Pandemia faz crescer desemprego no concelho

A comparação dos dados do desemprego em Lousada de maio de 2019 com os do mesmo mês de 2020 permite-nos concluir que existem mais 548 desempregados. Tudo por culpa da pandemia. Esta é a conclusão mais plausível, se tivermos em conta que, nos últimos três meses, se registaram 550 desempregados no concelho.

Nélson Oliveira, vereador do emprego, ação social e economia na Câmara Municipal de Lousada. Três pelouros duramente afetados pela pandemia. Os últimos números de desemprego mostram um aumento nos últimos meses, levando as famílias a recorrerem aos apoios sociais.

O Louzadense falou com o vereador para conhecer melhor as respostas da autarquia no que diz respeito ao emprego e ação social.

Em que ponto nos encontramos relativamente à Covid19 no concelho?

Relativamente a Lousada, p primeiro impacto preocupou-nos a todos, não só pela saúde, mas por toda a dinâmica dos lousadenses. Todos os serviços públicos se viram confrontados com uma realidade que caiu que nem uma bomba em certas situações. Situações que relembramos ao governo na semana passada e que ainda não estão resolvidas. Na situação clínica, nós fomos exemplares: a sociedade civil, toda a rede social, o município, as juntas de freguesia, as instituições, as IPSS, a SCM Lousada, com a questão do lar, que nos preocupava muitíssimo. Foram tremendamente exemplares em toda a gestão que fizeram do seu pessoal, quer eles, quer a Casa da Boavista da ACIP. É muito difícil convencer os seus trabalhadores que, por uma causa maior, têm que estar longe das famílias durante 7 dias.
Foi um período complicado, com um pico brutal. Em certas semanas, estive preocupado, pois via nalguns sítios as coisas a acalmarem e nós sempre com 5, 6, 10 casos. Isto já depois de se abrir um bocadinho a porta. Todos sabemos o que devemos ou não fazer e não podemos ter um polícia para cada cidadão. Se há uma ou outra pessoa que tem um comportamento menos próprio, as autoridades procuram corrigir, mas também não podemos ter uma atitude paternalista porque todos nós erramos, todos nós já tivemos um episódio em que não colocamos a máscara, ou outro tipo de erros. Faz parte da natureza humana. Devemos precaver o erro e ter uma atitude cuidadosa.

Atualmente, está a correr bem. A situação a nível de infetados em julho está mais ou menos controlada, tivemos mais dois, três casos. Mas pode mudar. Existir um foco em Lisboa preocupa-nos, pois estes infetados têm relação direta com esse foco.

A DGS divulga que em Lousada há trezentos e tal infetados. Isso representa o número desde o primeiro infetado. A maioria, cerca de 90% destas pessoas, se calhar, estão curadas. Tem de haver um equilíbrio, temos de ter cautelas. As pessoas precisam de trabalhar e todos nós precisamos de espairecer dentro da responsabilidade. Espero que daqui a um ano ou uns meses estejam livres desta pandemia.

O desemprego aumentou nos outros meses. Quais são os números neste momento?

Os dados são públicos: em fevereiro de 2020 Lousada tinha 1362 desempregados, com mais incidência em pessoas com mais de 55 anos. Em maio, segundo os últimos dados que existem do IEFP, temos 1915 desempregados, isto é, mais 553 desempregados. Houve um acréscimo, que quanto a mim é normal numa faixa da população entre os 35 e os 54 anos, ou seja, da população mais ativa, aquela população que trabalha de uma forma mais intensa, que tem um emprego relativamente estável, com empresas estáveis. É certo que a situação do layoff impediu uma tragédia social e económica brutal.

Nós, enquanto município, temos de colocar mãos à obra e arranjar soluções, serão mais difíceis do que na crise de 2008. Portugal pode ter os serviços, mas temos de ser um país que valoriza a indústria e que trata bem dos empresários. Em Portugal, para se ser empresário, tem de se ser um herói. A carga fiscal é um autêntico desespero. Os trabalhadores, com salários baixos, não conseguem sair de situações aflitivas.

Primeiro de tudo, relativamente à resposta nacional que já está a ser trabalhada, a mim não me diz nada quando falam de milhões para isto ou aquilo. O que interessa é que eles cheguem às empresas, aos trabalhadores. Eu sou apologista de que em vez do layoff seja dado um apoio específico adicional. Em vez de dar dinheiro às empresas (vemos alguns atropelos), o estado deve dar o dinheiro ao trabalhador, para que ele consiga alavancar-se um pouco mais. É uma experiência nova que já existe nos países nórdicos.

Até que ponto as câmaras municipais podem contribuir localmente para diminuir o desemprego?

Muitas das vezes, Lisboa decide e primeiro que o dinheiro chegue aos nossos territórios é terrível. Depois, perdemos tempo em questiúnculas políticas, até em sedes de CIM’S, para andar a discutir quem leva uma parte ou outra… Isto para dizer que o dinheiro demora a chegar às empresas e temos de insistir com Lisboa. Seria benéfica para todos a questão da regionalização, porque assim os elos de decisão estariam no Porto e era mais fácil sermos ouvidos no Porto do que em Lisboa, porque a capital não tem muitas vezes a noção da nossa realidade e das nossas dificuldades. Dou este exemplo: há quantos anos ouvimos a promessa do IC35? É escabroso! O que iria melhorar na mobilidade de Cinfães, Marco, Penafiel, com acesso ao Hospital! Andamos nisto há muitos anos, onde o PS e o PSD andam à guerrilha para ver quem avança ou não.

Existe um elevado défice de informação para as empresas porque na verdade quem tem acesso aos programas são as grandes empresas que têm grandes gabinetes capazes de as assessorar. Porque uma microempresa ou trabalha e está preocupada em arranjar trabalho, ou há de estar preocupada com os apoios que existem. A burocracia é surreal e mesmo assim há atropelos. Precisamos de um duplo simplex, porque o grau de papelada que é necessário para avançar estes programas é elevado, mas o empresário tem de ter tempo para o ler, para o perceber e depois consultar o contabilista…

Como é que o município pode fazer a sua parte?

Nós temos respostas a tudo isto, com a interligação à comunidade intermunicipal, que está mais bem preparada. Estamos de portas abertas, mas também há uma preocupação que eu tenho: ligar a parte do emprego à parte social, pois no meio disto tudo há muitas pessoas que têm situações difíceis e que estão no desemprego, algumas das quais recebem prestações sociais miseráveis. Ninguém pense que em Portugal se consegue viver com o RSI e muitas pessoas centram quase o seu ódio às pessoas que recebem o RSI. São cento e oitenta e tal euros. Se alguém consegue viver com esse valor que me diga.

Há pessoas que recebem subsídio de desemprego ou prestação social, têm situações explosivas porque não conseguem arranjar trabalho. Eu não vejo necessidade, quando há crescimento económico, de o setor público fazer obras, injetar dinheiro. Quando há uma retração no privado, deverá haver investimento público, mas que não coloque em causa as condições financeiras de uma autarquia.

Foi enviada uma proposta ao Centro de Emprego. Estas pessoas que recebem o RSI, que estão à procura de trabalho, não o conseguem, pois muitas vezes têm baixas qualificações, são carenciadas, com muitas dificuldades. A sociedade tem de lhes dar uma resposta, desde logo pelos organismos públicos e responsabilizá-los, exigindo algo em troca. Eu não vejo que estamos a recrutar mão de obra de baixo custo, pois essas pessoas são pagas. O programa que estamos a prever é para pessoas que estejam interessadas e que queiram ter uma oportunidade de ajudar o município na jardinagem, na construção civil, no que quer que seja, recebendo um suplemento, que está previsto pelo IEFP, no total o salário mínimo. Há uma melhoria financeira para a pessoa, um outro conhecimento e até formação, podendo no futuro ter uma nova oportunidade. Até há casos de pessoas que ficaram nos quadros da Câmara e outros que conseguiram ter novas oportunidades. É nosso dever dar um contributo e eles darem um contributo à comunidade.

Como é que se pode caracterizar a mão-de-obra disponível em Lousada?

A nossa indústria está centrada no têxtil. Todos sabemos que os salários baixos são uma realidade, que pelos vistos tem tendência a melhorar. Grande parte das empresas que se vão superando já não dependem tanto de grandes grupos, tendo mais formação, mais qualidade e as pessoas ganham mais.

Também nos compete a nós, na área da formação, com a aquisição das antigas instalações da Associação Industrial, fazer dali um grande centro de formação em áreas que dão mais emprego e precisam de mais qualificação com melhores salários. Também temos os cursos técnico superiores na área de informática. Muitos jovens são de fora de Lousada, vêm para cá e muitos deles tencionam ficar cá. O mercado da habitação está a crescer, o que demonstra que se vive melhor em Lousada.

Também temos de andar para a frente e conseguir captar investimento para o concelho. O presidente da Câmara já esteve reunido, nas últimas semanas, com um grupo económico. Temos algumas boas notícias e esperemos que sejam uma realidade. Estamos a falar de empresas estrangeiras, de mão-de-obra bem remunerada. Possivelmente, no futuro próximo, vamos ter algumas novidades, mas nós sabemos muito bem que Lousada no seu grosso do tecido económico é de pequenas e médias empresas e é a essas que nós temos de dar resposta e ajudar.

Em relação à rede social, quais são as principais preocupações?

Para ser transparente, a nossa realidade de atribuição de apoios sociais, cabazes, pré-Covid e pós-Covid, sofreu um aumento de cerca de 30%, mas, felizmente, não foi o que eu achava, pois estabilizou. Não quer dizer que para setembro ou outubro estes números não possam mudar. Temos de entender que o apoio social não é eterno, é dado mediante o regulamento e as condições que as pessoas naquela altura têm, podendo surgir novas e outras que também desistem. Somos bastante rigorosos nisso. Tem sido trabalho brutal com as IPSS a diluir um pouco este esforço. Algo importante é que o apoio que damos é sempre controlado. A nossa perspetiva é que deixem de necessitar. Não vejo uma diminuição deste apoio. Se estabilizar já será muito positivo.

Há alguns programas que possam reverter as pessoas a nível profissional?

Isso, no fundo, já está a acontecer. Dou o exemplo dos Centros Qualifica, que têm soluções profissionalizantes. Aqui tem de haver algum aconselhamento, quer na Escola Secundária de Lousada, quer no IEFP. Para este público dos 35 a 54 anos, o emprego pode ter de mudar, e tem de haver formação e respostas para reformular muitas vezes o futuro das pessoas. O teletrabalho, por exemplo, para muitas empresas, veio para ficar e isso comporta uma série de outras ferramentas. Não podemos de todo descurar esta parte de super qualificação que é necessária para conseguirmos fixar as pessoas, que trabalham daqui para o estrangeiro.

Em que é que o município pode apostar para fixar emprego?

Está a correr bem. Ainda hoje um empresário me ligou, mas temos um problema: não há pavilhões industriais disponíveis. É bastante curioso que uma grande parte das razões que levam os empresários a procurarem-nos é a questão dos baixos impostos para as empresas. Já não precisamos de dizer isso. E também o preço dos terrenos e da construção que, apesar de acharmos que atingem já valores significativos em todos os concelhos aqui à volta, nós ainda conseguimos ter um setor imobiliário de oferta empresarial com custos mais controlados. As acessibilidades ajudam também, quer as rodoviárias, mas também as ferroviárias. Espero que a linha do Vale do Sousa possa ser feita. Estes pontos que eu referi são os grandes atrativos para vinda de empresários para Lousada.

Até que ponto deve uma câmara municipal ter aqui alguma iniciativa para não haver grande especulação?

Isso é uma situação a ponderar. Mas há uma situação anterior, que são as próprias áreas industriais, por exemplo em Lustosa. Os terrenos estão praticamente todos vendidos e lá conseguimos ter preços muito mais atrativos. Agora, na questão da zona industrial de Caíde de Rei, temos de deixar a possibilidade à iniciativa privada, mas nós temos é de dar condições. Dizemos que temos o terreno inserido numa zona industrial com todas as infraestruturas, deslocalizado das zonas habitacionais, com boas acessibilidades. Este é o cartão para alguém que pensa a médio e longo prazo e pensa no seu negócio numa perspetiva futura. Há uma ligeira dificuldade, mas vão surgindo empresários. Na zona industrial de Boim, tem havido oportunidades. Se conseguirmos continuar a ter terrenos a preços baixos, a 8 € o m2, como acontece em Lustosa, onde falta vender alguns lotes, podemos conseguir o mesmo noutros locais.

Quatro centenas de frações residenciais foram construídas. Pode vir muita gente para Lousada. Como é que Lousada pode responder a um aumento de população?

Eu recebo muitas vezes no atendimento pessoas que estão a pensar vir para Lousada. Atendemos pessoas que pretendem saber as condições que o concelho tem para os filhos, por exemplo a nível de creches. Temos cinco candidaturas para creches, Cristelos, Meinedo, Macieira, Caíde e S. Estêvão de Barrosas, uma distribuição geográfica bastante alargada.

Vêm muitos casais novos, que já têm o apartamento em vista. Vão ver as piscinas, o parque urbano, etc. E não é só no centro. Veem se há estabilidade dos professores, a parte cultural também é importante. Vêm muito por essa questão, pois é uma vila que tem sempre muito eventos e isso atrai as pessoas, que se sentem parte da comunidade. Começa a criar-se uma rede e um sentimento de pertença a Lousada.

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