Manuel da Silva: da pobreza ao sucesso profissional e social

“Pobre, a minha mãe pediu-nos três coisas: que fôssemos sérios, educados e humildes”, Manuel da Silva

Aos 74 anos, Manuel da Silva é um homem realizado e respeitado. Deve tudo o que conseguiu ao seu trabalho. Há 50 anos em Macieira, é o fundador da Padaria Macieira, hoje com vários estabelecimentos no concelho: Padarias Macieira (1, 2, 3) e Teresinha.

Filho de pai incógnito, oficialmente, nasceu a 10 de agosto de 1945, mas, na verdade, viu a luz do dia 15 dias antes, a 25 de julho, dia de S. Tiago. Um lapso temporal para cumprir prazos legais de registo, muito usual na altura.

Primeiros anos de grande pobreza

Natural de Santa Marinha de Lodares, aí frequentou a escola primária até à terceira classe. Desses tempos não guarda boas recordações, mas não esconde as dificuldades que passou: “Em Santa Marinha éramos os mais miseráveis”, afirma. Com dois irmãos, um rapaz mais velho e uma menina mais nova, recorda tempos de fome e frio: “Andávamos descalcinhos e rotinhos”, caracteriza, acrescentando que chegou a pedir. A irmã, 12 anos mais nova, não terá passado por tantas dificuldades, apesar de tudo.

Com a sua história de vida, Manuel da Silva diz que escrevia um romance, com situações que, aos olhos dos jovens dos nossos tempos, soariam a ficção. Conta-nos como era a “casa” onde morava. Na verdade, tratava-se de uma corte transformada em quarto, onde existia apenas uma cama. “Dormíamos os quatro numa cama, na Rosinha Silva, numa corte arranjada para podermos lá morar”, recorda.

Mais tarde, um tio construiu a casa onde a mãe passou a viver, hoje pertença de Manuel, onde vive a sua irmã.

No dia em que terminou a terceira classe, Manuel da Silva foi servir, como se dizia na altura. Começou pela agricultura, ao serviço de um lavrador. Recebeu o seu primeiro salário mensal: 30 escudos (15 cêntimos na atual moeda). Aí permaneceu um ano. Mudou-se, de seguida, para a Quinta do Souto, para onde foi ganhar 40 escudos.

Com onze anos, ambicionava algo melhor. Por isso, ao fim de um ano, quando surgiu a oportunidade de trabalhar numa padaria ao lado da capela da Senhora dos Chãos em Bitarães, Paredes, a padaria do Garrido, onde o irmão era funcionário, não hesitou. O incremento salarial foi notável: foi ganhar 100 escudos (50 cêntimos), um aumento de 60 escudos, mais do dobro do que auferia na Quinta do Souto.

Aos 16 anos era já um bom profissional de padaria

Mas a vida profissional parecia correr de feição e, ao fim de dois meses apenas, saiu, para ir ganhar 205 escudos – mais do dobro – numa padaria em Caíde de Rei! A redução do ordenado em 5 cêntimos, na altura do inverno, ditou a sua saída. Manuel conta como tudo se passou: “Eu disse que se me tirassem os 5 escudos vinha embora. Então, perguntei ao Sr. Miguel, de Penafiel, que vendia fermento, se sabia de alguma padaria que precisasse de um rapaz como eu”. A resposta não foi dada na altura, mas, dias depois, surgiu a oportunidade de sair: a padaria José Albano de Sousa Freitas, em Paredes, precisava de um funcionário com o perfil de Manuel. Com 15 anos foi ganhar 250 escudos. “Aos 16 anos, já era um bom amassador, bom profissional de padaria”, assevera. Manuel da Silva deu-se bem aí.

Manuel da Silva com uma das primeiras máquinas da Padaria Macieira

O tempo foi passando, até que a obrigação de cumprir o serviço militar começou a ficar cada vez mais próxima e o padeiro sentiu que precisava de se garantir financeiramente. Faltavam dois anos para a tropa quando pediu um aumento ao patrão. O aumento não foi o que esperava, mas aceitou a proposta: passaria a ganhar 1250 escudos, mas a dormida e a comida ficaria por sua conta. Teria direito apenas ao café durante a noite. “Aceitei, pois precisava do dinheiro”, diz.

Cumpridos três anos de serviço militar, em Aveiro e Vendas Novas, no Alto Alentejo, regressou ao Norte a 13 de maio de 1969, instalando-se em Macieira Numa altura que descreve com a palavra “miséria”, o dinheiro que possuía permitiu-lhe apenas comprar um fato novo e uma motorizada. Decidido a tirar carta, recorreu ao padre Maia de Santa Marinha, que lhe emprestou 4 contos (20 euros) para o efeito. Corria o ano de 1969. Assim, conseguiu carta de todas as categorias, exceto serviço público.

Carta sem carro não tinha utilidade. Por isso, Manuel decidiu vender a motorizada e comprar uma “carrinha velhinha, uma Vauxhal”.

Início da vida empresarial em Macieira

Em Macieira, “com uma mão à frente e outra atrás”, como diz o próprio, decidiu iniciar o negócio de panificação por conta própria. Na altura, o irmão, José Silva, conhecia bem a freguesia, pois fazia a distribuição de pão na zona. “Sabia que esta padaria (agora Macieira 1) se ia passar e decidimos ficar com isto”, conta.

Mais tarde, proprietários já de duas padarias (Macieira e Santa Marinha), decidiram dividir este património. “Disse ao meu irmão que, sendo mais velho, poderia escolher a padaria que quisesse. Decidiu ficar com a de Santa Marinha”, diz. Justamente o que queria Manuel: ficar com a padaria de Macieira. Mas, para o conseguir, teve de recorrer ao crédito: “Naquela altura devíamos 700 contos (350 contos cada um aos fornecedores). Fui ao banco Totta e Açores a Paredes pedir 400 contos. O meu irmão fez o mesmo”, recorda. Depois, ao longo dos anos, foi modernizando o negócio, “com muitos percalços”: “Isto não tinha nada, investi centenas de contos para ter o que tenho”, afirma. Manuel da Silva lembra que chegou a cozer 14 000 pães por dia em Macieira.

“Não há ninguém que diga que me comprometi com uma palavra e fugi a ela”

Da mãe não herdou qualquer património material, apenas valores humanos: “Pobre, a minha mãe pediu-nos três coisas: que fôssemos sérios, educados e humildes. ‘Se vós fizerdes isso, Deus vai ajudar-vos’, disse ela. Foram os bens que ela nos deixou. E aquilo que eu era aos 24 anos mantive-o, não sou mais nem menos”, garante. Manuel acredita que por se ter mantido fiel aos valores que a mão lhe passou, é uma referência para os outros. “Não há ninguém que diga que me comprometi com uma palavra e fugi a ela”, afirma, com orgulho.

Entretanto, Manuel conheceu a atual esposa na noitada de S. Luís em Beire: “Uma mulher bonita, grande esposa e dedicada à família e filhos”, caracteriza. Maria José Dias é oriunda de Nevogilde e, por amor, mudou-se para Macieira. Dia 10 de outubro celebra 48 anos de casamento com Manuel. A única dificuldade para o marido foi convencer a esposa a aceitar o seu empreendedorismo: “É uma mulher muito tímida e receosa”, justifica.

A passagem pela vida política

Homem dinâmico e empreendedor, após a Revolução do 25 de Abril, foi desafiado para a política. “O 25 de Abril deu-nos a oportunidade de poder escolher. Ingressei na vida política pelo PSD. Fui sempre PSD e continuo a ser”, realça.

A residir há cinco anos em Macieira, Manuel lembra que foi o Dr. Guerra, presidente da concelhia social-democrata, e Amílcar Neto que o puxaram para a política. Estávamos em 1974 quando formaram a Comissão Administrativa que esteve em funções até 1976, altura em que se realizaram as primeiras eleições, das quais saíram vencedores. Manuel tornou-se o primeiro presidente da Junta de Macieira eleito após o 25 de Abril.

Do período eleitoral, recorda os “comiciozinhos a alertar as pessoas”. “Vinham cá o Adriano Sampaio, o Sr. Amílcar Neto… Era o início da democracia”, afirma.

Numa altura em que o dinheiro para obras era escasso, o presidente da Junta tratou de resolver as questões mais prementes. Uma delas era a iluminação, que, como o próprio afirma, também o beneficiou na atividade profissional: “Tinha uma amassadeira de 150 kg de farinha e a luz ia abaixo. A primeira coisa foi pôr a cabine para a luz, que ainda existe”, explica, contando, de seguida, como tudo se passou: “Falei com Adriano Rafael para arranjar dinheiro para fazer uma cabine”. Apesar de o ter dissuadido, garantiu ao autarca vinte contos, caso conseguisse levar o projeto avante: “Eu dei 10 contos e consegui 400 e tal contos. Pus a cabine, mas o senhor Adriano Rafael nunca deu os 20 contos prometidos”, diz, sem ressentimentos.

O ex-autarca lembra também que abriu algumas estradas e construiu cobertos nas paragens de autocarro, sobretudo “para proteger as senhoras que iam logo de manhã para a feira com as safatas à cabeça”.
Manuel lembra que os primeiros tempos na Junta foram de trabalho árduo. Tudo por causa dos cadernos eleitorais, que tiveram de ser elaborados pela primeira vez. Apesar de todas as vicissitudes do cargo, gostou de exercer as funções de presidente da Junta.

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Saída da Junta para “lutar pela vida”

Mas na altura a função de presidente de junta não permitia a sustentabilidade financeira e Manuel sentiu que era novo e tinha de “lutar”. “Entreguei a ‘pasta’ ao Manuel da Costa Cunha”, que assumiu a presidência da Junta, tendo posteriormente sido candidato pelo PS, assumindo a presidência da Junta ao longo de mais de duas décadas.

Para deixar as contas da Junta “a zero”, os membros do executivo tiveram de pôr um centavo cada um do seu bolso. É que havia um saldo negativo de três centavos! Por isso, o cabrito que Manuel da Silva tinha acordado comer na Pita Arisca com o secretário e o tesoureiro da Junta, quando cessassem funções, teve de ser pago com dinheiro dos seus bolsos.

Dos tempos da atividade política há um nome que o marcou: Amílcar Neto. Entende que “merecia uma homenagem”, pois era um homem bom, educadíssimo, sério, não era fingido e fez obra, apesar de ter poucos meios… Eletricidade, ruas nas freguesias…”

Dos muitos políticos sociais-democratas do concelho com quem foi estabelecendo relações, merece referência Leonel Vieira, de quem é “amicíssimo”.

Sem nunca abandonar a cor social-democrata, Manuel avalia os mandatos dos autarcas em função da obra e não do partido que os elegeram: “O Dr. Jorge também foi um bom presidente. Trabalhou muito para a vila porque as freguesias já estavam melhores”, diz, admitindo que votou nele várias vezes.

Preocupação com o bem-estar social

Dinâmico, Manuel diz ter feito bem a muita gente. Esteve ligado à área social, cultural e ao futebol. Passou pela Conferência Vicentina, foi presidente da associação que integrava o Grupo de Cavaquinhos, em 1981, e integrou a Assembleia Geral da ADR Macieira. O seu contributo no que diz respeito ao futebol tem sido generoso. Como recorda Manuel, quando entrei com o Cristiano, ajudei a associação”. Mas a sua contribuição tem sido constante ao longo dos tempos.

De Cristiano recorda um “homem que se entregava todo à associação e ao futebol. Sinto orgulho. Ele via-me com valor humano”. Manuel esteve nove anos na associação, avisando, desde o início, que sairia ao primeiro sinal de falta de clareza ou traição, o que nunca aconteceu. Saiu por problemas de saúde.

Hoje são os filhos os responsáveis pela vida empresarial. O mais velho assumiu a função de administrador. O ex-empresário sente-se feliz e orgulhoso por ver os filhos seguirem as suas passadas, mas o mais importante é que “tenham uma vida digna”, realça. Agrada-lhe sobretudo que o sigam nos valores: “Eu pedi dinheiro a muita gente e nunca fiquei a dever um centavo”, diz, com orgulho. “Os filhos sabem que os pais nunca foram ricos e têm que trabalhar. Felizmente, não falta trabalho”, afirma, realçando que a padaria de Macieira está de boa saúde e realiza um trabalho assente na qualidade, onde impera a higiene.

“Não troco Macieira por nada”

Com Macieira no coração, não trocaria a freguesia por nada. Diz que é uma terra onde as pessoas se respeitam e se sente acarinhado: “Aquando da inauguração do relvado sintético, houve uma senhora que me disse ‘Um dia que você morra, Macieira para. Você é muito boa pessoa, todos gostam de si’”.

Apesar de se sentir realizado e de “não lhe faltar nada”, há um sonho que concretizaria que ganhasse o Euromilhões: “Gostava de ver na freguesia uma casa de convívio para os idosos e mais desfavorecidos, com médicos, enfermeiros… Uma coisa bonita para as pessoas serem bem atendidas e mais felizes”, diz.

Noutras vertentes, considera que o concelho e particularmente Macieira se têm desenvolvido: “Macieira tem evoluído muito a nível de habitação, ruas… Não deixo de o reconhecer”, afirma.

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