Um lousadense bem-humorado e solidário

O sentido de humor, a solidariedade e uma forte paixão pelo Futebol Clube do Porto foram característicos bem vincados em Manuel Brito Coelho de Bessa. Este lousadense, de Covas, faleceu em 2009, com 82 anos. Teve uma extensa carreira profissional na Conservatória do Registo Civil de Lousada, onde se destacou pelo primor e dedicação à profissão.
Manuel Brito Coelho de Bessa nasceu no primeiro dia do ano de 1927, filho de Domingos Coelho de Bessa e Maria do Carmo Ferreira de Brito. Habitavam a Casa do Ribeiro, em Sousela, Lousada. Aquela propriedade senhorial era da madrinha de Manuel Brito, a benemérita da Santa Casa da Misericórdia de Lousada, Isabel Maria Coelho Leal de Sousa Meireles, sobrinha de Dr. Caledónio de Sousa Coelho, Visconde de Sousela.
Fez os estudos liceais no Colégio Eça de Queirós, em Lousada e frequentou o colégio de Ermesinde. Concluídos os estudos, Manuel Brito desempenhou o serviço militar no Porto, em Tavira e Viana do Castelo.
Casou com Maria Laurinda de Vasconcelos Teixeira Mendes e Brito, natural da Serrinha, em 1955. Tiveram dois filhos: Isabel Antónia (1956) e António Alberto (1957).
Manuel Brito iniciou a carreira profissional, em 1954, no Registo Civil e Predial de Lousada, onde se manteve durante 40 anos. Naqueles anos, em que o analfabetismo grassava entre a população, poucos eram os que lidavam a preceito com a burocracia e a legislação, a chamada “papelada”. Manuel Brito destacou-se como um cidadão extremamente prestável e solícito na ajuda a quem precisava dos seus serviços. Isso acontecia amiúde, fora do horário de expediente, e mesmo quando já se encontrava reformado.
O Registo Civil funcionou até 1967 no rés-do-chão do edifício dos Paços do Concelho, onde estava também instalado o serviço de Finanças e a entrada para a Cadeia. Naquele ano, transitou para o edifício do tribunal, também conhecido por Palácio da Justiça. “Entrei como estagiária da Conservatória, em 1965, que à data ainda funcionava no edifício municipal e era chefiada pelo conservador Dr. Artur Pinto da Fonseca. O Sr. Manuel Brito era escriturário, mas pouco depois foi promovido a ajudante do conservador, substituindo o Sr. Ângelo Teixeira Marques, carinhosamente tratado por “Ginho” Marques”, refere a senhora D. Maria Hermínia Amaral. Esta antiga colega de serviço de Manuel Brito recorda que “ele era uma pessoa muito culta e que primava pela cortesia e boa educação. Era extremamente bem-humorado, sempre com uma piada pronta para dizer e com isso animava o dia de qualquer pessoa. Uma característica muito conhecida nele era o gosto pelo Futebol Clube do Porto. Certo dia, levou um rádio e meteu-o na gaveta para ouvir o relato de um jogo enquanto trabalhava. Disse-nos: «meninas, se o Sr. Dr. vier, avisem-me», mas o Sr. Conservador aproximou-se devagarinho e não tivemos tempos de avisar o Sr. Brito. Ele ainda tentou desligar o rádio mas em vez disso ainda aumentou o volume. Mas por ser o Sr. Brito a coisa passou em claro”.
Uma partida ao alfaiate de Cristelos
“Isso passou-se no tempo do Dr. Pinto da Fonseca, que entretanto pediu transferência para o Porto e foi substituído no cargo de Conservador pelo Dr. Adérito Augusto Gonçalves Guerra. Este era a antítese do seu antecessor, pois era muito alegre, comunicativo e muito conceituado entre todos, mesmo entre as hierarquias superiores”, descreve Maria Hermínia Amaral.
Em termos profissionais esta antiga colega de trabalho descreve Manuel Brito como “um profissional muito competente e muito sábio, que estava sempre pronto a ensinar e a ajudar”.
António Dias Machado foi também companheiro de trabalho de Manuel Brito: “Era uma pessoa com um humor extraordinário. Estava sempre de bem com a vida. Ele, o Alberto Novais e o Rega eram três amigos pândegos. Quando se juntavam era risada na certa. Gostavam de pregar partidas, sem malícia e sempre com um grande sentido de humor. Só uma pessoa divertida era capaz de façanhas como esta: o Brito sabia quando José da Silva Pacheco, famoso alfaiate de Cristelos e conhecido pela generalidade das pessoas pela alcunha de “Foguete”, fazia anos. Aliás, ele sabia o aniversário de qualquer pessoa porque trabalhávamos na Conservatória do Registo Civil. Então, para pregar uma partida ao “Foguete”, arranjou uma cana e uma bicha de rabiar, fez um foguete e embrulhou disfarçadamente de maneira a não denunciar logo a prenda e mandou-me lá levá-la. Não se pode dizer que o alfaiate tenha achado muita graça, mas também não levou a mal, ninguém levava nada a mal vindo do Brito”.
Admirador de Amaro da Costa
“Noutra ocasião, estava o Manuel Brito à janela da Conservatória, ainda nos fundos da Câmara Antiga, quando dois irmãos fogueteiros iam a passar, em lados opostos, da rua. Diz o Brito, bem alto: “Muito bem, afastados, porque pode fazer faísca…”, recorda António Machado.
Politicamente, Manuel Brito era, tal como a sua esposa, simpatizante do CDS e tinha admiração por Amaro da Costa, um dos fundadores do partido, que veio a Lousada, em 1975, para um comício que teve a colaboração organizativa daquele lousadense.
Em termos associativos, Manuel Brito foi muito solicitado para questões burocráticas relacionadas com os estatutos e regulamentos das coletividades locais, colaboração que prestava sempre gratuita e prontamente.
Manuel Brito Coelho de Bessa faleceu, com 82 anos, em 18 de setembro de 2009, em S. João de Covas. A sua esposa, Maria Laurinda Brito, atualmente com 89 anos, recorda que nesse dia “fomos tomar a vacina da gripe a Lousada, voltamos e ele foi pendurar na laranjeira uma gaiola com uma rola, enquanto eu me entretinha na internet. Momentos depois, veio ter comigo, com o braço magoado, dizendo que tinha tropeçado e que lhe doía o braço. Fomos à clínica onde trabalhava o meu genro e fizeram-lhe um raio X. Marcaram logo operação para o braço dali a quinze dias. Já no regresso notamos uma ferida muito pequena na cabeça, mas ele não se queixou disso. À noite sentiu-se mal e já ninguém lhe valeu. Era o dia dele, penso eu”, lamenta a viúva.
Nota final: o autor agradece a colaboração das pessoas entrevistadas e a colaboração da família, designadamente o seu filho, António Brito e a viúva, D. Laurinda.














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