por | 1 Out, 2019 | Opinião

OGMs – Os incompreendidos vilões

Nesta edição trago um tema tanto ou quanto controverso: Organismos Geneticamente Modificados. O que são? São seguros? Devemos estar alarmados? Não darei essas respostas, contudo espero ajudar o leitor a clarificar alguns mitos.

Vamos começar então por esclarecer alguns conceitos como o de “gene” e de “modificação genética”.

Muito genericamente, um gene não é mais que uma cadeia de ácidos desoxirribonucleicos (ADN) que dão origem a uma proteína funcional, e que podem ser divididos em vários segmentos. O resultado direto do gene é sempre uma sequência de ARN que após modificações, ou não, liga-se a um ribossoma e traduz-se numa proteína que ganha função, dentro ou fora da célula.

A modificação genética, ou engenharia genética, foi um ramo da biologia que surgiu como consequência ao aumento do conhecimento sobre genética e funcionamento dos genes. Ao contrário daquilo que se possa pensar, não se trata simplesmente de retirar um gene de um organismo e colocar noutro. Uma das grandes barreiras à transformação genética é a interdependência dos genes com outros e com sinais do exterior. Contudo os passos vão sendo dados e vão sendo cada vez mais desvendadas todas as cascatas de reações que ativam ou reprimem genes de interesse.

O primeiro grande feito desta ciência foi o Arroz Dourado, que permitiu colmatar a carência de Vitamina A em populações pobres, evitando assim a cegueira permanente e mesmo a morte a milhões de pessoas, de África até ao extremo sudeste asiático. Neste caso a planta de arroz recebeu dois genes que aumentaram a síntese de beta-caroteno, que é um precursor da Vitamina A. A título de curiosidade, um dos genes foi retirado de ADN bacteriano e o outro foi retirado de um narciso. Mas nem só em plantas se fazem OGMs. Como exemplo temos a insulina. Esta proteína é atualmente produzida nas grandes farmacêuticas em quantidades brutais… por bactérias! Estes microorganismos, que foram transformados com genes do ADN humano, produzem a insulina humana, e evita assim a morte massiva de porcos (de onde era anteriormente extraída), e baixa os custos aos consumidores, ficando acessível a todos. Atualmente os desafios são outros. A modificação genética dos organismos está muito virada para a antecipação dos efeitos das alterações climáticas em plantas e animais, aumentar a velocidade de crescimento dos mesmos e combater doenças e parasitas de produções com interesse comercial. Estes dois últimos desafios são os que têm vindo a gerar maior discussão na opinião pública. Do ponto de vista ecológico, estas plantas e animais não apresentam evidências de vantagem ou ameaça sobre os outros, porque normalmente o seu metabolismo fica direcionado para o objetivo da modificação. Isto torna os OGMs fracos competidores. Do ponto de vista de saúde pública, não existem evidências que apontem para o perigo no seu consumo direto. Contudo, tal como todas as ferramentas têm o seu lado negro, também a transformação genética o tem. Falamos do RoundUp. Plantas como o milho, a soja e outras de produção em larga escala, são modificadas pela incorporação de um gene para a enzima EPSPS, de origem bacteriana, que confere a resistência a este químico. Com a utilização do glifosato no solo, todas as plantas morrem, exceto as que possuem a resistência. Aqui sim, os transgénicos são danosos tanto para o ambiente como para a saúde; não de forma direta, mas porque a efetividade da transformação depende de agentes externos. Agora deixo algumas questões para discussão. Devemos continuar a utilizar a tecnologia biológica para melhorar os organismos a nosso favor? Devemos voltar às técnicas ancestrais de cruzamento e melhoramento genético? Até onde é eticamente aceitável avançar? Já ultrapassamos essa linha?

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