por | 26 Ago, 2020 | LivreMENTE, Opinião

Duarte Leite, um notável «magnetense» por (re) descobrir!

A propósito do destaque à freguesia de Meinedo desta edição, damos a conhecer uma das figuras mais notáveis da sociedade portuguesa do final do século XIX e da primeira metade do século XX: Duarte Leite Pereira da Silva. Este indivíduo foi uma peça fundamental do puzzle das elites políticas e culturais do seu tempo, que viveu durante muitos anos em Meinedo, na Quinta de Vila Pouca. Certamente, alguns (poucos) magnetenses ainda terão conhecido Duarte Leite, outros terão memória de terem ouvido falar dele, de ter sido Primeiro-Ministro ou Embaixador, ou da sua esposa, a Embaixatriz, como era conhecida.

Duarte Leite nasceu a 11 de agosto de 1864 na freguesia de Santo Ildefonso, no Porto. Era o segundo filho de Rafael Leite Pereira da Silva e Isabel Maria da Soledade Silva. Seu pai, desde jovem um aventureiro por terras de Vera Cruz, levou-o com cinco anos para o Brasil. Viveu na cidade carioca até aos 11 anos, onde fez os seus estudos primários dando provas do seu talento académico. Em 1875, despediu-se do Brasil e regressou a Portugal, para estudar no colégio de Maria Santíssima Imaculada de Campolide, em Lisboa, onde esteve até agosto de 1877.

▲Fig. 1 – Duarte Leite e Maria Eulália Falcão de Magalhães, sua esposa (1922).

A 14 de outubro de 1880, tinha então 16 anos, ingressou na Universidade de Coimbra no Curso Geral de Matemática e de Filosofia. Tornou-se um aluno brilhante, obtendo inúmeros prémios e distinções que fizeram dele um dos melhores alunos da Universidade no seu tempo. Aos 22 anos já era professor catedrático da Academia Politécnica do Porto, mais tarde, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Aqui demonstrou ser um verdadeiro amante da Matemática e da Astronomia, privando com grandes nomes da ciência, nomeadamente Francisco Gomes Teixeira e Luís Woodhouse. Como professor, foi admirável a sua crença no ensino e na instrução como fator de progresso. Talvez por isso tenha sido o primeiro de um conjunto de notáveis portuenses, entre eles, Magalhães Lemos ou Palma Correia, a assumir o seu compromisso de partilhar o seu conhecimento com as classes populares nas célebres sessões da Universidade Livre, promovidas pelo Comité Académico-operário, em 1903. Foram seis semanas, aos sábados à noite, a ministrar os seus conhecimentos à classe operária da cidade.

Com a Implantação da República, Duarte Leite passou a exercer as suas funções docentes de forma intermitente, tendo interrompido várias vezes o seu papel como lente para poder exercer as funções ministeriais e diplomáticas para as quais foi nomeado. Já muito antes do 5 de Outubro que Duarte Leite se dedicava afincadamente à política e à defesa dos ideais republicanos, em simultâneo com a intensa vida académica. De facto, a vida política nacional do final do século XIX compelia-o a isso. Após o 31 de Janeiro (1891), assumiu-se ideologicamente com a sua adesão ao Partido Republicano, envolvendo-se com determinação na difusão do seu ideário. Em agosto de 1896, fez parte do escol de 68 republicanos diplomados que fundaram, em Lisboa, o Grupo Republicano de Estudos Sociais, onde se incluíam Afonso Costa, José Nunes da Ponte, Manuel de Arriaga, Brito Camacho ou Teófilo Braga.

▲Fig. 3 – Duarte Leite na receção que o Presidente da República brasileiro, Epitácio Pessoa, deu a Gago Coutinho e a Sacadura Cabral (1922).

No auge da sua dinâmica republicana, dedicou-se com esmero à causa, cooperando em múltiplos comícios, particularmente no Porto, cidade que o iria eleger para vereador da Câmara Municipal, nas eleições de 1906. Exerceu o cargo, sob a presidência de Jacinto Magalhães, entre janeiro de 1907 e julho 1910, altura em que pediu licença por questões de saúde. Nos últimos anos da monarquia, a sua ação em prol do ideário republicano manifestou-se também na colaboração que consagrou a diversos periódicos de ideologia republicana, nomeadamente A Voz Publica e A Pátria, que fundou e dirigiu.

Entretanto, juntou às suas obrigações de lente, republicano e jornalista, as obrigações de chefe de família. Foi esta nova fase da sua vida que o ligou a Meinedo. A 20 de abril de 1898, na igreja paroquial de Nossa Senhora das Neves, Duarte Leite celebrou o seu matrimónio com Maria Eulália Falcão de Magalhães, da Casa de Vila Pouca. Deste casamento resultaram quatro filhos, a saber: Isabel, Rafael, Emília e Maria Eulália.

▲Fig. 2 – Duarte Leite, na qualidade de primeiro-ministro, junto do Presidente da República (Manuel de Arriaga), aquando das comemorações do 2.º aniversário da Implantação da República (1912).

Com o advento da República, Duarte Leite, cuja notoriedade o colocava entre os notáveis do país, foi chamado a ocupar vários cargos políticos. Entre 3 de setembro e 12 de novembro de 1911, no governo de João Chagas, desempenhou as funções de ministro das Finanças do I Governo Constitucional Republicano. Pouco tempo depois, entre 16 de junho de 1912 e 9 de janeiro de 1913, foi a sua vez de, cumulativamente, chefiar o Governo Republicano (Primeiro-Ministro) e ocupar a pasta do Ministério do Interior. O seu Governo foi marcado pelo modo como resolveu a greve dos elétricos, em Lisboa, e a segunda incursão monárquica de Paiva Couceiro.
No final de 1914, Duarte Leite foi nomeado Embaixador de Portugal junto do Governo brasileiro. A 24 de novembro, partiu de Lisboa para uma viagem diplomática que duraria 17 anos, pontualmente interrompido para férias que eram sempre gozadas em Vila Pouca. Foi um exercício diplomático longo que se encheu de inúmeros episódios oficiais, alguns deles bem memoráveis, caso da viagem presidencial de António José de Almeida, da chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ao Brasil aquando da travessia aérea do atlântico sul ou da Exposição do Centenário da Independência do Brasil.

Foi durante o exercício do seu cargo diplomático que descobriu a vocação como Historiador. Nesta qualidade, devem-se-lhe algumas das páginas mais esclarecedoras sobre a História dos Descobrimentos portugueses. Em 1922, a convite de Carlos Malheiro Dias, reconhecido jornalista e escritor português, na altura radicado no Brasil, iniciou a sua carreira de Historiador, colaborando na História da Colonização Portuguesa do Brasil. Foi o começo de uma dedicação contínua ao tema. Duarte Leite trouxe à historiografia o rigor do raciocínio matemático e privilegiou a utilização direta das fontes históricas, analisando-as criticamente, questionando os conhecimentos falaciosos sobre os Descobrimentos, nomeadamente o facto de os espanhóis terem descoberto o Brasil antes de Pedro Álvares Cabral.
No entretanto da vida política e diplomática, durante a I República (1910-1926), Duarte Leite foi apontado, por diversas vezes, para ser Presidente da República. Note-se que o processo de eleição, na época, era feito de forma indireta pelo Parlamento, que, em quase todos os atos eleitorais, propôs o seu nome. No final de 1925, após a demissão de Teixeira Gomes, o Parlamento uniu-se mesmo em torno de Duarte Leite acordando em elegê-lo Chefe de Estado. Estando no Brasil, recusou o convite que lhe garantia a eleição como Presidente, argumentando a sua divergência com os caminhos que a República tinha tomado. De facto, as quezílias políticas colocaram-na na «rua da amargura», tendo terminado pouco depois, com golpe do 28 de Maio (1926).
Em 1931, Duarte Leite aposentou-se da vida política e diplomática. Regressado a Portugal, fixou-se definitivamente em Lousada, no recanto da Quinta de Vila Pouca. Aqui viveu os últimos anos da sua vida, dedicando-se aos estudos historiográficos. Faleceu a 29 de setembro de 1950, com 86 anos, na Casa de Saúde da Boavista, no Porto.
Em jeito de conclusão, podemos afirmar que Duarte Leite foi um homem viajado e multifacetado… Viveu no Porto, em Coimbra, em Lisboa, no Rio de Janeiro, em Lousada…. Soube bem preencher os dias de uma vida longa. Os seus contemporâneos consideravam-no um «varão assinalado», com uma personalidade de rica variedade intelectual que conjugava com aprumo e lisura os predicados do seu saber e do seu caráter. Nas diferentes áreas em que se fez sentir a sua presença, foi visível o seu empenho, a sua dedicação e a sua postura inquebrantável que lhe mereceram o reconhecimento generalizado de todos. Foi um homem de raras capacidades… Distinto aluno, aclamado professor, matemático e astrónomo, indefetível republicano, astuto político, insigne diplomata, proficiente historiador… Enfim, um notável cidadão que ficou nos anais da História como um homem capaz de cumprir diferentes funções, em diferentes contextos e de, em todos eles, deixar marcas positivas e duradouras da sua participação.

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