O início deste novo ano letivo está a ser marcado pela discussão de duas temáticas que, embora não pareça, estão intimamente ligadas entre si. Ao colocarmos todas as questões relacionadas com a Covid-19 em perspetiva, percebemos com alguma facilidade que a pandemia tem uma relação indelével com os nossos comportamentos sociais. Isto é, desde a sua origem, passando pela sua propagação e acabando na procura de uma vacina segura, tudo nesta pandemia está diretamente relacionado com os nossos comportamentos enquanto seres sociais, enquanto cidadãos. Por isso, a pandemia e a educação de todos nós como cidadãos, ou educação para a cidadania, são duas realidades que convém colocar no mesmo plano. A pandemia tem influenciado muito os nossos comportamentos sociais, tal como os nossos comportamentos sociais têm influenciado muito a propagação mais ou menos massificada da pandemia. Até aqui estaremos todos de acordo, suponho eu.
A questão em relação à qual, pelo contrário, há enormes diferenças de opinião é a de saber se a Escola deve ou não trabalhar as questões da educação para a cidadania, centradas mesmo numa disciplina de Educação para a Cidadania, ou se, pelo contrário, a formação de cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres deve passar apenas pela família e outras organizações, como as religiosas ou as políticas, por exemplo. Na minha modesta opinião, de pai e de professor com largos anos de experiência, há dois argumentos definitivos a favor da educação cívica na Escola e até de uma disciplina curricular chamada Educação para a Cidadania, com os atuais conteúdos programáticos ou outros que se possam acrescentar.
O primeiro desses argumentos é que o grau de escolaridade das famílias portuguesas e o grau de profundidade com que conseguem tratar todas as questões da cidadania são muito diferentes. Para além disso, as próprias dinâmicas familiares, que influenciam bastante o número e a extensão das oportunidades em que estas e outras temáticas são abordadas, também são muito diferentes de família para família, mesmo dentro de uma determinada classe social. Ora, a Escola pode e deve funcionar a este propósito, como funciona para ao ensino de todas as outras disciplinas: garantir que, independentemente da sua posição social e das habilitações ou conhecimentos do seu agregado familiar, todos os alunos, repito porque é importante, todos os alunos têm acesso garantido a um conjunto de conhecimentos e reflexões, que poderiam escapar a muitos deles. A questão é que a Escola é mesmo o mais poderoso mecanismo de promoção da igualdade de oportunidades que todos deveriam defender… (se tivessem desenvolvido a sua educação para a cidadania no seu tempo de escola de forma séria e consequente…). Isto não significa que a família e outras organizações sociais ou religiosas não possam também participar ativamente na educação cívica dos alunos. Muito pelo contrário, tudo quanto se ensina na Escola, incluindo a Educação para a Cidadania, pode e deve ser conversado e discutido fora do recinto escolar. Importa é garantir que todos os alunos, mas mesmo todos, tenham acesso a formação e a informação, de forma esclarecida e estruturada, sobre esta matéria, cada vez mais relevante para o futuro da Humanidade, como esta pandemia veio demonstrar, pelas razões que já todos conhecem.
O segundo argumento que, no meu entender, é definitivo a favor do desenvolvimento da educação para a cidadania em contexto escolar é o facto de se proporcionar aos alunos o desenvolvimento dessa matéria entre pares, entre iguais, o que é muito diferente de o fazer em ambiente familiar ou religioso, por exemplo. Julgo que há muitas temáticas dentro da disciplina de Educação para a Cidadania que podem ser tratadas de forma mais proveitosa para os alunos, se forem desenvolvidas em contexto de sala de aula e com o seu grupo-turma. Como é lógico, considero provável a existência de exceções. No entanto, em termos genéricos, entendo que haverá muitas mais vantagens do que desvantagens em se tratar das questões de cidadania em grupos como as turmas, em que são todos de idades muito próximas e estão a viver o mesmo “mundo”, que, quase sempre, é diferente, em muito ou em pouco, dos mundos em que vivem outras faixas etárias, como os irmãos mais velhos, os pais, etc… Claro que na sala de aula também está uma professora ou um professor, mas há também o grupo com as mesmas vivências, as mesmas dúvidas, as mesmas perspetivas, as mesmas expectativas, etc…
E se todos os líderes mundiais tivessem tido uma verdadeira educação para a cidadania, aprendendo a respeitar, no discurso e nas ações, os direitos e os deveres de um cidadão consciente e responsável? Será que a pandemia teria acontecido como aconteceu? Será que tinha provocado os mesmos efeitos em cada um dos países atingidos?












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