Jaime Peixoto: o sorriso que todos conhecem

Dirigente associativo, autarca e funcionário das finanças

É, para a maior parte dos lousadenses, conhecido como o ex-funcionário simpático, atencioso e competente das Finanças de Lousada, mas a sua ação na sociedade vai muito para além das suas funções profissionais. Falamos de Jaime Peixoto, de 67 anos.

Natural de Novelas, Penafiel, foi muito novo residir com a família para Figueiras. Filho de pai ferroviário e mãe doméstica, tem apenas um irmão. Ficou órfão de mãe, que faleceu ainda nova, tendo acolhido o pai em sua casa. Filipa Peixoto, a única filha, é o seu orgulho. Dele herdou o “sorriso e a simplicidade”, afirma.

Com uma parte significativa da família dispersa, pois vários tios residem no Brasil, Jaime Peixoto foi criando elos de amizade, alguns dos quais começaram na escola primária de Covas, uma escolha do pai, por se tratar, na altura, de uma escola com melhores condições que a de Figueiras. Desses tempos, recorda o recreio separado do das meninas. A nível religioso, frequentou a catequese em Figueiras, tendo aí realizado a Profissão de Fé.
Com os amigos, recorda os tempos livros empregues na apanha da fruta, mas clandestina! Jaime Peixoto esclarece que, no tempo da fruta, era necessário satisfazer os caprichos do estômago. O seu problema era não ter jeito para trepar às árvores. Restava-lhe a função de vigilante enquanto os amigos faziam a colheita.

A entrada nas Finanças

Acabada a instrução primária, ingressou no Colégio Eça de Queirós, que caracteriza como “a universidade cá do sítio”. O quinto ano (atual nono) marcou o fim do seu percurso académico. Era a altura de conhecer o mercado de trabalho. Começou por uma espécie de estágio não remunerado nas Finanças, na altura junto à Farmácia Ribeiro, no edifício onde estão hoje os serviços municipais. Numa altura em que os funcionários eram insuficientes para assegurar o serviço, a sua ajuda era bem-vinda.

A opção pelas finanças teve como fator determinante o ordenado. Com o irmão a trabalhar no tribunal e um primo nas Finanças, Jaime Peixoto logo comparou os dois vencimentos e concluiu que o dos funcionários das Finanças era mais vantajoso. O do primo ultrapassava o do irmão em 50 escudos, o que, na altura, não era coisa pouca! Portanto, a decisão foi fácil de tomar.

Entrou em 1970 e terminou a carreira a 30 de abril de 2014, “43 anos e meio depois”, precisa. Começou pelo posto mais baixo, escriturário. Seguiu-se o de aspirante, até ao mais alto posto da hierarquia dos serviços. Dos primeiros tempos, recorda o chefe, ainda vivo, Francisco Magalhães.

Serviço militar em Moçambique

Depois de uma passagem pelo Porto, de 72 a 73, seguiu-se o serviço militar nas Caldas da Rainha, onde concluiu o curso de sargentos milicianos.

Passou para Vendas Novas, onde conseguiu ser o primeiro classificado como atirador de artilharia. Supôs que tal fosse o bastante para o livrar do Ultramar, mas enganou-se. Jaime Peixoto explica que um outro militar, “por ter uma cunha do bispo de Viseu”, ficou cá na metrópole e ele teve de seguir para Moçambique.

No Carnaval de 1974, embarcou rumo à colónia. No entanto, aquilo que parecia uma má sorte, acabou por ser revelar positivo: “Foi uma boa experiência. Não foi traumatizante”, afirma, recordando apenas uma situação de maior perigo, um ataque, no regresso ao quartel, já depois da Revolução dos Cravos, mas que não chegou a fazer com que pegasse na arma.

Apesar de tudo, não deixa de reconhecer que a ação no território colonial exigia cautelas e que nem sempre eram cumpridas as normas de segurança aprendidas durante a instrução: “Fui para uma companhia com 14 meses de Ultramar e não se fazia nada do que se aprendia cá. Era tudo a monte”, refere, explicando que, por exemplo, não se observava a distância de 5 metros entre soldados quando se caminhava sobre terreno potencialmente minado. A experiência leva-o a concluir que “havia muita negligência” e que, “se se cumprisse o que se aprendia cá, haveria menos feridos e mortos”.

Negativa foi a experiência da doença que o levou ao hospital de Nampula com febre tifoide, devido à ingestão de água contaminada, embora não se tenha revelado grave.

A 20 de março de 1975, regressou finalmente a Portugal, agora um país democrático. Viveu, então, as primeiras eleições livres, embora não tenha podido votar por não se encontrar recenseado.

Retomou as funções profissionais nas Finanças. Apesar de haver na altura menos empresas e menos contribuintes, o trabalho era árduo e fazia calos no dedo. Numa altura em que não havia computadores, era tudo escrito à mão: “A contribuição industrial parecia um lençol”, recorda, acrescentando que era preciso preencher quatro vezes o mesmo documento.

O telefone era a tecnologia de maior relevo na altura. O primeiro computador surgiu apenas na década de 80 e o sistema informático em rede só chegou aos serviços das atuais instalações. De recordar que as Finanças, depois de passarem pelo edifício dos Paços do Concelho, ocuparam o rés-do-chão do edifício onde estão hoje, na década de 90, tendo subido depois ao primeiro andar. Jaime Peixoto recorda-se bem de ter outorgado a escritura do espaço atual enquanto subchefe das Finanças. Um espaço que pertence ao Estado, adquirido por uma baixa quantia, uma estratégia do proprietário “para chamar novas lojas e vender os espaços”, explica.

Utentes queriam ser atendidos pelo Sr. Peixoto

Em Lousada, Jaime Peixoto nunca desempenhou as funções de chefe, “porque não quis”, explicando que poderia ter concorrido e regressado ao seu concelho, quando o Sr. Neto pediu a aposentação. Na altura estava já em Paços de Ferreira, onde foi chefe, mas “obrigado”, pois nunca aí houve concurso para o lugar, destinado apenas a transferências, “fui muito bem recebido e tenho muita consideração pelos pacences”.

Num local que, normalmente, não é agradável para a maior parte dos cidadãos, que a ele recorrem para tratar muitas vezes de impostos, Jaime Peixoto conseguia granjear a simpatia dos contribuintes, que pediam para ser atendidos por ele. O segredo? “Não enganar ninguém. Se pode ser, pode; se não pode ser, não pode”, explica, acrescentando que tentava atender sempre bem as pessoas com um sorriso. “Muitas vezes, as pessoas não sabiam dizer o que queriam”, conta. Era nestas situações que a sua ajuda era preciosa, no sentido de ajudar as pessoas a resolverem os problemas. Jaime Peixoto lembra que, naquele tempo, o funcionário das finanças era uma referência.

Apesar de tudo, durante as mais de quatro décadas de serviço, chegou a presenciar situações menos agradáveis, de protesto: “O chefe chegou a dar voz de prisão a uma pessoa”, salienta.

Elucidativo do carisma de Jaime Peixoto foi o jantar em sua homenagem, realizado já após a sua saída das Finanças, que contou com mais de duas centenas de pessoas. Na verdade, o ex-funcionário continua a ser uma pessoa estimada no concelho.

Presidente da Junta e Vereador

Sendo um homem muito ativo socialmente, foi desafiado para a vida política. As pessoas entendiam que era uma mais-valia e que “tinha cotação no mercado”, como o próprio afirma. Depois de ter sido secretário da Junta de Figueiras, durante três mandatos, numas eleições muito renhidas, após recontagem dos votos que, numa primeira análise, foram considerados nulos, tornou-se presidente da Junta da sua freguesia, cargo que desempenhou entre 1986 e 1989. A vida política teve apenas uma motivação: “Gostei sempre de estar ao serviço das pessoas”, frisa.

Do seu mandato como autarca na freguesia, recorda algumas obras marcantes: a estrada da rua da capela da Misericórdia ao lugar da Plaina, a ligação a Casais e o alcatrão na ligação a Covas. Era presidente da Câmara Municipal na altura Amílcar Neto, um homem que recorda como alguém que “não sabia dizer que não”, “uma excelente pessoa”.

A sua ação enquanto presidente da Junta foi avaliada positivamente pelo povo de Figueiras, mais tarde, quando integrou a lista de Francisco Barbosa à Câmara Municipal como número dois. A freguesia de Figueiras foi a única onde o PSD ganhou: “Ganhei ainda mais consideração pelo povo de Figueiras. Tenho uma dívida de gratidão para com o povo da freguesia”, afirma. A este respeito, relembra uma situação com agrado, que o faz dar boas risadas: na altura, dizia sempre junto dos figueirenses que era “vice-presidente da autarquia” em Figueiras, tendo em conta os resultados eleitorais.

Como vereador, entre 2002 e 2005, “era da oposição, não era do contra”, tentando sempre apresentar propostas para o concelho, mas reconhece que raramente passavam, por os vereadores sociais-democratas estarem em minoria: eram apenas dois, contra os cinco do PS. Recorda, no entanto, uma proposta aceite pelo Partido Socialista: “Queríamos propor um título honorífico para o professor Luís Pinto da Silva, mas, verificando que apenas o senhor presidente da Câmara poderia fazer uma proposta com este teor, decidimos propor ao senhor presidente que propusesse o referido título. Foi aceite”, relata, com humor.

Antes, porém, de ser eleito vereador, viveu os momentos conturbados no PSD que levaram à candidatura de Jaime Moura pelo CDS e “entregaram” a Câmara ao PS. Censurou a atitude de Jaime Moura, a quem reconhecia competência para fazer um bom trabalho, mas condenava a arrogância.
Seguindo as suas convicções, apoiou, mais tarde, Jorge Magalhães. Talvez por isso o PSD tenha resistido à sua posição como número dois na lista de Francisco Barbosa: “Fui o número 2 porque o Sr. Barbosa quis, não foi o partido”, refere.

Sobre a governação de Jorge Magalhães, caracteriza-a como um tempo de mudança para Lousada.

Não se arrepende de ter tido um papel ativo na política partidária, mas reconhece que ficou “cheio”. Isto porque é um meio onde “há muitos interesses instalados que prejudicam os partidos”: “Batem-nos com as mãos nas costas e depois apunhalam-nos”, lamenta.

Tirava férias para trabalhar nas associações de solidariedade

O gosto de servir a comunidade levou-o ao trabalho associativo. É sócio-fundador (número 3) da Associação Desportiva e Cultural de Figueiras, uma associação com mais de 35 anos. É, no presente, presidente da Assembleia Geral.

Amante do desporto, em especial do futsal, não se limita a assistir aos jogos. É praticante da modalidade, treinando duas vezes por semana. “Quando tinha idade para jogar futebol, o meu pai não deixava, pois rompia os sapatos”, recorda. Agora, Jaime Peixoto, “desforra-se”, mantém uma invejável forma física e a saúde agradece.

Ainda no desporto, de salientar que esteve 18 anos na Associação Desportiva de Lousada. Entrou a convite de José Manuel Moreira dos Santos, para trabalhar nas camadas jovens. Foi vice-presidente, vogal e tesoureiro, nos mandatos da presidência de Francisco Barbosa e de José Cunha. Recorda a grande confiança que este último depositava em si: “O Sr. Cunha dava-me cheques em branco para fazer pagamentos”.

A Cruz Vermelha também contou com a sua colaboração. Foi presidente da instituição durante 6 anos em Lousada. Na altura, as instalações eram, primeiro, no local onde hoje encontramos a Polícia Municipal, mas num edifício antigo, entretanto demolido, e depois em frente ao antigo restaurante “Tico-Tico”. De entre as ações que a Cruz Vermelha empreendia, encontra-se a distribuição de alimentos, que Jaime Peixoto ajudava a fazer: “Metia férias para trabalhar na ajuda aos outros”, conta.
Os Bombeiros Voluntários de Lousada também estão no seu currículo civil, tendo sido 2º secretário na Associação, durante a presidência de José Cunha. Desses tempos, recorda, com saudades, os jantares de Natal. Agora, o seu papel é o de cidadão que continua a contribuir apenas com a suas ideias: “Fazia falta tirar o quartel do centro”, defende.

Foi presidente da Comissão de Festas do Senhor dos Aflitos em 1991, 1994 e 1996. Neste ano, viveu-se uma situação caricata, pois as festas foram organizadas em dois meses e ele contribuiu de forma decisiva para esse “sprint” que tornou possível a sua realização. Colaborou também com outras comissões, embora informalmente. O certo é que a sua cara ajudava a angariar fundos. As pessoas contribuíam por simpatia por Jaime Peixoto, embora ele discorde desta atitude, pois “as pessoas devem dar consoante a sua vontade e não pela cara de quem pede”.

Na Associação de Cultura Musical de Lousada, foi dirigente nas presidências de Jaime Moura e Paulo Afonso da Cunha.

Lousada não é a terra que o viu nascer, mas tem “orgulho em ser lousadense”. Àqueles que não dispensam a alegria do seu sorriso, promete que continuará com a sua “imagem de marca”, reconhecendo-se uma pessoa feliz.

3 Comments

  1. Manuel Cristóvão Barbosa

    Endereço um abraço ao meu caríssimo amigo.

    Reply
  2. Maria da Glória Magalhães da Silva Neto

    Gostei de conhecer o Jaime no colégio Eça de Queirós sempre o considerei um amigo muito Simpático e amigo dos seus amigos .Um abraço de uma colega

    Reply
  3. Camilo Agostinho Sousa

    Um grande abraço para meu amigo Jaime Peixoto.
    Quando nos fazem uma retrospectiva da nossa vida e nela está implícita todo um
    caminho de sucesso é um orgulho.
    Parabéns pelo trabalho.

    Reply

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