Filipe Fernandes: “ A música faz-nos a todos mais felizes”

Há 25 anos a lecionar no CVS

Filipe Fernandes é um dos mais antigos professores do Conservatório do Vale do Sousa, onde leciona há 25 anos, os mesmos da instituição. Conheça o percurso deste músico e professor.

Como surgiu a música na sua vida?

Os meus avôs paternos nasceram em Lousada e foram muito cedo para o Porto, mas estiveram sempre muito ligados à banda, porque a família dos Fernandes e dos Cunhas estiveram desde o início ligados à banda. Desde muito novo que eu vinha assistir aos concertos. Por casualidade, o meu pai era amigo do professor Vieira, que era o maestro na altura e me arranjou um professor. Mais tarde, acabou por ser ele o meu professor e por me preparar para ingressar no conservatório.

Depois da Banda há o convite para ingressar na academia.

Em 1985, tinha eu 11 anos, ingressei na Banda da ACML de Lousada, pelas mãos do senhor Vieira e continuei até que surgiu o conservatório. Para surpresa minha, o senhor Vieira e o senhor Paulo Cunha convidaram-me para lecionar no conservatório. Eu ainda estava a começar os meus estudos no ensino superior, mas fui pedindo autorizações especiais pedagógicas para poder lecionar e acabei por ficar. Agradeço a estas pessoas por terem apostado em mim. Acabaram por, de certa forma, mudar a minha vida.
Começou a lecionar e, de repente, passaram-se 25 anos. Que balanço faz?
Como em todos os projetos, quando nascem, aparecem muitos obstáculos para ultrapassar. O início não foi fácil, quer a nível financeiro, quer a nível da própria imagem do Conservatório, pois era preciso fazer a publicidade e as pessoas acreditarem no projeto. Mas eu penso que em poucos anos o Conservatório conseguiu afirmar-se, nomeadamente com a entrada do senhor Clemente Bessa. A sua direção conseguiu algumas transformações no conservatório, estabilizando a casa, o corpo docente, as contas e, daí para a frente, foi sempre a crescer, dentro do possível, pois temos algumas restrições a nível financeiro, uma vez que o Ministério da Educação só nos deixa ter um determinado número de alunos, a partir do qual não há mais financiamento. Seria bom que isso mudasse, pois temos sempre mais alunos a quererem música.

Está ligado a outros projetos, que têm aberto horizontes a outros públicos.
Em 1999, surgiu a ideia de conseguirmos alargar a música para fora das paredes do Conservatório, criando alguns projetos nos jardins de infância e nas escolas do primeiro ciclo. Fizemos muitas reuniões com os pais e com a autarquia, fazendo-os ver que os projetos valiam a pena. Neste momento, temos todo o concelho de Lousada coberto com música, nos jardins de infância e agora também nas creches. E isto muito se deve à vontade dos pais e empenho das educadoras e dos agrupamentos, que vão passando a mensagem da importância da música para as crianças. Este é o projeto “Brincando Musicando”. Na mesma altura, criamos o projeto “Aprender ao ritmo da música”, mais relacionado com o primeiro ciclo. Com a criação das AEC’S, acabou quase por deixar de existir, existindo apenas nos colégios privados, que apostam e confiam no conservatório para fazer esse tipo de atividade.

Depois ainda temos as unidades de apoio à multideficiência. Temos professores que trabalham com esses meninos que têm mais dificuldades. Para eles é muito bom! Sentem que a música os ajuda a passar melhor o tempo e a desenvolver determinadas áreas.
Além disso, o lar da Santa Casa de Misericórdia também tem agora música. Temos um bom leque de alunos, desde crianças até aos de mais idade.
As crianças e jovens querem aprender música desde cedo…

As coisas vão acontecendo naturalmente. As crianças começam com a música mais cedo, vão ganhando gosto, uns mais que outros. Começando mais cedo, têm de facto a possibilidade de experimentar aquilo de que vão gostar ou não. É um despertar para eles. Nas provas de aptidão, temos sempre mais candidatos do que vagas e isso não acontece noutros concelhos. É realmente uma prova de que de facto, se começarmos mais cedo com eles, podemos direcioná-los para um caminho que pode ser importante para as crianças.

Há muitos jovens dos concelhos vizinhos que têm procurado o CVS?
Nós temos alunos de vários concelhos, como Valongo e Baião, o que prova que o Conservatório já se afirmou na região. Têm escolas mais próximas, mas confiam no trabalho que o Conservatório tem desenvolvido e, por isso, fazem esse sacrifício de percorrerem mais quilómetros para o frequentar.

Tem colegas que foram alunos do CVS e muitos outros com carreiras de sucesso.

É muito bom. É sinal de que o trabalho que fazemos está no bom caminho, que despertou neles qualquer coisa que os fez continuar. E é sinal de que o conservatório aproveita a sua própria matéria-prima e confia no trabalho que fez, porque temos colegas, o Rui Reis, o Nuno Sousa, a Marta Moreira, até nos jardins de infância, o Rui, a Sara, a Carla Sabino, tudo gente que passou por aqui como aluno. São pessoas que estudaram connosco e agora estão ali. É muito bom e até nos ajudam pois trazem ideias novas e, com isso, a evolução.

Há alguns jovens que vão para o estrangeiro…

Felizmente, temos vários e com bons resultados, cuja evolução vamos acompanhando. É um grande orgulho, tanto nos que estão lá fora como nos que estão cá dentro.

Fora da docência, que atividades tem desenvolvido?

Quando estamos nesta área, a música é a nossa profissão, mas também é o nosso hobby. Estou como maestro do Grupo Coral da Faculdade de Economia já há 20 anos. Sou maestro e ensaiador do grupo coral Quirius, um grupo que faz parte da Igreja dos Capuchinhos de Gondomar. Estou ligado à Banda Musical de Gondomar, como diretor da banda e música, e também à Federação das Coletividades do concelho de Gondomar, uma parte mais administrativa.

Que mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores?

Aproveitem, porque de facto nem todos os concelhos e regiões têm a possibilidade de ter um Conservatório com a qualidade que Lousada tem, assim tão perto, sem terem de sair para fora do concelho. Eu vivo em Gondomar e gostava muito de ter um conservatório como o de Lousada. É uma mais-valia, pois a música faz-nos a todos mais felizes. Em tudo o que fazemos precisamos de música.

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

​A falta de civismo na deposição de lixo nos contentores é um problema visível em vários locais....

Há animais que quase toda a gente gosta à primeira vista. A joaninha é um deles. Pequena, redonda,...

Sousela é campeão de futebol distrital do INATEL

A Colectividade Recreativa e de Ação Cultural de Sousela (CRACS) venceu a Final Four da fase...

Lousadense Marco Silva é campeão pelo FC Porto

O jovem futebolista lousadense Marco Silva conquistou hoje o título de Campeão Nacional de...

Foi hoje inaugurado, na Escola Secundária de Paços de Ferreira, um projeto inovador e sustentável:...

Lousadense Beatriz Ferreira mobiliza comunidade para apoiar escolas em Cabo Verde

A solidariedade volta a ganhar voz em Lousada pelas mãos de Beatriz Ferreira, jovem lousadense que...

Na última sessão da Assembleia Municipal de Lousada, perguntei ao executivo que estratégia tem...

“Contas certas não significam contas justas nem desenvolvimento real”

Na mais recente Nota de Imprensa do PSD Lousada, o partido "manifesta a sua profunda preocupação e...

Crédito Agrícola perde em tribunal

O Supremo Tribunal condenou a Caixa Agrícola a pagar e reintegrar Susana Faria, mantendo a decisão...

AGRADECIMENTO

COM ETERNA GRATIDÃO, eu, Maria Irene Monteiro, venho, através d’ O Louzadense, agradecer o imenso...

Siga-nos nas redes sociais