Ana Pinto, de Macieira, é licenciada em enologia e mestre em engenharia agronómica. A Adega Cooperativa de Lousada conta com o seu trabalho para produzir o vinho verde da região. Conheça melhor esta enóloga, desde pequena ligada ao vinho.
Como surgiu esse gosto pela área vinícola?
Desde pequena que gosto da vindima, daquele espírito do feriado de 5 de outubro, dedicado às vindimas com a família. Sempre gostei da área de enologia e, quando fui para a licenciatura, na primeira aula de viticultura que eu tive apaixonei-me pela área e foi ali, naquele momento, que eu disse que era mesmo isto que queria.
Como foi a entrada na Adega Cooperativa?
Era um grande desafio para mim, pois era uma jovem licenciada, com pouca experiência. Foi entrar aqui na Adega e ver uma situação debilitada, que ainda estamos a viver, e ter a oportunidade de pegar nos meus conhecimentos e melhorar a produção da Adega. Foi desafiante.
Debilitada porquê?
Os trabalhadores já são antigos, com vinte ou trinta anos de casa, a tecnologia e a morfologia de trabalho que são aplicadas, não são o que hoje o mercado nos exige. Ou acompanhamos o mercado, ou ficaremos para trás. Nesse momento, era isso que estava a acontecer na Adega e eu tenho a certeza de que, com a metodologia que eu tentei implementar e com o trabalho de equipa, as coisas estão a melhorar. Refiro-me mais ao escoamento de vinho, ao reconhecimento do vinho pela população e darmos a conhecer a Adega. Isso está a melhorar, e isso é bom.
Trabalhar mais a imagem do vinho da Adega Cooperativa é um dos objetivos?
Sim, é. Trabalharmos mais no marketing, trazer para cá outras vertentes que não estavam a ser implementadas. Por exemplo, conseguimos ter uma página de Facebook atualizada, com diversas publicações durante a semana, não colocando apenas informação, quando há um ou outro evento. Dar-lhe mais movimento e, com isso, chamar mais a juventude. Estamos a trabalhar nesse sentido. Na primeira fase, procuramos melhorar a qualidade do vinho. Isso conseguiu-se. Agora vamos procurar promover mais o vinho que temos.
O que se fez para melhorar o vinho?
Na faculdade diz-se que para fazer um bom vinho 90% é higienização e 10% inspiração. O meu maior foco foi alterar os hábitos de higiene para se conseguir uma melhor qualidade de vinho. Isso conseguiu-se. Já estamos a receber uma resposta nesse sentido.
Como decorreu a vindima neste ano?
Para mim, foi desafiante, pois foi a primeira vindima em que estive aqui. Deu para ver como tudo funciona e que a tecnologia da adega não é assim tão avançada. Por exemplo, eu estava habituada a trabalhar em adegas onde quase tudo era inox e aqui é quase tudo betão. É muito mais complicado de trabalhar e de higienizar. Foi e será um desafio interessante. Não poderia abandonar um projeto como este.
Como é a relação entre os sócios e a adega?
Temos uma relação boa. Eles gostam do nosso acompanhamento em campo, pois assim fazemos os controlos de maturação, o que é importante. É bom ter essa vertente para depois os resultados chegarem até nós. Se fizermos um bom controlo de maturação, se os agricultores fizerem uma boa gestão das aplicações dos tratamentos ao longo do ano, isso vai resultar num bom vinho. Também não queremos que nos cheguem uvas podres. É bom, que nos cheguem uvas sãs, pois isso é sinónimo que podemos ter um bom vinho.
Qual o balanço que faz?
Comparando com o ano passado, houve uma quebra de uvas a nível de quantidade, mas a nível de qualidade melhorou.
Quais são os vinhos que a Adega recebe?
Nós trabalhamos com as castas Fernão Pires, Arinto e Trajadura e Loureiro. Depois veem algumas uvas típicas da ramada. Dentro do que nos chega, tentamos fazer diferentes vinhos. Sabemos, que os vinhos de castas são vinhos mais aromáticos, vinhos de maior qualidade e são esses vinhos que provavelmente temos de diferenciar.
Tem existido ao longo dos últimos anos uma aposta em novos vinhos, por exemplo o Vinho da Camélia?
Não temos muitos tipos de vinho. Temos o típico garrafão branco, tinto e rosé. No que toca a garrafas, temos a nossa gama de espumantes branco, tinto e rosé; temos um vinho Doc e um vinho de mesa mais corrente. Além disso, temos o Vinho da Senhora rosé, juntamente com o frisante. Preferimos trabalhar com menos gamas, mas a nível de litragem não temos mais capacidade de vinho.

E as vendas?
Neste último ano, as vendas aumentaram e o nosso comercial tem tido boas apreciações em relação ao vinho. Dizem que está melhor, o que para nós é muito positivo.
Quais são os principais objetivos que a Ana e a Adega têm para o futuro?
Continuar a melhorar a qualidade do nosso produto e apostar muito no marketing. Deixarmos de ter aquela ideia de que o vinho é de uma adega cooperativa, muitas vezes desvalorizando a qualidade, pois conseguimos fazer um bom vinho e com um bom posicionamento de mercado e isso é o nosso principal objetivo. Gostaríamos, no futuro, de apostar na exportação, mas vamos ter de batalhar um bocadinho mais, pois o mercado externo exige algumas coisas nas quais ainda não nos é possível pensar.
Sente que os lousadenses deveriam estar mais próximos da adega?
Claro que sim. Temos aqui bastante história, e isso é muito importante para nós e para qualquer negócio. Aqui conseguimos ter aqui um bocadinho do que é a alma da cooperativa. Temos aqui alguns equipamentos antigos, pelo que seria interessante criar um mini museu. As pessoas de Lousada poderiam dessa forma conhecer o que há aqui dentro.
A pandemia prejudicou a Adega cooperativa, em termos de vendas e de produção?
Trabalhamos mais com os mercados locais, não trabalhamos para grandes superfícies e, por essa razão, não saímos muito prejudicados por causa da pandemia. A nível de produção correu tudo da mesma forma, pois a pandemia não influenciou.












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