Reações às declarações de Arménio Moreira, presidente da Associação de Caçadores de Lousada

Em causa, entre outras situações, a não marcação de assembleias gerais, o valor “exagerado” do investimento no Campo de Tiro e a compra dos terrenos sem auscultação dos sócios

Na última edição, apresentamos uma reportagem sobre a Associação de Caçadores de Lousada, onde dávamos conta das obras realizadas no Campo de Tiro, da aquisição dos terrenos por parte do presidente da Associação, Arménio Moreira, e do facto de a atividade da Associação ter perdido a pujança, nomeadamente no que diz respeito à prática do tiro.

Tivemos algumas reações ao artigo publicado. Uma delas chegou-nos de Fernando Sampaio, de 62 anos, comerciante, que foi sócio do clube durante vários anos, mesmo antes de começarem as obras no complexo.

Marcação das assembleias difícil

Aficionado da caça, tornou-se sócio da Associação. Aquando da entrada em funções da direção liderada pelo atual presidente, Arménio Moreira, questionou várias vezes o presidente da Assembleia Geral, José Ferreira, sobre as razões da não convocação das assembleias, “algo que deveria ser anual”, explica. José Ferreira respondia que “não era com ele”. “Eu insisti e, um dia, disse-lhe que, se não a marcasse, iria reunir as assinaturas necessárias para a realização dessa mesma assembleia. Mesmo assim, ele não marcava. Após tanta insistência, marcou a assembleia”, conta.
240 000 euros de investimento? “Não acreditava num valor tão alto”, diz Fernando Sampaio

Nessa mesma assembleia, Fernando Sampaio conta que um grupo de sócios estava preparado para apresentar listas para uma direção, “pelo facto de, ao longo dos anos, esta direção não apresentar contas e não fazer assembleias”, explica. Mas, ainda segundo os relatos deste ex-sócio, no decorrer dessa assembleia, no ponto relativo à prestação de contas, o presidente da direção disse ter investido do bolso dele cerca de 240 mil euros. “Não tenho dúvidas que o Presidente tenha tenha metido algum dinheiro. Quem está nas associações normalmente fica prejudicado, mas não acreditava num valor tão alto e, por isso, pedimos um suporte documental que comprovasse que efetivamente ele tinha esse crédito no clube”, relata. Acrescenta que a inexistência de documentos para apresentar à assembleia motivou a marcação de nova reunião para dali a quinze dias, três semanas. “Passaram-se mais de dez anos!”, desabafa. Após voltar novamente a insistir com o mesmo presidente da Assembleia, a resposta foi a mesma: “O senhor Arménio é que manda, ele é que não faz”. Fernando Sampaio diz que achava muito estranho “pois o presidente da Assembleia é o órgão máximo de uma associação” e a ele competia marcar a reunião.

Fernando Sampaio mostra-se intrigado com as notícias que dão conta das obras “completamente realizadas”. “O campo de tiro a funcionar em pleno, o restaurante alugado a funcionar em pleno, a zona de caça municipal a funcionar, gerida pelo clube e, para espanto meu, já vai em quatrocentos mil euros que lá tem”, diz. “A suposta dívida parece que aumentou para o dobro, quando nessa assembleia o valor já era em si alto e duvidoso. Acrescento que, por esse motivo, pedimos os documentos que comprovassem do valor gasto”, afirma.

Mais tarde, este ex-sócio lembra que houve uma “estranha marcação de uma assembleia para uma sexta-feira das Festas Grandes, às 17h da tarde, em simultâneo com a entrega das medalhas honoríficas do concelho”. Para si, esta marcação tentou esconder o ato, “pois impossibilitou muitos associados de estarem presentes”. Sobre as intenções de tanta discrição, avança com um ponto de vista: “Não sei se toda esta discrição serviu apenas para corrigir o que antes o senhor Arménio não quis mostrar aos associados, os tais 240 mil euros referidos anteriormente. Se assim foi, ainda é mais grave, pois nitidamente poderá ter existido aqui um aproveitamento pessoal. Volto a afirmar a minha estranheza sobre o valor referido na entrevista, quatrocentos mil euros”, refere.

Compra dos terrenos poderia ter tido outra solução

Sobre a aquisição dos terrenos por Arménio Moreira, considera que deveria ter sido convocada uma assembleia para expor aos associados a situação. Sustenta que, dentro da própria associação, deveria ser estudada uma alternativa para a compra dos terrenos, dada a existência de um contrato anterior que conferia a cedência dos terrenos por períodos de 20 anos renováveis durante o período de atividade da associação (enquanto a mesma existisse). “Mas mais uma vez não se realizou nenhuma assembleia para um ponto de tanta importância para a associação”, acusa, apontando o dedo ao presidente da Assembleia: “Era um dos herdeiros, deveria ter o dever moral, como membro da Associação, com as responsabilidades que lhe assistem, de convocar uma assembleia para discutir um assunto de tanta importância para a coletividade”, defende.

Conclui, no entanto, que nada o espanta. “Depois de tantos anos de insistência da minha parte e de mais associados para que as assembleias se realizassem, nunca foram marcadas. Algo está mal”, diz.

Fernando Sampaio sente-se triste “como lousadense, porque aquilo que me ensinaram ao longo da minha vida é que quem está com disponibilidade para a causa pública tem de ter sempre presente os deveres de transparência, responsabilidade e fazer com que os estatutos das associações se cumpram, o que não foi o caso ao longo destes anos. Eu sinto que eu e os sócios e todos os lousadenses fomos enganados”, lamenta.
A ser verdade, lamenta também que as máquinas tenham sido vendidas: “Segundo consta, até as máquinas, 18, dos fossos, foram vendidas ao Clube Caçadores do Porto, sem autorização para tal, sem o conhecimento e aprovação dos associados”.

Autoestrada comprometeu futuro do campo de tiro

Há ainda outra questão em que os sócios mereciam ser ouvidos. Diz respeito à construção da autoestrada, que, para Fernando Sampaio, afetou a modalidade do tiro. “Deveria ter sido marcada uma assembleia informando todos os associados do que se passou e quais foram as razões para, de alguma forma, o futuro da modalidade e do próprio campo terem sido desvalorizados”. Relembra que, na altura, as notícias davam conta de que o campo de tiro era um dos melhores do país, onde se realizavam grandes provas: “Estranho… Como é possível a construção da autoestrada colocar em causa todo um projeto, ainda por cima com fundos públicos? Parece-me claramente que os interesses do clube e do concelho não foram devidamente acautelados. Digo isso, pois, se tivessem existido assembleias e se a Associação tivesse tido outro comportamento, certamente seríamos indemnizados ou a restruturação do campo seria da responsabilidade de quem fez a autoestrada, pois o campo de tiro já existia em plena atividade”, sustenta.

O certo é que Fernando Sampaio deixou de ser sócio em 2006 ou 2007, tendo em conta as “claras dúvidas quanto às intenções da direção ao longo destes anos”.

Apesar de longe da vida da Associação, as conversas com atuais sócios fazem-no perceber “que tudo continua igual e que, ao contrário do que o presidente diz na entrevista, não faz as assembleias gerais, que têm de ser anuais”. “Questiono agora: de quem é a associação? Ainda é dos sócios ou, pelo que vi na entrevista, é do senhor Arménio Moreira, que, no dia que entender, fecha as portas, ficando com todo o património construido com o auxílio de dinheiros públicos?”, deixa as questões.

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