Dalmática vê-se obrigada a suspender obras no estrangeiro

Reabilitação do património sofre efeitos da pandemia

A Dalmática é uma empresa sediada em Lustosa, que tem alcançado grande prestígio, nacional e internacional, na conservação e restauro do património.

Rui Barbosa é o proprietário da empresa e, nesta curta entrevista, dá-nos a conhecer o atual momento da empresa e as suas perspetivas para o futuro, tendo em conta a situação pandémica que afetou o mundo e que motivou o adiamento de alguns projetos, sobretudo os internacionais.

Os constrangimentos provocados pela Covid-19 tiveram impacto no vosso trabalho?

A pandemia que se instalou no mundo e que chegou ao nosso país em março teve alguma implicação direta no nosso trabalho. Numa primeira fase, alguns materiais e equipamentos tiveram as suas entregas atrasadas em alguns dias e uns quantos colaboradores nossos entraram em teletrabalho durante um período de tempo, para darem assistência às famílias. Por outro lado, toda a dinâmica de trabalho dentro das oficinas foi alterada, para segurança dos funcionários e de acordo com as normas da DGS. Também na visita a clientes e no transporte de peças, a metodologia foi revista e diminuímos muito a frequência das deslocações. Já no escritório, passamos a recorrer muito mais à videoconferência para a realização de reuniões com clientes e entidades institucionais e desenvolvemos o máximo de trabalho possível a partir de casa para evitar contactos desnecessários. Perante este desafio, a Dalmática reinventou-se, de modo a poder continuar a trabalhar com a qualidade de sempre, salvaguardando a proteção de clientes e colaboradores.

Que projetos estão a ser desenvolvidos neste momento?

A Dalmática está com o projeto integral de recuperação da arte sacra da Igreja Paroquial de Boim. Foi um trabalho que sempre desejamos realizar aqui em Lousada e uma obra que nos deu uma felicidade imensa ganhar, uma vez que se trata de um património de referência da nossa terra. Estamos igualmente a recuperar a totalidade da arte das igrejas de Vila Caiz (Amarante) e de Sobreira (Paredes), assim como temos em execução outras empreitadas de recuperação de retábulos, esculturas, pinturas e outras peças em vários concelhos limítrofes. Temos ainda em marcha uma grande obra de conservação de pintura mural em Vila Nova de Gaia, numa capela de propriedade particular, assim como estamos em fase de aprovação de trabalhos na Ilha da Madeira, um mercado recente que a Dalmática tem vindo a explorar nos últimos tempos.

Como estão a decorrer os projetos internacionais, tendo em conta as limitações impostas às viagens?

A Dalmática está envolvida em alguns projetos internacionais e, inclusive, contávamos em 2020 ter trabalhos em curso no Panamá e no Perú. As empreitadas estavam já bem planeadas, com datas previstas de início, mas, de facto, a pandemia colocou travão imediato a estas obras. Há umas que estimamos poder levar avante assim que a pandemia esteja controlada na América Latina. Mas outras tememos que nunca venham realmente a implementar-se… Estas últimas são obras que dependiam de eventos que iriam realizar-se em momentos muito específicos, com autoridades nacionais e internacionais, e que foram cancelados.

Teme que a situação que estamos a viver possa ter consequências negativas duradouras no vosso trabalho?

O nosso cliente principal a nível nacional são as fábricas de igreja paroquial, que dependem muito da contribuição financeira dos seus paroquianos. Esta pandemia, ao instalar uma nova crise no nosso país, poderá, obviamente, deixar os párocos portugueses de novo com menos recursos para investir no património das paróquias. O que é sempre de lamentar, porque o legado deixado pelos nossos antepassados deve sempre merecer a melhor atenção e ser preservado atempadamente e com os melhores meios.

A Dalmática já está no mercado há alguns anos. Sente que há, da parte das entidades, interesse e apoio para a preservação do património?

Claro que os recursos são escassos e cada um na sua área desejaria sempre mais apoio do que o que existe. Concretamente, gostaríamos que mais fundos pudessem ser investidos na reabilitação do património. E que, mais do que isso, houvesse maior fiscalização para que as obras de conservação e restauro que se realizam fossem de acordo com a deontologia desta área, utilizando os mais rigorosos métodos, os melhores materiais, a mão de obra mais qualificada. Só trabalhando com qualidade máxima se podem garantir resultados duradouros. Essa é a forma de trabalhar da Dalmática. E deveria ser a de todas as empresas do sector…

Sente que as pessoas valorizam mais o património e têm vontade em preservá-lo?

Até há três meses atrás, o turismo ia de vento em popa em Portugal e a reabilitação do património estava cada vez mais promissora no nosso país. Além de Lisboa, Porto e Algarve, Portugal estava a crescer como atração turística um pouco por todo o seu território, fosse para o turismo de natureza, de gastronomia, religioso. Isso fazia com que as entidades que tutelam o património o desejassem manter bem conservado, como cartão de visita elementar para os turistas que passavam. Por outro lado, de há uns anos a esta parte, também os portugueses passaram a dar mais valor ao que é seu, a ter mais orgulho no património material e imaterial português e a desejar mantê-lo e preservá-lo. Previam-se bons investimentos na reabilitação patrimonial nos próximos anos. Agora sofremos este abalo e ainda é cedo para conseguir antecipar os reais reflexos que a pandemia trará nesta questão…

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