por | 12 Ago, 2019 | ReViver Lousada

Especial Senhora Aparecida

Aparecida há 112 anos!

Nesta perspetiva da povoação da Senhora Aparecida, freguesia do Torno, é possível obter uma ideia da sua organização urbana há precisamente 110 anos atrás. Destaca-se ao fundo do plano do lado esquerdo a capela de N. S. da Conceição, sendo possível divisar, por entre as ramagens de árvores a empena triangular da antiga ermida de N. S. Aparecida.
Do outro lado da rua, o grande palacete da família Pinto da Cunha, que ficou popularmente conhecido como “casa das brasileiras”, e que terá sido construído nesse mesmo ano de 1907.
O alinhamento das casas do lado direito mantém-se praticamente inalterado, assinalando-se somente a introdução do passeio ajardinado, verdadeira marca identitária deste trecho urbano da Senhora Aparecida. Em primeiro plano, do lado direito, com uma placa identificativa a pender da varanda, a casa onde funcionou a célebre Estalagem, fundada por Cristóvão José de Oliveira (1821-1897), que muitas vezes terá servido o famoso Zé do Telhado.

Senhora Aparecida (Torno) – o Largo da Feira

▲ Fig. 2 – Postal ilustrado (1.ª metade século XX), reeditado em 1995 pela C. M. Lousada.

O dinamismo económico e social da freguesia do Torno, especialmente da povoação da Senhora Aparecida, embora tenha sido reforçado no decurso do século XX, resulta de um conjunto de fatores cujas origens se inscrevem ainda nos princípios do século XIX. Para esta conjuntura promotora de desenvolvimento concorreu, manifestamente, a difusão do culto a N. S. Aparecida, resultante de um pretenso milagre ocorrido sob o adro da capela de N. S. da Conceição, por volta do ano de 1823.
Mas a propensão deste lugar e da sua comunidade para o comércio resultará igualmente e na mesma medida de importância de outras condições, destacando-se a passagem de uma via secular que facilitava a circulação de pessoas e mercadorias e a existência de uma feira periódica, de que já há notícia pelo ano de 1840, devendo procurar-se a sua origem, possivelmente, numa época mais recuada.
Nesta perspetiva do Largo da Feira (denominado, durante o Estado Novo, Largo 28 de Maio, numa alusão à revolta militar que derrubou a I República) pode-se observar a organização do casario em torno do recinto arborizado e já perfeitamente delimitado, com os arruamentos bem definidos e com os edifícios seguindo o alinhamento das vias.
No primeiro plano vê-se, do lado direito, o edifício onde funcionou a Padaria Mesquita, fundada por Arnaldo Mesquita. Logo de seguida surge a casa onde está atualmente instalado o restaurante Pitarisca, que anteriormente fora uma mercearia pertencente ao mesmo Arnaldo Mesquita. Na casa com mansarda, em frente, que pertenceu a Tomás Teixeira Guerra, funcionou nos finais do século XIX uma farmácia, na qual trabalhou o farmacêutico Manuel Moreira. Mais recentemente esteve aqui instalado o restaurante Oliveira. Na casa ao lado esteve uma pequena loja de cabedais que mais tarde deu lugar a uma carpintaria da família Matos.

A Torre de Vilar – um símbolo da povoação

▲ Fig. 3 – Postal ilustrado (1.ª metade século XX), reeditado em 1995 pela C. M. Lousada.

Embora situada na vizinha freguesia de Vilar do Torno e Alentém, muito próxima dos limites com a freguesia de Torno, a Torre de Vilar permanece desde há séculos como um símbolo indissociável da povoação da Senhora Aparecida.
O monumento foi construído, provavelmente, nos finais do século XIII. Apesar da inexistência de documentação que o comprove, a obra terá sido promovida por Martim Gil de Riba-de-Vizela, alferes-mor do reino. A ligação desta importante família à região é muito próxima, sendo mesmo os detentores do padroado da igreja de Santa Maria de Vilar do Torno.
As dúvidas que subsistem relativamente à sua fundação não permitem avançar com uma sucessão segura dos seus senhores. Sabe-se, contudo, que por meados do século XIX a torre andava na posse de Caetano Luís da Silva Teles de Menezes, que veio casar à Casa de Vilar. A sua filha, D. Maria de Jesus Pereira de Castro Caldas, vendeu a torre e um pequeno logradouro em volta do monumento ao 1.º visconde de Alentém, no ano de 1882. Este titular terá sido o responsável pelas primeiras obras de beneficiação do edifício.
Só no início do século XXI foi possível intervir globalmente no edifício, garantindo a estabilidade da estrutura e possibilitando a sua fruição pública. Estas ações enquadraram-se no âmbito da Rota do Românico, entidade que gere atualmente o monumento.

A romaria da Senhora Aparecida num relato de 1886

▲ Fig. 4 – Gravura do desenho de João de Almeida, retirada da obra “O Minho Pittoresco”.

Na semana em que se realiza mais uma romaria da Senhora Aparecida apresenta-se uma perspetiva da antiga Rua Gaspar Guimarães, mais conhecida localmente por “Calçada”. A curiosidade desta imagem resulta do facto de se tratar de um desenho “ao natural”, elaborado por João de Almeida, inserido na obra “O Minho Pittoresco”, da autoria de José Augusto Vieira. O célebre autor e o seu companheiro de viagem deslocaram-se à Senhora Aparecida precisamente no dia da romaria, a 14 de agosto do ano de 1886, tendo oportunidade para observar os preparativos e de conversar com um tendeiro local.
É, seguramente, uma das mais antigas representações da povoação, identificando-se com muita nitidez a capela de N. S. da Conceição, o alinhamento do casario ao longo da “Calçada”, com destaque para a antiga estalagem (já então pertencente a Cristóvão José de Oliveira) e, em primeiro plano, à esquerda, a importante casa comercial de António Pinto Ferreira de Magalhães, pai de Abílio Pinto Leite de Magalhães.
No cimo da Calçada vê-se uma estrutura que se assemelha a um grande arco adornado ou, possivelmente, um dos grandes andores, que ultrapassava largamente a altura da casa de dois andares imediatamente ao lado.
Da conversa mantida com o tendeiro, José Augusto Vieira registou algumas das principais características desta importante romaria. Desde logo ressaltam duas questões que nos deixam uma nota acerca da grande afluência de povo: a grande quantidade de vinho que se vendia, nas tabernas e nas tendas, excedendo as 50 pipas; e as receitas da festa, geridas pela junta de paróquia, que atingiam os 400 mil réis. Sintomático desta enchente de povo forasteiro, também se assinala as desordens que se instalavam, lamentando-se a falta de tropa para assegurar a autoridade. Mas a maior notoriedade constituía, já por essa época, a grandeza da procissão, dos andores e do fogo.

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