por | 13 Ago, 2020 | Desporto, Freguesias

Jovem aparecidense já foi chamada à Seleção Nacional

A aparecidense Rafaela Mesquita, de 18 anos, é jogadora de futebol do SC de Braga. Começou a jogar desde muito jovem, na escola, quando se juntou aos amigos, que a convidaram a jogar no Aparecida Futebol Clube. O seu desempenho deu nas vistas e, aos 14 anos, iniciou-se no futebol feminino. A partir daí nunca mais parou.

Jogar numa equipa de rapazes era um grande desafio, pois era necessário combater a ideia de que o futebol não é para raparigas: “Havia sempre aquelas críticas dizendo que futebol não era para meninas. Eu mostrava a minha qualidade e eles ficavam muito espantados. Como é que uma rapariga conseguia jogar às vezes melhor que alguns rapazes?”, conta. A rivalidade acentuava-se no seio daqueles que tinham os filhos a jogar na equipa e viam Rafaela a ocupar um lugar que poderia ser dos rapazes.
Apesar de tudo, a jogadora diz ter tido sempre o apoio dos colegas, dos treinadores e dos adeptos. Contou também com o apoio incondicional do pai, que sempre ansiou que a filha jogasse futebol. Já a mãe mostrou-se mais reticente no início, por ela ser uma rapariga num mundo de homens, mas, com o tempo, também a apoiou na escolha.

Nas escolas onde estudou, inicialmente, também enfrentou alguns olhares discriminatórios por ser uma jogadora de futebol, mas a sua qualidade impunha-se: “Não era uma coisa de que gostassem, mas com o tempo foram-se habituando e, em todas as escolas por onde eu passei, sempre me apoiaram e disseram que tinha muita qualidade. Peguei nesse apoio todo e procurei crescer, crescer, crescer…”

Rafaela começou a jogar como médio-centro e médio-ala, mas a sua evolução e a subida ao escalão Sub13 levaram o treinador a considerar que ela tinha potencial para ser avançada e colocou-a a extremo, posição em que evidenciava rapidez, mas também um bom drible, técnica e um remate forte. “Comecei a extremo, a jogar e a marcar golos. Quando começou o futebol feminino, surgiu a hipótese de eu ser ponta de lança. Marcava muitos golos e lá fiquei ponta de lança”, refere.

Duas épocas no Freamunde

A integração numa equipa feminina deu-se aos 14 anos no Freamunde. “O senhor Vieira viu-me a jogar no Aparecida e achou que eu já era demasiado adulta para estar com rapazes”, explica. Ao pai, foi sugerido que Rafaela integrasse a equipa feminina no Freamunde, situação que viu com bons olhos. “Cheguei lá e tinha jogadoras de 18, 20 anos”, diz. No meio de um mundo de jovens adultas, Rafaela distinguiu-se e o treinador não teve dúvidas de que a nova atleta era uma mais-valia na equipa. “Fui bem recebida pelas colegas mais velhas. Muitas vezes não jogava devido à minha idade e ficava triste e elas puxavam por mim. Diziam: quando chegares à nossa idade vais ser uma máquina!”, recorda.

Rafaela permaneceu no Freamunde durante duas épocas e teve a oportunidade de jogar contra o Braga. Deu nas vistas e este clube chamou-a. “Fiz o meu primeiro treino, dei o meu melhor e fiquei. Continuei a subir. Joguei nos sub19 e na equipa B sénior. Às vezes descia às sub19, mas era mais na equipa B”, afirma.

Ainda no Freamunde teve a oportunidade de se estrear pela Seleção, apesar de nunca ter pensado lá chegar tão cedo. Foi uma surpresa e uma alegria, porque “ir à seleção significa que temos potencial”. Chegou timidamente à Seleção, sem conhecer as colegas, mas rapidamente fez amizades. Realça a exigência deste nível, dada a qualidade das atletas, o que exige ainda mais trabalho.

Passagem pelo Sporting Clube de Portugal

Embora atualmente Rafaela esteja no SC de Braga, passou também pelo Sporting Clube de Portugal, clube que a tinha contactado, mesmo antes de se mudar do Freamunde para o Braga. Na altura, achou que era muito cedo dar esse passo e ficou-se pelo Norte. Mas, no fim da primeira época em Braga, aceitou o desafio e rumou a Lisboa, onde foi bem recebida, mas enfrentou as dificuldades da distância: “Foi muito mais difícil do que ir de Freamunde para o Braga, que era só meia horita e temos os nossos pais. De Braga para Lisboa é muito longe. Numa época, tive quatro vezes os meus pais lá. Foi muito difícil adaptar-me à cidade também. As pessoas são diferentes”. Deu o seu melhor e gostou de lá estar, mas acabou por regressar ao Braga. “Acho que dei um salto muito cedo”, justifica.

O Braga recebeu-a novamente afetuosamente. A porta tinha ficado aberta para o regresso, como conta a atleta: “Sempre me disseram que iriam continuar a gostar de mim e sempre me deixaram as portas abertas”. Regressada àquela a que chama a sua casa, sente-se muito feliz.

A paragem durante o período inicial da pandemia deixou-a triste, porque sentia que ainda tinha muito para dar. Na altura, estava no Sporting. A equipa estava a fazer uma boa época e havia a convicção de que seria campeã. Mas não esmoreceu. Continuou a trabalhar, no início em casa, com o apoio do clube, que lhe enviava os planos. Depois, a partir do momento em que surgiu a possibilidade de treinar acompanhada, juntou-se a um colega jogador do Aparecida, com quem tem treinado para evoluir. E não parou um só dia: “Até hoje tenho treinado sempre todos os dias. Isto para mim é uma tristeza, porque futebol é uma coisa de que nós gostamos e que faz parte da nossa vida. De um dia para o outro deixarmos de ter isso é muito mau”, desabafa.

Próxima época ainda com muita indefinição

A próxima época ainda está envolta em alguma indefinição. Espera-se que comece em setembro, mas o “Braga ainda não nos deu nada em concreto, porque não se sabe quando é que vai começar. A previsão é que comece em setembro. A partir daí, vamos ter uma situação mais clara”, diz.
Se tudo correr bem, a meio da próxima época, Rafaela tentará dar o salto para a equipa A. Mas o objetivo principal é dar o melhor nos sub19 e conseguir o título. “Se pudesse dar o salto, com um jogo ou um treino, era bom. Isso incentiva”, explica.

Como referências femininas no futebol, a atleta lousadense elege a portuguesa Jéssica Silva, que está no Lyon, em França, e a americana Alex Morgan.

Rafaela incentiva todas aquelas que gostam de desporto a darem o primeiro passo sem hesitações, porque o mundo do desporto e particularmente o do futebol também é das mulheres: “Tal como os homens, também temos o direito de sermos felizes no que gostamos de fazer, não no que eles querem”, diz. Aconselha trabalho e dedicação, mas também autoestima: “Nós somos melhores que qualquer pessoa, é esse o pensamento que devemos ter”.

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