Por José Carlos Carvalheiras
O protagonista desta crónica biográfica sai um pouco da linha ou dos parâmetros que venho privilegiando nesta seleção de “Louzadenses com Alma”. O Toninho Bagaço foi uma pessoa marcante na sociedade lousadense da sua época, mas não pela participação no associativismo, nem por desempenhar funções públicas de relevo ou por ter protagonizado grandes façanhas de mérito social (embora fosse pessoa altruísta e solidária). Este antigo industrial lousadense tinha uma capacidade extraordinária de animar e dar alento através do seu peculiar sentido de humor, que contagiava todos que o conheciam.
António da Silva Ferreira nasceu a 3 de abril de 1947 na Avenida Major Arrochela Lobo, em Lousada. Era filho de Alfredo da Silva Ferreira (eletricista) e Maria do Carmo da Silva (dona de casa). Dos 11 irmãos era um dos mais velhos. Teve uma infância feliz, humilde, mas sem que nada lhe faltasse.
Estudou eletrónica por correspondência e começou a trabalhar com 15 anos, numa oficina de rádios e televisões, que havia na Rua de Santo António, junto à farmácia Fonseca, em Lousada.
A sua irmã, Fátima Ferreira recorda, que “ele fez a tropa no Ultramar e em Moçambique, onde também esteve o seu irmão Gilberto. Muito cedo sentiu o bichinho do futebol tendo sido um jogador (defesa) promissor”.
António Ferreira da Silva foi um jogador de futebol notável na sua geração local e regional. Ainda hoje, muitos contemporâneos recordam as suas qualidades futebolísticas. Mas, também lembram, que a sua alcunha foi adquirida por causa de uma característica enquanto jogador de futebol: quando as coisas não lhe corriam como queria, sentava-se ou deitava-se no chão em forma de protesto. Por isso os colegas diziam que ele era “podre como o bagaço”. E desde a juventude ficou com a alcunha Bagaço.
Fez parte da primeira equipa de juniores da Associação Desportiva de Lousada, em 1963/64, que era treinada por António José Malheiro Guedes de Sousa Magalhães. Dessa equipa faziam parte: Gonçalo Dias, Talau, Azevedo, Zé Manel “Doceiro”, Fernando Melo, os irmãos Rui e Afonso Magalhães, António Miguel, Toninho “Bagaço” e o seu irmão Gilberto, que fiou conhecido por Gilberto “Fadista”.
Além de futebolista, que segundo o seu amigo António Miguel “passou ao lado de uma grande carreira”, o Toninho Bagaço foi um empresário bem sucedido no ramo das confeções. Mas o que mais o notabilizou foram as suas características pessoais.
Charmoso e bem humorado
A sua irmã Fátima refere que ele “era muito malandro, mas sem nunca ser maldoso” e relata que “houve uma altura em que saiu da oficina e foi para a loja do recoveiro, colocou uma nota de 1000 escudos presa com um fio de sediela junto ao passeio e quando as pessoas passavam e viam a nota tentavam apanhá-la. Escondido lá dentro, ele puxava o fio e as pessoas, coitadas, iam atrás da nota na tentativa de a apanhar. Era tão bem engendrada esta brincadeira que não vendo ninguém a puxar a nota, havia quem pensasse que era mafarrico ou bruxedo”.
Quem o conheceu destaca-o inevitavelmente como “namoradeiro”. A sua irmã, por exemplo, recorda o efeito que o seu irmão provocava nas raparigas da sua juventude: “as moças até se chateavam umas com as outras a disputa-lo” e diz que o caso não era para menos porque o seu irmão “era um homem muito charmoso, bem cuidado e vaidoso”.
Quando regressou do Ultramar, António foi trabalhar para a Fabinter, mais conhecida por Kispo, do grande empreendedor suíço, Hans Isler. Especializou-se naquela indústria de confeções como técnico de máquinas e de lá saiu para criar a sua própria firma, em sociedade com Rogério Moura, de quem era muito amigo desde jovem. Andavam sempre juntos e as suas esposas até são da mesma cidade, Guimarães.
António “Bagaço” Ferreira casou com Emília Miranda Ferreira, com quem teve 3 filhos, Isabel, Rogério e Alfredo.
“Era um indivíduo portador de um otimismo e de um sentido de humor contagiante”, salienta o seu antigo vizinho, José «Zito» Borges. A irmã Fátima sublinha que “ele tinha muito sentido de humor, umas anedotas e brincadeiras para todas as ocasiões”.
Onde ele chegava, era de esperar que dissesse uma piada ou uma anedota ou ter um gesto de ânimo e alento para com este ou aquele. Também fruto disso, tinha muitos amigos e os seus funcionários admiravam-no. Pese embora fosse uma pessoa exigente, era compreensivo e amigo.
Atacado pela fatalidade
Depois de diluída a sociedade com o sócio e amigo Rogério, assumiu a empresa sozinho, preservando o seu nome, a sua marca por anos. O nome STIFF era associado a qualidade, seriedade e generosidade e foi uma das mais longas e prósperas indústrias de confeções em Lousada.
Aquela irmã destaca-o também como “um homem honesto, amigo do seu amigo e dedicado ao trabalho. A família para ele era tudo, estando sempre lá quando os pais, doentes, precisavam. Era ele quem acompanhava o pai ao Hospital de São João e a morte da mãe, de quem era muito amigo, foi um grande desgosto para ele”.
Esse seu lado patriarcal fazia-o valorizar a união familiar e os valores dos laços. Era frequente juntar irmãos, cunhados, sobrinhos, todos quantos podia, para celebrar o Natal e Ano Novo em sua casa.
Houve um acontecimento que afetou decisivamente a vida de António “Bagaço”. O falecimento trágico do seu filho Rogério, de 16 anos, no dia 8 de junho de 1991.
“A sua alegria desvaneceu-se e ele começou a desenvolver algumas patologias e deixou de ser o homem que era. Tentava disfarçar, tentava manter o seu lado maroto e brincalhão, procurava fazer-se forte, mas aos poucos foi-se deixando ir abaixo pela dor daquela perda. Ele visitava o filho no jazigo, de noite, sem que ninguém visse, mas as pontas dos cigarros mal fumados acusavam a sua presença”, revela Fátima Ferreira.
Os problemas de saúde, cada vez mais presentes, começaram entretanto a limitá-lo, e sem aquela metade de si, perdida precocemente, foi-se alheando da vida.
Celebrou o seu último Natal em 2012, junto dos seus amores maiores, falecendo um dia depois, a 26 de dezembro, deixando na família e amigos muita dor e saudade, mas a certeza de que pese embora as adversidades, aproveitou a sua caminhada até ao fim.
Post scriptum – Deixo aqui um agradecimento à família do Toninho Bagaço, especialmente à sua irmã, dona Fatinha. E ao Luís Ângelo Fernandes, por lembrar a pertinência desta figura para esta secção biográfica que O Louzadense publica.












A descrição do meu amigo Toninho está de acordo com o grande ser humano que era e uma figura querida da história da nossa Lousada. Apenas se enganaram no lugar que ocupava na ADL, que não era defesa, mas antes ponta de Lança. E não fosse o pouco interesse pelo jogo, poderia ser um grande craque. Sei que está em bom lugar e um dia vamo-nos encontrar e reviver os bons tempos que vivemos. Grande abraço eterno amigo.
Só uma chamada de atenção ao jornalista, o meu Pai o nome era, Alfredo Ferreira da Silva, o meu Irmão era, António da Silva Ferreira. Desculpem a minha pertinência.
Julgo que o irmão mais velho, Joaquim da Silva Ferreira, também jogou com ele no ADL, era Guarda-redes…. e se me lembro os almoços e jantares de natal com a família toda reunida era em casa do meu avô Alfredo, para ser mais preciso.
O Toninho Bagaço era meu padrinho, de quem guardo grandes recordações, de quem recebeu dele grande carinho e cujo seu humor me ficou marcado para sempre.