por | 25 Dez, 2020 | Opinião

O Natal em Lousada

Artigo de Altino Magalhães

O Natal foi sempre (ainda o é) a festa mais importante do calendário festivo cristão e tradicionalmente comemorado em família.

Desde há muitos e muitos anos, as pessoas deslocam-se de bem longe, procurando viver a noite de 24 para 25 e o próprio dia 25 de dezembro junto dos seus parentes, vindo até casa dos avós e dos pais, onde se juntam, para festejar de forma bastante efusiva a noite da “Consoada” e o dia de Natal. Muitos ficam ainda para o dia 26 para irem à feira das Oitavas!…

Antigamente, na véspera de Natal, uns vinham de comboio, saindo na Estação de “Cahide”, outros de “camioneta” (autocarro), e até a pé quando o percurso era possível fazer-se, para se chegar antes de anoitecer. De automóvel, somente um ou outro, melhor “instalado” na vida!… Não havia casa alguma, nestas Terras de Lousada, que não se comemorasse o nascimento de Jesus.

Uns dias antes, era “armado” o Presépio. Já se compraram algumas prendas na feira e os condimentos alimentares que não existiam em casa já foram adquiridos, para que não faltasse nada, quando chegassem as visitas, naquele dia especial.

Durante o dia 24 de Dezembro, a azáfama era total. As donas de casa faziam os doces e preparavam os alimentos para serem cozinhados à noite. Os homens passavam esse dia no campo a apanhar erva para o gado, ou então a tratar dos animais, pois estes dias que se avizinhavam não se trabalhava e era preciso manter os animais protegidos.

Os filhos, netos e bisnetos, alguns sobrinhos, tios e irmãos iam chegado ao longo do dia…

Logo após o jantar (almoço nos nossos dias) do dia 24, estava na hora de preparar a Ceia de Natal!… As rabanadas, a aletria, as filhoses, os bolinhos de chila (botefa/abóbora), o bacalhau frito com açúcar, os formigos (iguaria de pão cozinhado, mel, vinho, manteiga, ovos e açúcar, recheados de pinhões, nozes e avelãs), a sopa seca… já estavam prontas desde a manhã e o pão de milho já tinha sido cozido em forno de lenha, lá pelas cinco horas da matina!…

Então, nessa tão esperada noite, reunidos à volta da mesa coberta com a melhor e mais bonita toalha de linho, iluminados pelas candeias de azeite ou a petróleo (uma ou outra casa já possuía “petromax”), lá comiam, à farta, as batatas cozidas com bacalhau e ovos cozidos, acompanhadas pelas tronchudas, cenouras e um ou outro legume colhido diretamente da horta da casa. A lareira crepitava de “alegria” com tocos de lenha bem seca. A almotolia neste dia estava cheia de azeite e ao lume, cafeteiras de barro, onde se preparava café para se ir bebendo durante o serão que se avizinhava longo.

Chegava a hora das sobremesas e de degustar os doces que bem “enfeitados” com açúcar, canela e outras especiarias, apareciam na mesa com um aspeto de se ganhar “água na boca”!…

Depois de refastelados de um abundante jantar, os mais velhos recordavam tempos idos, contavam contos e cantavam melodiosas canções de Natal até à hora de irem à Missa do Galo, pela meia-noite, na Igreja matriz da freguesia que também estava ornamentada com bonitos presépios e com um grande Menino Jesus de barro que iria ser dado a beijar, a todos os presentes, no final da Missa.

Os mais novos jogavam ao “rapa, tira, deixa e põe” (jogo tradicional popular que haveremos de fazer referência em rubrica própria), os mais velhos jogavam às cartas, ao “par e pernão” e a outras brincadeiras.

 Chegada a hora de ir para a Missa do Galo, que começava à meia-noite em ponto, os mais pequenos iam para a cama e não se esqueciam de deixar um sapatinho junto da chaminé. O Menino Jesus haveria de deixar uma prendinha no sapato, durante a noite!…

As raparigas solteiras levavam para a Missa do Galo, um fruto, normalmente uma maçã, nozes, avelãs e pinhões para dar aos namorados e eles por sua vez, levavam um lenço da mão, bordado com versos (lenço dos namorados), para retribuir à moça o “presente” que lhe havia sido dado naquela noite!…

No dia 25, os mais novos, ansiosos por ver o que tinha o sapatinho, levantavam-se muito cedo e corriam pela casa até à chaminé da lareira da cozinha para verem o que o Menino Jesus lhes tinha trazido como presente. Naquele dia todos os sapatos tinham algo. O Menino Jesus até tinha sido bastante generoso porque se portaram bem ao longo do ano!…

Ao meio-dia, a comida era melhorada e comia-se então, o melhor frango da capoeira, assado no forno de lenha ou então carne de porco que era “guardada” para esse dia. Preparava-se um bom “cozido à portuguesa”. Pessoas havia, em casas mais abastadas, que matavam um cabrito ou um anho da corte e assavam-no no forno, com batatas das mais pequeninas para serem assadas inteiras, acompanhadas com arroz do forno com açafrão. Tudo bem acompanhado pelo vinho tinto “carrascão” colhido na vindima passada e provado pelo S. Martinho numa caneca de porcelana.

No final e antes de comerem os doces que tinham sobrado da noite de Consoada, ainda comiam “canja de galinha”.

De tarde lá vinham as danças e cantares, no adro da igreja, num ou noutro terreiro da casa, se o tempo assim o permitisse. Mas, como era época do frio, dançava-se e cantava-se mais dentro de casa, principalmente nas cozinhas grandes. A Festa durava todo o dia de Natal!…

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Lousada ultrapassou os 50 mil habitantes, devido ao aumento da população estrangeira

Análise do jornal O Louzadense aos mais recentes dados provisórios e preliminares do Instituto...

Equipa de Shinkyokushin conquistou seis pódios

O WIBK Dojo Verdadeiro Espírito, do lousadense Paulo Rente Silva marcou presença no Torneio...

Atleta de Lousada convocada para Jogos do Eixo Atlântico

A jovem Daniela Pereira, natural da freguesia de Pias, em Lousada, foi convocada para integrar a...

"Talvez seja por isso que gosto tanto das nascentes. Porque, ao contrário dos rios, que toda a...

Campeões Nacionais de Natação Adaptada

Os atletas lousadenses do clube Lousada Século XXI estiveram em grande evidência no Campeonato...

A bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, Paula Franco, foi uma das convidadas do...

Forte internacionalização do Inferno das Febras

O Inferno das Febras regressa ao Parque de Lazer e Merendas de Casais, em Lousada, nos dias 28 e...

O treinador penafidelense João Paulo Guedes Silvestre, de 36 anos, é referido por várias fontes...

Protocolo para projeto de turismo cultural assinado entre a CCDR-N e Vidas em Cena

A Associação Vidas em Cena, de Lousada, está entre as dez entidades culturais da Região Norte...

A celebração dos 100 anos dos Bombeiros Voluntários de Lousada constitui um momento de...

Siga-nos nas redes sociais