurança Social e ao Fisco. Um autarca não pode estar nesta situação.

Qual é a sua marca na freguesia?

A marca já está implementada, que é criar uma imagem bonita de Caíde. Eu cheguei e tinha duas rotundas cheias de codessos e agora estão lindas. Acho que é uma imagem que vai ficar relativa a esta equipa, que esteve a trabalhar durante este tempo todo. Criamos aqui coisas que nunca se viram em Caíde: a limpeza da freguesia; a nível de sinalização, está tudo direitinho; a construção do centro social, em que estivemos muito envolvidos; temos a Associação Humanitária dos Bombeiros, que estava completamente clandestina e hoje está tudo legalizado; o campo de futebol, onde, com a ajuda da Federação Portuguesa de Futebol e o apoio da Câmara, conseguimos colocar o sintético; o centro escolar; a nível de iluminação, trouxemos mais lâmpadas; os arruamentos quase todos com tapete… Está tudo mais direitinho. Dá gosto viver aqui. Mas sem a ajuda da Câmara seria difícil.
A nível de estacionamentos junto à estação, foi este executivo que conseguiu colocar um parque de estacionamento a custo zero para os utilizadores e que retirou a confusão que dantes existia. E agora vamos criar ali um bocadinho mais de embelezamento, e estamos a ponderar comprar um terreno para criar mais estacionamento.
A empresa CP deveria ter um investimento maior nessas infraestruturas?
Sim, eu pedi ajuda e eles disseram que não. Os grandes beneficiários disto são eles, não somos nós. Pois estamos a dar estas vantagens a pessoas de fora da freguesia, que usufruem de um espaço pago por uma terra em que eles não pagam quase nada. As pessoas da freguesia pouco aproveitam estes investimentos. Quem ganha com este investimento é a CP.

Como está o processo da Zona Industrial de Caíde de Rei?

Está a andar, devagarinho, pois é um processo na ordem dos três milhões de euros. Sei que dois industriais já compraram cinquenta por cento do terreno, embora já tenha arrancado pois já tem lá indústria. Nos próximos dez anos, a zona industrial estará feita. Estamos a falar de uma zona industrial que não é de muito fácil construção.

Como está o processo do campo do golfe na Quinta dos Ingleses?

É um processo que está em andamento. Estamos à espera de novidades, mas pelo que sei está a avançar. Tomara eu que fosse executado esse projeto! É uma mais-valia para a freguesia, pois Caíde começaria a ter impacto até mesmo internacional, mas são coisas sobre as quais temos de ter muito cuidado e ponderar muito bem, pois são projetos megalómanos e que a mim me assustam um bocadinho. O passado que tivemos aqui foi por causa das ideias megalómanas. Devemos deixar as coisas acontecerem e vamos ver o que é que isto vais dar. Que era importante para Caíde, sim, era, pois estamos a falar de um campo de golfe de 18 buracos e um hotel, que à partida será para os utilizadores.

Pelo que sei, vai avançar um hotel bastante grande na região…

É um projeto muito grande, com a criação de quatrocentos postos de trabalho. Estamos a falar de um projeto não só para Caíde, pois também será para Lousada, pois será um hotel e um centro comercial. Será muito bom para Caíde. Terá um contra: o comércio tradicional poderá sair prejudicado, pois estas grandes superfícies vêm prejudicar um bocadinho o supermercado da esquina.

Sente-se orgulhoso com este projeto?

Caíde é a freguesia mais bonita do concelho de Lousada e a mais bem posicionada no concelho. Nós temos tudo aqui e vamos complementar Caíde de Rei com um hotel. Tem uma entrada de autoestrada, que dá para todo o lado, tem caminho de ferro, um centro de saúde, uma farmácia e até um complexo desportivo.
Pelo que oiço, vai ser o maior hotel aqui do concelho e da região. Sei que é um projeto em grande. Isto envolve entidades internacionais e está um pouco no segredo dos deuses.
Nós não temos habitação para tanta procura e isso vai obrigar-nos a desenvolver a habitação e ficamos com mais residentes, e com isso captamos pessoas para a freguesia. E, pelo que sei, é um projeto que arranca dentro dos próximos dois anos.
Isto é que é uma coisa para ficar no currículo deste executivo, deste grupo, que se propôs a desenvolver Caíde. É esse o nosso projeto.

É uma freguesia com muitas associações. De que forma a Junta colabora com estas entidades?

Sim, é uma das coisas boas da freguesia. Na altura em que tomei posse, expliquei a realidade da Junta e tentamos compensar com transportes. É aí a nossa ajuda. Temos dois veículos e procuramos facultá-los, de forma a que não haja um grande custo para a Junta de Freguesia. Damos uma ajuda monetária de cinquenta euros por ano. Eu sei que é pouco, é um ato simbólico, mas não temos forma de ajudar mais.
Agora têm uma confraria de sarrabulho doce.
No fundo, é dar seguimento ao Cais Cultural. Eles têm feito algo de muito importante e agora estão sempre à procura de mais. Estou convencido de que vão criar mais e mais, pois por acaso o Luís Peixoto é uma pessoa muito dinâmica. Acho que ele a nível de criação de eventos é fora de série.
Já agora transmito esta novidade: estamos a concorrer com a ribeira para património da Unesco. Esta ribeira de Caíde tem características únicas, temos ali espécies que são únicas na Península Ibérica. Temos de ter o projeto pronto até outubro. Eu vou trazer para ali um espaço de lazer, se me deixarem. Julgo que é a primeira a nível nacional.

Não seria importante ter aqui uma associação voluntários de caide de rei com mais serviços?

Na altura em que eu fazia parte da direção dos bombeiros, conseguimos legalizar tudo e o senhor Cunha tinha-me dito que, quando eu terminasse o primeiro mandato de vice-presidente, iria passar a presidente, e depois, por questões políticas, saí, pois ele entendeu que eu não era uma mais-valia. Mas, antes de sair, tive conversas com o promotor do INEM e o que estávamos a programar era termos aqui um polo dos Bombeiros Voluntários de Lousada. Tive até conversas com o comandante Albano e estava tudo encaminhado para que, logo que estivesse tudo legal, colocassem aqui um polo. Com a minha saída, tudo isso terminou. Era muito importante e tenho pena que eles não tenham dado seguimento a este trabalho. Neste momento, aquilo é mais uma empresa que uma associação e isso é mau, pois eles têm sócios. Havia ali uma preocupação muito grande em ter aquilo como uma empresa da família x ou y, e isso é mau. Eu após isto deixei de ser sócio. Está ali uma oportunidade muito grande a ser perdida. O Presidente da Assembleia e da Associação gerem aquilo mais como uma associação particular do que pública.

Para si, o que representam as festas de S. Pedro?

É a cereja do topo do bolo a nível religioso e uma oportunidade de termos a união de toda a freguesia. Podemos dizer no final que isto foi feito por nós, embora haja um grupo ao qual temos de lhe tirar o chapéu, que também é homenageado pela Junta de Freguesia. É uma festa que temos de fazer sempre e, quando não houver comissão de festas, a Junta de Freguesia honrará sempre o Santo da Terra.

Tenciona candidatar-se nas próximas eleições?

Sim, vou continuar e tenho a certeza de que o povo me vai dar esse privilégio de fazer o terceiro mandato, pois há sempre mais qualquer coisa que podemos fazer. Eu quero sempre mais, mas este mais é medido e não desmedido. Tenho de ter sempre responsabilidade. Pode ter a certeza absoluta que vou entregar a Junta limpinha com o nome de Caíde de Rei em grande e com um caminho orientado. Depois será uma opção que o próximo terá de ter, se o quer seguir ou não.

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