por | 29 Ago, 2020 | Opinião

A “Verdade”, não pode ser camuflada…(Parte final)

E guardo, para parte final desta intervenção, a análise de situações que, muito embora interligadas por um fator comum- a saúde pública- se localizam em diversas áreas da atividade nacional. Vejamos, então:

Conforme tudo levava a crer que seria uma realidade altamente preocupante, a região de “Lisboa e Vale do Tejo” revelou-se, desde há algumas semanas, e a nível do conhecimento público, como área profundamente afetada pela pandemia e geradora de correntes de transmissão do vírus, sendo notória a dificuldade das entidades responsáveis pela tomada de decisões, que a cada vez mais preocupante situação impunha, em justificarem, publicamente, as razões de uma realidade que não era possível camuflar e que as próprias potenciais vítimas, ouvidas por diversos órgãos da C.S. declaravam ou de que se queixavam…E foi assim que começaram as referências à existência de locais de alojamento sem o mínimo de condições de habitabilidade, a vivência em comum em espaços em que as normas de segurança sanitária eram permanentemente infringidas, por falta de alternativas, a utilização de transportes públicos, muito especialmente de comboios, em que a única que a única regra respeitada era de “tudo à molhada e fé em Deus”, comportamentos agravados pelo diminuto número de autocarros postos ao serviço público. Mas a verdade é que várias outras causas vieram a público, citadas pelas próprias entidades a quem competia a condução das operações, com destaque para o desconhecimento da morada de cidadãos ou casos em que as moradas constantes em organismos oficiais, já não albergavam os que era suposto aí viverem…

E o acima referido, torna obrigatório perguntar a quem de direito, onde se encontram os imigrantes, e não são poucos, que permanecem no país em situação de ilegalidade? E a mesma pergunta, no que diz respeito às centenas de migrantes, em situações também de total ilegalidade, algumas dezenas dos quais se encontravam instalados num Hostel em plena Lisboa e que, por motivos da pandemia, foram transferidos para outros locais? Cumpre-me, entretanto, registar que todas as referências feitas, bem como as que se possam seguir, são motivadas exclusivamente por razões de saúde pública…

Entretanto, a força da realidade e, não duvido de tal, reforçada pela força das cada vez mais frequentes críticas de alguma Comunicação Social, muitas vezes dando voz a profissionais da Saúde, originou que os responsáveis máximos, direta ou indiretamente envolvidos na “guerra” em curso, alterassem a “tática” que vinha a ser utilizada, recorrendo à colaboração das Forças Armadas, no âmbito de pessoal, instalações e equipamentos. Pelo meio ficou a impossibilidade de utilização de um Hospital pronto há muitos meses e devidamente equipado, mas inativo, fruto de um não acordo, entre o Ministério das Finanças e da Saúde.

Mas, voltando à situação com que Lisboa e Vale do Tejo se debatem, finalmente algo surgiu, de diferente, no reino da pandemia, com 19 freguesias a serem consideradas na situação de “calamidade” e a constituição de equipas mistas, de profissionais da Saúde e de Segurança, para atuarem no terreno e garantirem o cumprimento dos comportamentos e normas determinadas pelas autoridades de saúde pública.

E saúdo, com satisfação, o que parece ser uma significativa mudança na tática até há pouco adotada, mas de modo algum posso deixar sem registo, algo que dá razão aos que frequentemente se batem por uma restruturação profunda do SNS, tanto a nível do reforço da quantidade do pessoal, como no respeitante à quantidade e qualidade de equipamentos. E a prova da razão que assiste aos que assim pensam, são os milhares de utentes dos Hospitais Públicos, que viram adiadas consultas, exames e intervenções, pelas quais há muito aguardavam!

 E seria muito oportuno que as entidades governamentais se pronunciassem, mas preto no branco, sobre a polémica que envolve o Hospital de Covões, com possíveis alterações que, de acordo com o que tenho visto e ouvido, tem merecido duras críticas, por parte de profissionais que nele trabalham. E por falar em críticas, cumpre-me, como simples cidadão, manifestar o mais profundo reconhecimento pelo que tem sido a atuação dos profissionais de saúde, nesta tão dura batalha em que tão generosamente estão empenhados, sendo a classe de enfermeiros merecedora de uma referência específica, pela qualidade da resposta dada, aos que, em variadas situações, tanto criticaram a classe…

Mas, ainda no âmbito de cidadãos vivendo no país, em situações de total ilegalidade, a esperança gerada pela decisão de, contrariando pela primeira vez, o procedimento previsto no “Pacto Global para as Migrações”, a justiça portuguesa ter ordenado a extradição de 22 migrantes, repito, migrantes e não imigrantes, oriundos parece que de Marrocos e aprisionados quando tentavam o desembarque clandestino, na praia de Vale do Lobo, ficou afetada, ao ter conhecimento de que três elementos do grupo transferido para a área do Porto, ficando sob a custódia do S.E.F.,se haviam evadido, muito embora sendo posteriormente capturados…

Entretanto, os responsáveis- e começo a temer pelo acerto da qualificação-pela Saúde Pública, e não só, deram mostras da intensão de começarem a prestar a devida atenção às empresas de construção civil, área de atividade em que menos se tem dado publico conhecimento dos efeitos da pandemia e na qual exercem atividade, trabalhadores em situação de ilegalidade, alguns dos quais deslocando-se de áreas afastadas dos locais de trabalho ou alojados nas proximidades dos mesmos, em condições que deles fazem alvos privilegiados do vírus. E como é muito reduzida a percentagem de trabalhadores da construção civil submetidos a testes, tudo pode acontecer… Aliás, uma das possíveis causas, sugeridas como razão dos elevados casos detetados na Região de Lisboa e Vale do Tejo, foi precisamente a forte movimentação de trabalhadores daquela área de atividade. E, infelizmente, tudo indica que o número real de infetados sofra, na região atrás referida, um súbito agravamento, dado o acentuado nº de casos de testes de que se aguardam os resultados, conforme informação emitida por fontes oficiais, merecendo igual atenção a informação a seguir transcrita, trecho de um artigo retirado do Jornal Observador e da autoria de Tânia Pereirinha, a quem presto as devidas vénias.

“Atrasos no acompanhamento de centenas de infetados dificultam controlo do surto em Lisboa”

“Centenas de infetados na região de Lisboa têm esperado dias pelo telefonema das autoridades de saúde que devia ser feito em horas. Atrasos dificultam o controlo do surto, acusam especialistas.”

E a acrescentar a críticas já referenciadas, revestem-se de grande significado, inclusivamente pela sua dureza, as proferidas pelo atual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, sinal evidente de que “no reino da pandemia”, muita coisa há para mudar!

Mas, infelizmente, não é só na área da Saúde que urge mudar de rumo, dado que, por muito adequado à realidade do país, valioso e mesmo ambicioso que seja qualquer programa político, de muito pouco valerá, se a responsabilidade da sua concretização ficar a cargo dos habituais agentes políticos, que fazem da demagogia prática corrente e que, frequentemente, fazem da política pouco mais do que um verdadeiro “jogo de interesses”, em que o que a nobre missão de ”Servir o povo”, dá lugar à vil função de “do Povo se servirem”!!!

E o mais preocupante é, ano após ano, assistir à degradação crescente dos pilares de uma verdadeira democracia de que a corrupção, as injustiças sociais, para o que a politica fiscal dá um enorme contributo, as condições degradantes de habitação e alimentação com que se defrontam os cada mais “desfavorecidos”, a que há a juntar o avolumar da chamada “pobreza envergonhada” -e muito mais poderia ser referido- perante a quase total inação dos que são detentores do poder de operar a “Mudança”- os cidadãos- utilizando os meios e processos que a Cidadania lhes confere, sem o recurso à violência, comportando-se como que prisioneiros de uma cobardia, intelectual e politica…E como as situações, por mais penosas que sejam, geram sempre algo de positivo, resta-me a esperança de que as consequências altamente nefastas da crise que se avizinha, funcione como que uma explosão que faça acordar para a realidade, que se prevê altamente penalizadora, todos os que teimam em se manterem “prisioneiros”…      

E, em vésperas de atingir os “82”,plenos de vivência politica e interveniente, direto ou por via indireta, em situações em que não hesitei em, para garantir a Liberdade de terceiros, colocar em risco a minha própria Liberdade, senti, em toda a sua amplitude, a obrigação, moral e ética e, portanto emanada dos Ideais de “Cidadania e Bem comum”, de, enquanto a saúde intelectual tal me permite, lançar um “Grito de revolta” contra os que conduziram o país rumo ao abismo, que pretendo que ao mesmo tempo funcione como “Grito de alerta e de Liberdade” para todos os cidadãos que se têm comportado como “prisioneiros”, acima referidos!

E termino com o princípio que, desde sempre, me acompanha: “Que nunca por cobardia, conhecido seja…”

Lousada,09/07/2020

 Campos de Barros                                                            

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