Manifestações de solidariedade lousadense durante do Estado Novo!

O estado pandémico que estamos a viver leva-nos a fazer inúmeras reflexões sobre o funcionamento da nossa sociedade, nomeadamente sobre o atual sistema de saúde e sobre a solidariedade dos portugueses.

Relativamente a estes assuntos, o conhecimento sobre o passado ajuda-nos certamente a compreender (e até a valorizar) melhor o funcionamento das instituições e da comunidade na atualidade.

Hoje em dia é incompreensível para o comum dos cidadãos que o Estado, apesar de algumas limitações, não seja o garante de um sistema de saúde e de uma assistência para todos. Contudo, isto não foi sempre assim e basta recuar ao período do Estado Novo para percebermos que o sistema de saúde em Portugal era garantido por instituições particulares, nomeadamente pelas Misericórdias. Estas apenas recebiam uma pequena comparticipação financeira do Estado, numa verba que foi sendo reduzida a partir dos anos 30. De facto, nesta altura, a ajuda às instituições de beneficência pautava-se pela supletividade do Estado. Ou seja, o seu auxílio era meramente complementar do bem-fazer e do contributo dos particulares.

Esta política assistencial salazarista colocou muitas dificuldades às entidades gestoras dos hospitais. Note-se que a maioria dos hospitais existentes no país foram fundados por benfeitores e não tinham receitas próprias suficientes para prestar a assistência aos pobres.

▲ Fig. 2 – Cortejo de oferendas, em 1944, junto dos Paços do Concelho. Fonte: Céu Neto Queirós.

Tomemos como exemplo o Hospital de Lousada… Inaugurado em 1912, tinha sido instituído em testamento por Manuel Peixoto de Sousa Freire (1847-1902). Em 1920, foi entregue à gestão da Misericórdia de Lousada, tomando a designação de «Hospital Sousa Freire», em memória do seu fundador. A maioria dos doentes aqui tratados eram pobres, logo não pagavam as consultas, os curativos ou os internamentos. Assim, com a redução das verbas públicas imposta pela política salazarista a partir dos anos 30, a Santa Casa debateu-se com grandes dificuldades financeiras para sustentar o hospital. Teve, então, de recorrer à solidariedade dos lousadenses, apostando na realização de cortejos de oferendas para conseguir as receitas necessárias… Até ao final dos anos 60, fizeram-se vários cortejos! Os mais recentes ainda estarão na memória de muitos!
Lousada, perante a adversidade, nunca deixou ficar mal o seu hospital e soube sempre honrar a generosidade do seu fundador e demonstrar os seus altos valores solidários. Os relatos e as imagens da altura testemunham este facto, evidenciando uma forte adesão da comunidade aos cortejos de oferendas. Um desses exemplos ocorreu a 31 de dezembro de 1944. Incorporaram o desfile 310 carros, oriundos de todas as freguesias do concelho, devidamente decorados e carregados com as mais diversas prendas, acompanhados de ranchos de raparigas trajadas com vestuário típico, entoando os seus cantares. Segundo a imprensa da época, «a iniciativa foi uma verdadeira Cruzada altruísta, repleta de animação, de brilho desusado, de vibrante entusiasmo alacre, em que a juventude representava o maior papel e a lavoura conquistara a primazia nesta enternecedora festa de Caridade». Entre os exemplos de dedicação, esteve o rancho da freguesia de Boim, que mereceu elogios pelos seus trajes pitorescos e pela afinação das suas cantoras. Os seus cantares foram um exemplo do modo alegre, abnegado e genuíno com que os lousadenses ajudaram o «Hospital Sousa Freire».

▲ Fig. 3 -Cortejo de oferendas, em 1944, junto dos Paços do Concelho. Fonte: Céu Neto Queirós.


Canção do Rancho de Boim em 1944.

Vimos cheias d’alegria
Ao nosso Hospital trazer
Nossas humildes ofertas
Para os que estão a sofrer.

Nós somos de S. Vicente,
Duma terra pobrezinha,
Mas, conforme as nossas posses,
Damos alguma coisinha.

Arranjamos o que pudemos,
Em alguma quantidade,
Batatas, cebolas, milho
– Tudo tem utilidade.

Nós conseguimos também
Trazer algum galináceo,
É p’ra tudo cozinhar
Muita lenha e bom chumaço.

Tínhamos dificuldade
Em arranjar carreteiros.
Logo de boa vontade
Se ofereceram os caseiros.

Tudo trabalhou, enfim,
Para conseguir esmolas:
Comissão da freguesia,
Professorado de escolas.

Todos estes donativos,
Do maior aos pequeninos,
Deram de boa vontade
Até mesmo os pobrezinhos.

S. Vicente de Boim
É a nossa freguesia;
Terra de gente humilde,
Mas cheia de alegria.
CORO
As oferendas para o Hospital
Lá vamos nós todas levar
– Que linda festa de Caridade!
Que Deus nos há de abençoar.

2.º CORO
Ó terra de S. Vicente,
Terra da nossa alegria!
Não há terra como a nossa,
Como a nossa freguesia!

▲ Fig. 4 -Cortejo de oferendas, em 1944, na Rua de Santo António. Fonte: Casa da Bouça – Silvares.

Pedro Magalhães

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Editorial 158 | Advento

Normalmente, o uso do termo advento está associado a questões religiosas, mas poderá ser muito...

Após alguns anos de fuga e a viver quase clandestinamente numa freguesia do concelho de Guimarães,...

A rede de serviços de transporte rodoviário de passageiros Linhas é a nova modalidade de...

Domingo há jogo grande em Lousada, a contar para a Divisão de Honra da Associação de Futebol do...

Alunos conquistam prémios Nacionais e Europeus

Os alunos do 10.º B da Escola EBS Lousada Norte (Lustosa), do Agrupamento de Escolas Dr Mário...

Há figuras que, mesmo ausentes, permanecem como um ponto de referência. Francisco Sá Carneiro é...

Knowbest está em crise, mas recebeu apoios do Estado

A fábrica de calçado localizada nas proximidades do Complexo Desportivo de Lousada continua em...

2 – Assembleias de Freguesia (Vulgo juntas de Freguesias) – III Resultados eleitorais:...

Natação Adaptada brilha no Open de Inverno

Nos dias 29 e 30 de Novembro de 2025 a Natação Adaptada do Clube Lousada Séc XXI esteve presente...

Lousada Vila Natal 2025 começa domingo às 18h

A época mais encantada do ano está quase a chegar com o Lousada Vila Natal 2025. O início está...

Siga-nos nas redes sociais