As lendas

As lendas, da boca da minha avó, ainda hoje me estão na memória!…

A maneira de as contar levava-me a “ver” um filme verdadeiro, tal era a convicção e a narração dos factos que transmitia a quem as ouvia.
Quase todas as lendas que me contava, tinham a ver com os Santos e a religiosidade. Lembra-me muito bem de me contar as lendas de S. Gonçalo, não fosse ela duma Terra Amarantina, muito ligada às crenças em torno do “Santo Casamenteiro” e, que se estendiam às terras de Lousada, como vamos ver a seguir.

Contava-me ela que o S. Gonçalo fazia milagres e que foi sempre uma pessoa boa e que nunca prejudicava ninguém.

A célebre lenda, à volta da construção do Mosteiro de S. Gonçalo, quando Ele pediu emprestada uma “junta de bois” ao lavrador que andava no meio do campo, para que pudesse carregar e puxar as pedras para a construção do Mosteiro.

S. Gonçalo (Hbarros69 – Obra do próprio)

Contava-me ela que o dono dos bois, não queria emprestá-los, pois o trabalho seria muito forçado e duro e então, indicou ao Santo que eles eram muito bravos e não os conseguiria dominar, o que efetivamente não era verdade pois os bovídeos eram muito mansos.

Convencendo o lavrador dizendo que não havia problemas em serem muito bravos, lá levou os ditos bois para acartarem as pedras para a construção do Mosteiro de Amarante.

Quando os foi entregar de volta ao dono, o Santo perguntou a este se queria os bois conforme os tinha levado, ou então, conforme eles estavam naquele momento. O Lavrador pensando que os animais vinham extremamente cansados, debilitados e doentes pela força do trabalho, disse ao S. Gonçalo que os queria conforme os tinha emprestado! Assim, o Santo soltou o fio de linho (a servir de corda) que os prendia e eles começaram a correr e saltar pelos campos adiante, bravíssimos, para sempre!…

Ou ainda, aquela lenda maravilhosa, sobre o S. Gonçalo de Amarante que queria ir à Festa que se realizava do outro lado do rio Tâmega, “além-do-rio” e o pai não o tinha autorizado a ir, pois deveria ficar em casa a “enxotar” os pardais do campo de milho.

Então o Santo, meteu todos os pardais dentro do beiral e colocou a tapar a saída uma simples grade (instrumento usado para aplanar e desfazer os torrões da terra, construído com ripas de madeira paralelamente colocadas que deixavam várias aberturas onde os pássaros passavam com facilidade).
Chegado ao rio para passar para o outro lado, o barqueiro não o deixou entrar no barco porque o Pai do Santo lhe tinha pedido. Então, S. Gonçalo tirou o casaco, pô-lo na água e colocou-se sobre o mesmo, em pé, “remando” com o cajado que levava na mão e passou para a outra margem. O barqueiro estupefacto só pensava como iria justificar-se perante o Pai!…
Chegado à festa, S. Gonçalo foi avistado por seu Pai e pela sua Mãe e estes ao vê-lo interrogaram-se como era possível estar ali, pois os pardais comeriam o milho e o barqueiro não o deixaria passar para a outra margem do rio. Ele não ficou embaraçado e disse que os pardais estavam “bem” guardados no beiral e que no rio não teve qualquer problema em passar na sua “barcaça”!…

Quando chegaram a casa, já noite, foram ao beiral, retiraram a grade da porta e nenhum pardal saiu de lá de dentro. Toda a noite o Pai pensou que o milho estava todo comido e que durante o ano iriam passar muita fome.
Pela manhãzinha, dirigiu-se ao beiral e nenhum pássaro se encontrava lá dentro. Andavam no campo, como de costume, à volta das espigas que já se encontravam maduras, limitando-se a afugentá-los!…
A minha avó, contava-me também (ainda eu não conhecia Lousada) que S. Gonçalo quando terminou a construção do Mosteiro de Amarante, subiu ao alto da torre e pegando na sua bengala, disse:

Vou atirar a minha bengala, com toda a minha força e onde ela cair, irei construir uma Capela como Ação de Graças pela conclusão deste Mosteiro.

Lançou a sua bengala que foi cair na freguesia de Macieira, no concelho de Lousada!…

▲Capela de S. Gonçalo em Macieira

Então nessa localidade foi construída uma Capela e, ainda hoje, lá se venera o Santo “Casamenteiro”:

S. Gonçalo de Amarante
Casamenteiro das velhas.
Porque não casais as novas
Que mal vos fizeram elas?

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