Capitolina Oliveira sente que Lousada é a sua vida

Veio para Lousada por um ano e aqui ficou. Como professora ou ligada a vários projetos de teatro e canto, todos conhecem a vitalidade e criatividade da professora Capitolina Oliveira.

Nasceu em Espinho, onde frequentou os primeiros anos de escola. A inexistência de liceu levou-a Gaia. Mais tarde, atravessou o rio Douro e instalou-se no Porto, para frequentar o ensino superior, tendo-se licenciado em Economia.

Mas diz não ser uma mulher de contas, apesar de ter mostrado aptidão para o negócio desde menina. O avô era proprietário de padarias e pastelarias e foi ao balcão que cedo percebeu que tinha competências para o atendimento, a ponto de, passadas dezenas de anos, não ter perdido a ideia de “ter um espaço onde pudesse fazer doces, mas acompanhados de atividades artísticas (música, poesia…) onde as pessoas se sentissem bem e pudessem ter uma coisinha boa, ouvindo algo interessante”, explica.
Nascida numa família de artistas, do pai herdou a paixão pelo palco, da mãe a veia para a música. Ainda muito jovem, queria seguir teatro, mas esse caminho desagradava à mãe. Pelo menos enquanto profissão, pois Capitolina desde muito nova que “juntava a família e fazia a festa, cobrando dinheiro pelos espetáculos”, revela.

Apesar de cantar e representar, esclarece que a maior parte das vezes concebia os espetáculos para que outros brilhassem no palco: “Eu nunca quis ser eu a pisar o palco. Sempre quis dirigir, pôr os outros a fazer”, recorda. A atividade em que não dispensa o protagonismo é na leitura da poesia, que adora. Também gosta de cantar, mas não a solo. Relembra, no entanto, que chegou a cantar o fado.

“Sou um pouco revolucionária”

Capitolina recorda que as bonecas não entravam muito nas suas brincadeiras enquanto criança. “Nunca tive muitas bonecas”, esclarece. Os livros, sim, eram companheiros. Aos quatro anos, já lia e escrevia. Apreciava sobretudo os livros que lhe oferecia uma tia, que frequentava um colégio interno, quando vinha a casa.

Apesar de contrária à carreira artística, a mão de Capitolina foi permitindo que a filha realizasse várias atividades, nas quais se incluía a dança, que ela adorava. A professora recorda que Espinho era um meio muito cultural, mesmo antes do 25 de abril. A Académica de Espinho possuía uma secção cultural, onde chegou a fazer teatro. “Fomos expulsos quando se deu o 25 de Abril”, conta.

De espírito revolucionário, já depois da Revolução, andou “pelas ruas e pelas fábricas”. Mas, mesmo antes de 1974, “era um bocadinho revolucionária”, o que não agradava à família, que apreciava a calma e receava pela segurança de Capitolina. “Sou revolucionária, não partidária. Nunca estive num partido político. Nunca entrei na sede de um partido. O meu lema sempre foi a liberdade, pensar por mim. Amo a liberdade e, por isso, deixo livres as pessoas que amo”.

Tias decidiram o curso

Empurrada para o curso de Economia pela família, estaria assim habilitada a dar continuidade aos negócios de panificação e pastelaria. Mas não foi isso que aconteceu. Acabado o curso, ainda trabalhou numa empresa na sua área de formação académica, “mas aquilo não me fazia feliz”, diz.

Para contrabalançar o dever profissional que não a realizava, começou a dar aulas de matemática à noite. Foi aí que lhe surgiu um problema grave de saúde, que a fez parar e pensar. Aos 27 anos, em sofrimento, Capitolina perdeu mesmo o andar e, já sem os pais, começou a pensar seriamente no que queria fazer da vida.

Razão tinha a mãe, que, quando a ouvia em criança falar com as bonecas, lhe dizia que um dia havia de ser professora. Apesar de afirmar veementemente que jamais seguiria essa profissão, quis o destino que fosse essa justamente a profissão que abraçaria por longos anos.

O ensino afigurou-se-lhe como uma porta para trabalhar com pessoas, fazer outras coisas e ajudar a concretizar projetos no âmbito das artes performativas. “Tenho de concorrer para dar aulas. Estarei perto das pessoas, nem que seja para estas terem os seus 5 minutos de glória”: a decisão estava tomada.

Motivada pelo desejo de evasão física da sua terra de origem, também por razões pessoais, quis voar mais alto e entre os destinos estavam mesmo as ilhas dos Açores e da Madeira. Mas saiu-lhe Lousada, para onde veio em 1987.

Os três tombos na chegada a Lousada

Capitolina veio então para Lousada por um ano, pensava ela. Chegou no dia 6 de setembro, num dia de feira, numa altura que era “estranha para o ambiente que vim encontrar”. O autocarro parou junto à pastelaria Colmeia, saiu e seguiu a pé até à escola: “Isto era um descampado. A minha rua era um estradão de terra batida. Era um centro pequeno, não existiam prédios”, descreve. Retém na memória um episódio que partilha connosco: “Com uma saca de corda ao ombro, saia indiana, vinha a fumar. Sentir qualquer coisa de esquisito nas minhas costas, parei e olhei para trás. Estavam pessoas paradas a olhar para mim. Deitei fora o cigarro. Vinha do Porto e não queria chocar as pessoas”.

Apesar de ter vindo por um ano, alguns indícios mostravam já uma permanência mais longa. A história tem humor à mistura e a interpretação dos sinais coube ao professor de História, o Gomes, um dos primeiros colegas com quem contactou na Escola Secundária e que a acompanhou à Pensão Avenida para alugar quarto. Capitolina conta-nos a história: “Como naquele dia chuviscava, na Escola Secundária, dei um tombo à porta do pavilhão A, depois caí outra vez quando ia arranjar quarto e uma terceira já na Pensão Avenida, onde íamos comer. Aí o Gomes disse: ‘Três tombos no primeiro dia! Tu nunca mais daqui sais’”. E tinha razão, pois a nova colega nunca mais concorreu para mudar de escola.

Associação Recreativa Cultural de Pias, local de boas memórias

Sem nunca ter a intenção de fazer a diferença, deixou que a vida fluísse e começou a apaixonar-se pelas coias que fazia. Ligou-se ao Associação Recreativa Cultural de Pias e por ali andou durante alguns anos: “Fazia as Janeiras, tínhamos um grupo de coral, um grupo de teatro e angariávamos muito dinheiro”. Capitolina tinha a vantagem de ter “matéria prima”: os alunos e colegas, que participavam com entusiasmo nas atividades.

A génese da Oficina de Teatro está, por isso, em Pias, mas Capitolina recorda que “fazia coisas em muitos sítios, numa altura em que não havia a Jangada Teatro. “Fazia espetáculos para a Câmara, no Auditório Municipal, como o 25 de Abril. Andamos pelas freguesias todas a levar o espetáculo de Abril”, lembra. À designação Oficina foi anteposto o adjetivo “nova” para a distinguir de uma existente em Guimarães.

A escola era também palco de inúmeras iniciativas: “Tenho fotos de espetáculos de Abril na escola. Andávamos por várias escolas do Norte do país”.

Curiosamente, a Nova Oficina de teatro e Coral não é uma associação. Questionada sobre as vantagens, também financeiras, que poderia ter se fosse associação, Capitolina reconhece-as, mas diz que nunca teve muito em conta a parte financeira, “excetuando quando tinha de fazer pagamentos”, diz, sorrindo.

O seu percurso passou, ainda, pelo Conservatório, a convite de Clemente Bessa, onde esteve cerca de 3 anos. Recorda que foi nessa altura que abriram o Bar da Cultura, pelo que o local tem também a sua marca.

Capitolina ajudou a formar grandes atores

Durante estes anos, foram muitos os jovens e crianças que se cruzaram com Capitolina. Atualmente a desenvolver um projeto com crianças de 6 anos em Cristelos, que irão apresentar um espetáculo no final do ano letivo, sente-se feliz também por poder despertá-las para a arte de representar. E não só: são muitos os jovens que lhe pedem ajudar para encontrar um caminho: “Quando chega alguém que não se sente bem, que vai num caminho do qual não gosta, pede-me às vezes para falar com os pais e muda o seu percurso. Tenho um grupo do 12.º ano, que veio fazer um trabalho para Filosofia e começou a fazer teatro”, diz. Alguns querem ter um hobby, outros acabam por ser grandes atores e atrizes. É o caso de uma dezena deles que hoje têm destaque nacional, como Patrícia Queirós, Rita Calatré e Lúcia…, que são “grandes atrizes”, salienta.

Após tantos anos, a professora sente que “estamos aqui essencialmente para amar, sermos amados e construir coisas bonitas. A agressividade que existe é por falta de amor”. Amor é o sentimento que a une aos muitos jovens que continuam na sua vida embora alguns longe: “O que sinto é um amor profundo por esses jovens. A gente encontra-se e é como se fosse ontem. Gosto deles como se fossem todos meus filhos”, afirma.

“Lousada é a minha vida”

Lousada, após todos estes anos é, para Capitolina, a sua vida: “Não é a minha terra, mas quando vim para cá era muito nova e trouxe tudo para cá, tudo aquilo que fazia na Nascente, a cooperativa em Espinho”, explica, evocando o “Mini Chuva de Estrelas”, que dinamizou em Pias.

Durante estes anos, diz que tudo aquilo que conseguiu não é glória sua: “Limitei-me a partilhar alguns conhecimentos que trazia, outros que fui estudando e outros que a vida me foi dando”, explica, reconhecendo que também aprendeu muito no tempo que passou com os idosos na Misericórdia e que foi partilhando com os mais jovens.

À pergunta se se sente carismática, responde, sem hesitar, que não, dizendo até que, “às vezes, tenho ideia de ser o contrário. Às vezes, somos conhecidos por aquilo que as pessoas pensam que somos e não pelo que somos e isso traz mais sofrimento do que alegria”.

A mulher multifacetada a que nos habituamos diz nada fazer pelo sucesso pessoal, mas acredita que “até aos 100 ou 120 anos podemos fazer coisas incríveis e que estamos sempre a tempo de começar o que quer que seja”. Um exemplo para aqueles que acham que os grandes projetos são só para os jovens. “Este ano tive brônquio-pneumonia, veio o Dia do Agrupamento, o 25 de Abril, o Mercado… A Câmara contratou-me porque confiou em mim e o Dr. Cristiano Cardoso… Estava assustada. ‘Este ano não vais conseguir’, era o meu pensamento. Os anjos ajudaram-me”, acredita.

A fé ajudou-a a enfrentar a doença

Capitolina continua a ter energia e a querer fazer muitas coisas, embora se recuse a fazer grandes projetos, pois entende que a vida deve fluir. Nem as doenças lhe roubaram a alegria de viver. Para além de outras complicações de saúde graves, sobreviveu já a dois cancros: “O cancro não é fácil para ninguém. Mas, mesmo assim, sou bastante positiva e tenho fé. Se não tivesse, as coisas teriam sido muito graves”. Não se sente revoltada, pois acredita na “capacidade de justiça do universo”: “À medida que vou envelhecendo, penso se não teria de passar por aquilo para deixar algo de positivo que valha a pena”. A fé ajudou-a a enfrentar os tratamentos sem se queixar. Agradece também aos técnicos profissionais de saúde “fantásticos” que tem ao seu lado e que têm de lidar com a sua curiosidade: “Quero saber tudo, às vezes até mais do que o que devia”, diz.

A fé é, aliás, uma componente imprescindível da sua vida: “Eu acredito em anjos ao meu lado, que atuam comigo e, às vezes, peço-lhes: ‘dai -me luz para saber o que hei de fazer e dizer, para que eu contribua para que toda a gente seja melhor’”.

Alma cigana

Quem conhece bem a professora Capitolina sabe que nela há algo da alma cigana: “Se não sou agora, fui noutras vidas. Se calhar, fui cigana noutra vida porque eu acredito na reencarnação”, afirma.

Capitolina conta-nos como surgiu a sua aproximação ao povo cigano. Em Espinho, há vários ciganos sedentários e desde criança que convive com famílias ciganas. Fala-nos da família Maia, que “tinha imensos filhos”. Por isso, “muitas vezes, vinham pedir as sobras da padaria ao portão”, recorda. “Dávamo-nos muito bem”, diz, acrescentando que dançava com eles e que ainda tem amigos da altura.

Por isso, foi fácil para Capitolina criar o papel da cigana amante de D. João V na edição do Mercado Histórico deste ano.
Sobre o evento, diz não gostar de catalogar as coisas, mas está satisfeita com o resultado. “Acho que Lousada é um centro cultural. O Mercado Histórico tem características diferentes dos outros eventos desta natureza. Sinto-me feliz por esta partilha, por essa ligação com as pessoas. Ninguém faz nada sozinho. Eu desapareço e as coisas ficarão”, considera, congratulando-se com o aparecimento de novos grupos de teatro na Escola.
No meio de tantos projetos e tanta atividade, ficam poucos momentos para descontrair. Se pudesse, daria a volta ao mundo, mas tem optado mais por conhecer o país, aproveitar aqueles sítios “recônditos” e desfrutar pequenos prazeres, como aquele de se sentar numa esplanada a ler um livro. É a sua forma de se sentir livre.

Ainda para relaxar, há muito que é adepta do riso: “É uma técnica de relaxamento brutal”, assegura. A ioga do riso tem já muitos adeptos e, em Lousada, há já “líderes do riso”, diz.

2 Comments

  1. Maria Teresa Pacheco Fernandes

    Parabéns professora capitulina sou fã da senhora faço minhas as suas palavras 🙏 também tive uma vida difícil mas com fé e pensamentos 💭 positivos 🙏 vou andando 🚶 um beijo de grande admiração ♥️

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  2. Lúcia Alves

    Fiz parte do grupo Oficina de Teatro Coral” e tenho pela Capitolina uma amizade incrível! Ela é isto tudo e muito mais! Beijinho grande para ela, e dizer-lhe que a admiro muito!

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